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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Créditos: Benedita Pestana


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ARQUIVO:


SARA MEALHA

TANGO








05 OUT - 28 NOV 2019

Sara Mealha no Armário

 

 

O Armário é um projecto independente situado na Calçada da Estrela nº 128A com direcção de Benedita Pestana . Já contou na sua programação-provocação com nomes como António Olaio, Ana Vidigal, Armanda Duarte, Vânia Rovisco, André Alves e Luísa Cunha entre vários outros, numa constelação artística muito interessante e pertinente. É um espaço cuja provocação dada aos artistas, como mote para acção, e para exposição, é a de o espaço expositivo ser habitado primordialmente pelo objecto que lhe dá nome - um armário. Um armário de madeira e vidro, “três prateleiras e duas gavetas com puxadores em latão” (como se lê no texto de apresentação do projecto em http://o-armario.a-montra.com), próximo de uma vitrine. Ao artista, dá-se liberdade, mas também contingência: o armário não pode ser movido para fora da sala e a sua integridade deverá ser mantida.

A exposição de Sara Mealha, Tango - inaugurada a 05 de Outubro e patente no Armário até dia 28 de Novembro, visitável sob marcação e com a atenta e disponível companhia da Benedita - traz-nos o gesto expositivo de esconder o evidente. Não disfarçar, não fingir: velar. Há um acondicionamento do armário e do espaço-ele-mesmo que torna evidente a incapacidade do proposto: é impossível esconder-se não só as evidências como aquele armário, e aquele espaço, ou o espaço vazio que entre eles se forma e que nós, enquanto corpos, ocupamos.
Esconder uma característica evidente evoca fenómenos próximos, como o gesto de Fernão Cruz, ao ocultar o chão azul da galeria Balcony na sua exposição “Long Story Short” ou mesmo com as suas esculturas que parecem esconder o próprio referente que representam, ou fenómenos menos próximos e de outras escalas, como as tentativas anunciadamente falhadas de ocultar objectos, edifícios e ilhas de Jeanne-Claude e Christo. Ocultando, evidencia-se o oculto, anuncia-se o que já estava lá enquanto evidência. Há um movimento contrário a ser colocado simultaneamente no mesmo movimento. Armário como Ilha. Dupla-captura entre o ocultar e o desvendar.

Ocultando uma evidência, evidencia-se o ocultamento. Entramos como que na evidência do espaço que o armário em si não ocupa. E Sara, com as suas esculturas sinalética - e novamente exemplos próximos e ainda mais próximos como os de Horácio Frutuoso com as suas pinturas que assinalam o vazio e a nossa respectiva entrada e saída deles ou mesmo João Louro, anunciando a distância a que nos mantemos dos autores e dos seus espaços conceptuais nos vários Dead Ends - evoca o Tango.

Tango é o nome da exposição mas as figuras-esculturas não parecem dançar, ou pelo menos não connosco, que chegamos tarde à dança. Talvez com as suas próprias sombras inúteis e imóveis (não há entradas de luz natural, a luz não mexe, nem a sombra, simultânea que é com uma perspectiva de topo - posso exagerar para efeitos imagéticos, a inexactidão justifica-se pela vontade do exercício especulativo se cumprir, serve a retórica.) Poderia dizer-se mais um tango interno, um tango implícito. Os padrões coloridos e repletos de texturas visuais, no fundo as esculturas são uma espécie de desenhos em rebelião contra o quadrado e a parede, com a sua estrutura própria. Talvez reclamando o seu movimento, talvez reclamando o corpo que elas próprias anunciam. Estes desenhos evocam também a anterior exposição de Sara “ às nove a caminho” pela morfologia, que parece ainda uma reminiscência das possíveis pegadas, juntas, misturadas... um corpo à procura do corpo. Ou do corpo do outro, para que dance. Contrasta contudo com a negritude dos seus ratos, muito embora carrega a mesma comicidade.

Parece-me no entanto que o acto principal e primordial desta exposição é mesmo o de tornar o espaço um envelope, deixar-nos entrar mas ainda assim fazer-nos saber que ali não é a nossa casa, estamos de visita, obrigam-nos a não sujar o chão, como num hospital, como se aquela dança que alguém ao longe evoca - o autor - não fosse para nós. Aqui é Tango, mas não se dança, pára-se.



Catarina Real