Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição. Fotografia: Hugo de Almeida. Cortesia Galeria Fernando Santos.


Vista da exposição. Fotografia: Hugo de Almeida. Cortesia Galeria Fernando Santos.


Vista da exposição. Fotografia: Hugo de Almeida. Cortesia Galeria Fernando Santos.


Vista da exposição. Fotografia: Hugo de Almeida. Cortesia Galeria Fernando Santos.


Vista da exposição. Fotografia: Hugo de Almeida. Cortesia Galeria Fernando Santos.


Vista da exposição. Fotografia: Hugo de Almeida. Cortesia Galeria Fernando Santos.

Outras exposições actuais:

PEDRO VALDEZ CARDOSO

O FILHO DO CAÇADOR


Appleton [Box], Lisboa
FRANCISCA CORREIA

CATARINA BRAGA

POST-WORLD


PLATAFORMAS ONLINE,
CATARINA REAL

COLECTIVA

PAUSA | LIVROS - PARTE 1


PLATAFORMAS ONLINE,
SÉRGIO PARREIRA

NATÁLIA AZEVEDO ANDRADE

THORNS AND FISHBONES


PLATAFORMAS ONLINE,
CATARINA REAL

LOURDES CASTRO

A VIDA COMO ELA É


Museu de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto
CONSTANÇA BABO

TÂNIA CARVALHO

COMO SE UMA CAMADA DE ESCAMAS BEM FECHADA


PLATAFORMAS ONLINE,
CATARINA REAL

FRANCISCO VIDAL

OFICINA TROPICAL


Zet Gallery, Braga
FRANCISCA CORREIA

MIGUEL CHETA

TODOS NÓS NASCEMOS ORIGINAIS E MORREMOS CÓPIA


CECAL – Centro de Experimentação e Criação Artística de Loulé, Loulé
MIRIAN TAVARES

ÁLVARO LAPA

LENDO RESOLVE-SE: ÁLVARO LAPA E A LITERATURA


Culturgest, Lisboa
JOANA CONSIGLIERI

JOANA ESCOVAL

MUTAÇÕES. THE LAST POET


Museu Coleção Berardo, Lisboa
FRANCISCA CORREIA

ARQUIVO:


AVELINO SÁ

QUASE NADA




GALERIA FERNANDO SANTOS - ESPAÇO 531
Rua Miguel Bombarda, 531
4050 – 379 Porto

29 JUN - 07 SET 2019


Quem por estes dias passar pela rua Miguel Bombarda, no Porto poderá visitar o Espaço 531 da Galeria Fernando Santos onde se encontra uma exposição de trabalhos recentes de Avelino Sá. Era assim que, há algumas décadas, os jornais apelavam à visita a determinada exposição.

É necessário parar e não apenas transitar ou deambular por ali. A pausa requerida é condição sine qua non para ver arte, mas, neste caso, ela é mais do que isso, é parte intrínseca do processo do espectador. Explico porquê.

Dezasseis peças de pequena dimensão alinham-se na parede do lado esquerdo da galeria, enquanto à direita apenas dois trabalhos, de idêntica dimensão, pontuam o espaço e fornecem algumas chaves de leitura da totalidade das obras expostas. Ao fundo, mais duas peças, de maior dimensão, fecham a exposição.

É o que verá, de relance, o transeunte pouco empenhado.

Aquele que se detiver na entrada verá manchas de cor, dispostas cuidadosamente, num ritmo agradável ao olhar.

Nenhum viu ainda pintura.

Será preciso entrar e aproximar-se de cada obra para que a pintura se manifeste. Subtil, discreta, parcimoniosa. Fascinante, no entanto, pela delicadeza da sua matéria, pela suavidade de pigmento e cera, pelo brilho macio laboriosamente atingido. Estes atributos concorrem para dar a esta pintura uma espessura e profundidade que têm mais a ver com uma dimensão temporal do que espacial ou mesmo objectual. A encáustica sobre madeira – técnica que o artista tem privilegiado ao longo dos anos – e o relevo negativo ou a incisão que lhes é inerente conferem a estas peças um carácter objectual, um valor escultórico, como tem sido referido, e dota-as de uma densidade inegável, de uma presença volumétrica e corpórea. No entanto, a sua construção evoca mais o lastro do tempo do que a espacialidade pictorialmente entendida.

Aqui ter-se-á alcançado a superfície e o corpo material da pintura.

Neste ponto, e não obstante o lado atraente destes trabalhos, a sua visão pode tornar-se deceptiva. Com ela chega-nos uma escrita indecifrável; às vezes, a “figuração da escrita”, o desenho como quem escreve e a escrita como quem desenha; outras vezes, uma escrita reconhecível, mas truncada, fragmentada; outras ainda, letras dispersas antes de formarem a palavra; finalmente, um texto coberto pela matéria que invade a superfície, quase apagando os gestos anteriores da mão que escreve. Sobre essa superfície apercebemos outros elementos que fazem parte dos dispositivos da escrita, particularmente linhas paralelas que recordam uma folha pautada. A escrita é gravada na mesma cor do fundo, apenas de tonalidade diferente, o que contribui para o seu quase apagamento, o seu “quase nada”, como informa o título escolhido.

É então que já não nos limitamos a ver, queremos ler, queremos compreender, mas nem sempre isso nos é concedido. Escrita e pintura constituem-se em mútuas interferências de ocultação e desocultação, de encobrimento e revelação.

Por esta altura, o visitante percebeu que a pintura não se esgota nos seus elementos visivelmente discerníveis. Desejo e paciência tomam conta dele.

A descoberta da arte de Avelino Sá está fora da galeria, tal como o sentido último do trabalho do pintor se encontra antes, durante e depois da criação destes objectos, num continuum artístico, num devir. Um caderno de referências – de poetas, escritores e pensadores – acompanha o artista. Robert Walser (1878-1956), Paul Célan (1920-1970), Matsuo Bashô (1644-1694) estarão entre os mais importantes e, no que se refere à presente exposição, o primeiro é determinante. Pintura, leitura e escrita num processo único. Por isso, no atelier do artista, os livros daquele escritor ostentam pingos de cera que caíram inadvertidamente sobre as suas folhas abertas durante a produção das encáusticas.

Depois de sair da galeria, o visitante percorrerá o seu caminho numa deriva poética e filosófica, levando na memória a obra de Avelino Sá. O seu conhecimento fortalecer-se-á no diálogo permanente entre essa memória e a leitura. E identificar-se-ão, talvez, algumas das palavras e das frases que inscreve no seu trabalho, os títulos das obras, as imagens literárias e visuais que propõe, um caminho, uma floresta, uma montanha, a neve, os lugares de um passeio, configurações e contornos de um universo que se tornará progressivamente familiar.

E porque a caminhada errática de remissões é imparável, admito, digo eu, que o visitante possa, mais tarde, ler de outra forma W. Wordsworth (1770-1850), H. D. Thoreau (1817-1862), W. Benjamin (1892-1940) ou Peter Handke (1942).

E foi nesta errância que não pude deixar de lembrar um autor que li há alguns anos. Trata-se do geógrafo Jay Appleton que, no clássico The Experience of Landscape (1975), classificou as paisagens em função de dois comportamentos de sobrevivência do sujeito: o acto de observar (ligado ao panorama) e o acto de não ser observado (ligado ao refúgio), comportamentos inatos que se transformariam em quadros de referência culturais e em compromissos estéticos. A teoria do panorama-refúgio parece definir o modo de estar de Avelino Sá: é o próprio quem sai do campo de visão, retira-se, protege-se para assim exercitar a percepção do horizonte e da paisagem, fundada nas suas leituras.

A maior parte dos trabalhos preparados para esta exposição aprofundou um projecto apresentado no Espaço Adães Bermudes, no Alvito, cujo catálogo, com textos de Mariana Marin Gaspar e Maria de Fátima Lambert, se recomenda. Na verdade, o projecto teve início em 1992 com a obra Vertigem (Robert Walser) e não deverá ficar por aqui.

 

 



LAURA CASTRO