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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Andreas H. Bitesnich, Castelo de São Jorge and statue of Joao I-Lisbon, 2019.


Andreas H. Bitesnich, Castelo de Sao Jorge-Lisbon, 2018.


Andreas H. Bitesnich, Cityscape with Empire State Building-New York, 2011.


Andreas H. Bitesnich, Girl with train-Tokyo, 2012.


Andreas H. Bitesnich, Tram line 25-Lisbon, 2019.


Andreas H. Bitesnich, Wotruba church-Vienna, 2006.


Vista da exposição. Fotografia Cortesia Museu Colecção Berardo.


Vista da exposição. Fotografia Cortesia Museu Colecção Berardo.


Vista da exposição. Fotografia Cortesia Museu Colecção Berardo.


Vista da exposição. Fotografia Cortesia Museu Colecção Berardo.


Vista da exposição. Fotografia Cortesia Museu Colecção Berardo.

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ARQUIVO:


ANDREAS H. BITESNICH

DEEPER SHADES: LISBOA E OUTRAS CIDADES




MUSEU COLEÇÃO BERARDO
Praça do Império
1499-003 Lisboa

20 FEV - 21 JUN 2020


 

 

 

Quando foi convidado pelo curador João Miguel Barros para fazer uma série de fotografias sobre Lisboa, Andreas H. Bitesnich já havia feito séries de cidades como Nova York, Tóquio, Paris, Viena e Berlim, mas agora o desafio seria outro. Ele teria que apresentar as fotografias pela primeira vez numa das maiores instituições de Lisboa, o Museu Coleção Berardo, e ter como espectadores pessoas que provavelmente conheceriam a cidade muito melhor do que ele. Nesse caso, o olhar estrangeiro foi usado a seu favor; além, claro, do facto de o austríaco ter um olhar treinado de fotógrafo com uma longa carreira de trinta anos. Inaugurada a 20 de fevereiro, a exposição “Deeper Shades: Lisboa e outras cidades” apresenta um núcleo representativo dos cliques tirados entre 2018 e 2019 durante as três viagens com duração de dez dias cada que ele fez por aqui, além de outros cinco grupos de fotografias feitos nas “outras cidades”, entre 2011 e 2017.

Os “tons mais escuros” ou “sombras” do título da exposição do Museu Berardo são justamente as características que fazem com que as imagens em preto e branco transitem de fotografias pessoais de viagem para algo esteticamente mais desafiador. Ao restringir os 256 tons de cinza para quarenta ou cinquenta, Andreas dá ênfase no preto e no branco. Quanto maior o contraste das fotografias, mais difícil é de entender o que são os objetos retratados. A Praça do Comércio fica quase irreconhecível, assim como o monumento ao Marquês de Pombal, envolvido por um cenário de uma densa neblina e uma esquisita forma branca no céu, que só é possível reconhecer depois de se ler a legenda. Em “Vista de rua”, a fotografia dá ênfase à geometria, luz e sombra da fachada de um prédio de concreto, semelhante à estética inaugurada por fotógrafos modernistas brasileiros como Thomaz Farkas e German Lorca – a imagem poderia ter mesmo sido feita na década de 1950.

A distorção causada pelo contraste, pelos ângulos não-convencionais, e pelo efeito dos vidros e reflexos também transformam um clique de jornalistas no estádio do Benfica numa nuvem de pinceladas, e fazem uma “Estação de elétricos sob o sol matinal” parecer um beco escuro no meio da noite. “Quando alguém pára na frente de uma foto para entender melhor o que está vendo, e gasta tempo com isso, meu objetivo está cumprido”, contra Andreas. É essa uma das maneiras que ele pode ganhar a atenção dos espectadores que conhecem Lisboa muito melhor do que ele.

 

 

Andreas H. Bitesnich, Cross over Berlin, 2017.

 

 

É provavelmente a procura pela beleza - e romantismo, ele não tem vergonha em dizer - que faz Andreas fotografar Lisboa e outras megalópoles como Nova York, Viena e Paris, cujas belezas “óbvias” fazem dessas cidades as mais fotografadas desde sempre. Por isso, não são muitos os registros que surpreendem pela originalidade. Tóquio e Berlim, mais confusas, peculiares e ainda assim, belas, parecem dar mais espaço para que ele consiga imprimir seu olhar particular com maior facilidade. Aproxime-se de uma das primeiras fotos no núcleo dedicado à Berlim, por exemplo, para perceber que o que parece uma escultura sagrada da Ilha de Páscoa é, na verdade, um homem em meio à fumaça do seu cigarro.

Em “Peter”, feito 2014, em Viena, Andreas retoma a fotografia de retrato que, ao lado das fotografias de nus, construiu sua carreira profissional (foi em 2011 que ele decidiu enveredar pela fotografia urbana: “Como artistas, não temos que seguir regras. Temos a liberdade para fazer o que nos dá prazer!”). O retrato do rosto de Peter tem um jogo de luz e sombra tão definido que faz com que o boxeador careca mais pareça uma escultura. Apesar de ter nascido e ainda morar em Viena, Andreas considera que a série na sua cidade natal foi um dos maiores desafios da série “Deeper Shades”. “É como quando uma banda que já tocou no mundo todo volta para se apresentar na sua terra. Tem algo de muito pessoal e é bem difícil de alcançar as expectativas. Eu tinha muitas fotografias de Viena, mas nenhuma parecia boa o suficiente, por isso passei nove meses trabalhando só nessa série”, conta. Uma das soluções para trazer uma situação inusitada e que poderia despertar curiosidade de outros vienenses foi sair para fotografar durante a noite de ano novo (numa madrugada friorenta de menos dezesseis graus). Já em Tóquio, ele não precisou de mais de cinco dias para terminar a série.

Desde 2011, Andreas vem publicando em formato de livro e de maneira independente cada uma das séries. Esta mesma divisão foi transposta para a exposição, onde cada núcleo ganha uma cor de parede diferente. A parte dedicada a Lisboa é amarela “pelos elétricos, pelo sol, e pelo livro ‘Lisboa, cidade alegre e triste’, do Victor Palla e do Costa Martins, publicado em 1956 que, para nós, é o primeiro grande trabalho fotográfico sobre Lisboa”, conta o curador João Miguel Barros. Ele também assinou a curadoria da excelente exposição “Yiima. (Des)Consrução da Memória”, do coletivo macauense Yiima, em cartaz entre novembro de 2019 e fevereiro de 2020 no mesmo Museu Berardo. Também dedicada à fotografia, a exposição era uma mistura de performance e análise histórica da cultura e memória de Macau. Nela, as paredes coloridas eram justificadas com base nas simbologias da cultura oriental – expografia mais acertada do que essa adotada na atual exposição.

A decisão de João Miguel e Andreas em dividir “Deeper Shades” espacialmente entre a produção feita em cada uma das cidades acarretou com que a exposição colocasse em primeiro lugar as cidades fotografadas e não o trabalho em si. Se estivessem expostas indiscriminadamente, a sensação seria menos de estarmos vendo um livro de viagem e mais de estarmos mergulhando na pesquisa de um artista. É desta maneira que as fotografias encontram melhor solução conceitual na sala de vídeo, onde todas as imagens da exposição, além de outras que não estão ali, são projetadas aleatória e simultaneamente. É nessa hora que conseguimos entender o trabalho de Andreas como uma vontade de mostrar que entre essas cidades existem mais similaridades do que diferenças.



JULIA FLAMINGO