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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição com The vsss (vocal sphincteral sound system), Diogo Tudela. Fotografia cortesia do artista.


Still The vsss (vocal sphincteral sound system), Diogo Tudela.


Vista da exposição, detalhe de The vsss (vocal sphincteral sound system), Diogo Tudela. Fotografia cortesia do artista.


Vista da exposição, detalhe de The vsss (vocal sphincteral sound system), Diogo Tudela. Fotografia cortesia do artista.


Detalhe de The vsss (vocal sphincteral sound system), Diogo Tudela. Fotografia cortesia do artista.


Vista da exposição com Voice the Constructor, Diogo Tudela. Fotografia cortesia do artista.


Vista da exposição com Voice the Constructor, Diogo Tudela. Fotografia cortesia do artista.


Still de Voice the Constructor, Diogo Tudela.


Still de Voice the Constructor, Diogo Tudela.


Still de Voice the Constructor, Diogo Tudela.

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DIOGO TUDELA

VOCAL TRACT / BLACK HOLE / VENT SHAFT (PART I)




GNRATION
Praça Conde de Agrolongo 123
4700-312 Braga

03 JUL - 03 OUT 2020

Apontamentos sobre assombrações

 

 

 

A exposição “vocal tract / black hole / vent shaft (part I)” de Diogo Tudela está patente no gnration, em Braga, até ao dia 03 de Outubro de 2020 e é um projecto que “propõe abordar o fenómeno vocal a partir da topologia do buraco negro”, lemos no texto que introduz a sua instalação. Diogo, pondo lado a lado a voz e o buraco negro, apresenta-nos um conjunto de três peças que através de vídeo, som e fazendo uso de modelos computacionais, nos colocam perante a assintopticidade de ambos. Assimptota ou Assímpotata, segundo o dicionário on-line priberam, que me foi útil e que em diante cito, trata-se da linha disposta em relação a uma ramificação infinita de curva, de modo que a distância de um ponto da curva a esta tende para zero quando o ponto se afasta indefinidamente sobre a curva.

A exposição conta com três peças. “The vsss (vocal sphincteral sound system)” é - à falta de uma melhor descrição, que seria sempre leiga quanto às questões técnicas implicadas, cito o sucinto texto da entrada - “uma instalação sonora de 6 canais que conta com uma peça de som - construída exclusivamente a partir de voz e especializada num movimento circular que percorre o perímetro da sala - manipulada em tempo real por dois discos de cera modelados à semelhança de acidentes e orifícios dermatológicos, assentes sobre dois gira-discos em rotação. A informação cromática destes discos é interpretada por sensores de cor, montados em braços robóticos que exploram de forma não linear a sua superfície, fornecendo um sinal contínuo utilizado na modelação da peça de som original.”

Nunca tive curiosidade pornográfica. Sempre esperei que ela viesse, com as descobertas dos caminhos possíveis do corpo, do suor, do sangue, das lágrimas, do sémen. Pensei que me interessassem todas as articulações do que os corpos podem, de como eles eclodem, de como são explorados. Sou visceralmente atraída por outros meandros perigosos da existência, onde a articulação de poder não é clara, e não é desejável, mas nunca pela pornografia. Será temor, perguntava-me? É que a falta de curiosidade assusta-me, como se não houvesse espaço para a crítica a partir dessa falta. Mas não é temor, é desinteresse sério, e desvinculado de qualquer interesse em perpetuar bons costumes. Como nunca tive curiosidade pornográfica, nunca tive vontade pornográfica também. E aceitei-o assim, como limite do que a minha pessoalidade poderá algum dia.

O Diogo é inteligente. E o seu discurso é aliciante, quase que me convoca esta pornografia traduzida em som, estetizada (e o corrector automático corrigiu-me, e muito bem, para esterilizada). Da pornografia estéril, fico a saber que gosto, que me seduz esta abstracção dos corpos, que é tão mais erótica do que o corpo explícito - o corpo pornográfico - pode ser. “Voice the Constructor”, uma das peças da exposição, faz uso de uma recolha de filmes eróticos “dedicados às possibilidades de exploração e manipulação oral e anal que propõe uma retro-bioengenharia audiovisual do corpo a partir da voz”. A voz presente nestes vídeos é o que os faz - por intermédio dos engenhos pensados por Diogo - que estas imagens outrora explícitas, se desfaçam, se tornem descolem do corpo como uma pele corroída, “como se estes se encontrassem no horizonte de eventos de um buraco negro.”

 

Still de Voice the Constructor, Diogo Tudela.

 

Assombrava-me este som que não sabia de onde vinha, da sala ao lado onde me encontro a trabalhar por estes dias. Não sabia a origem e é curiosa a forma como também a curiosidade se adiou até perto de já não a poder satisfazer. Não me levantei para lá ir espreitar, para descobrir qual a origem destes sons que ouço repetidamente há mais de uma semana. O que as condutas me traziam do espaço de exposição onde Diogo Tudela mostra “vocal tract / black hole / vent shaft (part I)” era um som de aviões, um aterrar metálico, mais ou menos um protesto, também ele metálico, e a ascensão no espaço. Sons espaciais, que traziam espaço sideral, mas também o outro que anda por cá - sons que eram perto e longe, que se abeiravam e fugiam. E, repetindo-se ao longo do tempo, não constituíam para mim uma coreografia clara, não eram uma repetição do movimento.

No confronto (ou assimilação) do não ver com o ver depois, do não saber com o saber depois, lembrei-me de dois trechos - vou recortando tudo, e depois acontece-me recordar-me já não da origem, mas do recorte - o que, no processo de Diogo, creio justo. Recortar, derreter. Lembrei-me de uma história que conta Barthes no “Fragmentos de um Discurso Amoroso”, em que um mandarim estava apaixonado por uma cortesã, ao que ela diz que será dele se este passar cem noites à sua espera, debaixo da sua janela. Ele esperou noventa e nove noites e no final dessa noite antes da pertença, levantou-se e partiu. Lembrei-me também de Lafargue, em “A Religião do Capital”, quando, embrulhada na sua ironia tão eficaz, nos escreve sobre a ligação da cortesã ao “nosso Deus”. Fui procurar este recorte: “A cortesã trafica com algo que não se pode pesar nem medir, com uma coisa imaterial que escapa as sagradas leis da troca: vende amor, tal como o merceeiro vende sabão e velas, e o poeta vende ideal. Mas ao vender amor, a cortesã vende-se, confere ao sexo da mulher um valor. O seu sexo participa assim nas qualidades do nosso Deus, torna-se numa parcela de Deus, é Capital. A cortesã incarna Deus.”.

Não estou certa que as evocações sejam pertinentes, mas lembrei-me porque me ficam a ecoar as perguntas; será manter a curiosidade o mesmo que nunca a satisfazer? E, onde se situarão, na escala de religiosidade Capital, estes corpos e vozes reformuladas por Diogo. E, como junção das duas, o que terá esta exposição feito à minha curiosidade e religiosidade?, à primeira, que matei, à segunda, a quem agora oro.

 



CATARINA REAL