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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Bidonville (2019), 270 x 480 x 270 cm. Chapa Zincor e chapa ondulada galvanizada.


Cubic # 71027072 (2018), 495 x 360 x 390 cm. Tubo aço galvanizado.


CUBIC#51021092 (2018), 405 x 195 x 265 cm. Tubo aço galvanizado e cantoneira.


Tipie (2019), 220 x 220 x 300 cm. Chapa em aço e tubo galvanizado.


Chateau de Cartes (2019), 480 x 265 x 110 cm. Chapa ondulada galvanizada.


CUBIC#71022021 (2019), 405 x 165 x 195 cm. Tubo aço inoxidave, Cantoneira em aço, Painel de estores.


Bunker (2019), 270 x 145 cm. Barra de ferro.


Casas (2019), 230 x 200 cm. Barra de ferro.


Cerca (2019), 220 x 175 cm. Barra de ferro.


Vista geral. Créditos: Marcos Paixão e Laura Ferreira, Gabinete de Imagem e Comunicação Politécnico de Leiria.


S/Título (2019). Técnica: Mista, 59 x 96 cm. Créditos: Marcos Paixão e Laura Ferreira, Gabinete de Imagem e Comunicação Politécnico de Leiria.


Balança (2020). Mármore, 49 x 27 x 18 cm. Créditos: Marcos Paixão e Laura Ferreira, Gabinete de Imagem e Comunicação Politécnico de Leiria.


Balança (2020). Bronze, 34 x 22 x 25 cm. Créditos: Marcos Paixão e Laura Ferreira, Gabinete de Imagem e Comunicação Politécnico de Leiria.

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ARQUIVO:


THIERRY FERREIRA

HABITAR O LUGAR




VÁRIOS LOCAIS / LEIRIA



02 OUT - 31 DEZ 2020


 

 

A escultura deriva de uma arte bem mais antiga, a estatuária, que se carateriza por ser essencialmente evocativa e celebrativa, por isso ela era realizada em materiais nobres como o mármore ou o bronze. A estatuária pelo seu vínculo narrativo com a história, o mito e a tradição tem de ser lida a partir de um ponto de vista privilegiado e por isso dependeu sempre da tratadística da pintura. Foi o trabalho realizado pelo escultor Rodin, em meados do século XIX, que se constituiu como um ponto fundamental de mudança para que a escultura adquirisse um quadro conceptual próprio, que a autonomizou da pintura. Neste contexto foi fixado os procedimentos próprios da escultura que a partir daí foram desenvolvidos e animados por uma consciência cada vez mais acentuada do que lhe é específico.

Depois de Rodin, a escultura da primeira metade do século XX fala essencialmente de si própria e das suas condições de produção e receção. Está particularmente atenta à materialidade, às ideias de composição, de equilíbrio e de desequilíbrio, passa a usar a cor e começa a estabelecer e a ensaiar relações com o espaço e a paisagem.

Thierry Ferreira antes de cursar Artes Plásticas no Politécnico de Leiria tinha uma prática centrada no objeto com um pendor mais ou menos ornamentalista. Após corajosamente ter passado por um período de questionamento que a formação superior em artes sempre implica, ganhou competências e incrementou as suas capacidades técnicas, propondo objetos desafiantes e enquadrados com o nosso tempo.

Filho de emigrantes em França, Thierry lembra-nos que o impulso de construir vem do reconhecimento de ser sempre difícil ter uma casa. Antes, quando se partia de Portugal natal e se chegava a outro país em tudo diferente do nosso, a primeira casa cabia dentro de uma mala onde se guardavam todos os pertences essenciais. A primeira casa evocada fora de Portugal, aparece expressa na peça intitulada “Bidonville” de 2019. Essa peça é constituída por dois corpos, uma estrutura azul de casa invertida e por cima desta uma evocação mais pequena, uma casa feita de telha zincada, longínqua e íntima simultaneamente.

 

Bidonville, 2019

 

 

A estrutura azul, tem exatamente a mesma proporção que a primeira casa que o seu pai ergueu no “Bidonville” de Paris. Nela viveram durante três anos o seu pai, o seu irmão e o seu avô, com telhados e paredes em chapa de zinco, esse espaço era o lugar onde uma certa sabedoria da resistência se edificava. Como resposta ao futuro assustador e incerto a casa era a resposta ao medo e ao frio da capital francesa. Dessa primeira casa viam-se os vencidos a partir de novo para Portugal ou outras paragens, agora mais frágeis, enquanto outros chegavam carregando uma nova esperança. Olhando para uns e para outros, não será difícil imaginar o que o pai de Thierry aprendeu com ambos os movimentos. Dentro da sua primeira casa, a cada ano que passava essa sabedoria acumulada ter-lhe-á dado redobrada confiança numa casa nova, com condições, num país cada vez menos estrangeiro.

Thierry viveu em muitas casas e participou na construção de todas, são nítidas as lembranças dos espaços da sua primeira casa em França, bem como de todas as outras. Recorda também cada uma das tábuas, que levadas num barco, serviram para a construção da sua casa de férias na ilha do Farol, no Algarve.

As casas em que viveu tinham todas uma característica, estavam sempre inacabadas. As peças “Pista e Obstáculos” de 2018 que se encontram instaladas no relvado da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais (ESECS) e “CUBIC #02020120” de 2020, que se encontra pegada à parede da residência de estudantes José Saramago, agarram nessa energia de algo que se encontra a meio. Serão estas estruturas espaciais algo que se está a edificar? ou pelo contrário, a desmontar? Permanece a dúvida.

Na peça intitulada “Cubic # 71027072” de 2018, assistimos a um exercício topológico de rotação de dois desenhos no espaço. Segundo o autor esta peça surgiu-lhe quando participava na Bienal de Chaco (Argentina), que acabou por ganhar. Segundo ele esta peça acaba por aparecer como uma imagem da distância entre a sua casa natal e o lugar de estadia, estrangeiro e longínquo.

A peça intitulada “Tipie” de 2019, instalada também no relvado da ESECS, decorre da evocação das habitações típicas dos índios canadianos que Thierry conheceu numa das suas estadias no Canadá. Em troncos encostados por debaixo de uma copa de árvore produziam uma casa, numa relação simbiótica com o espaço natural.

A “Chateau de Cartes” de 2019, exposta no centro da cidade de Leiria, em frente ao Banco das Artes, hoje espaço de exposições, mas antes delegação do Banco de Portugal, mostra-nos o contraste óbvio entre uma construção efémera, feita num material francamente industrial, com o edifício sólido, ricamente ornamentado, da autoria do arquitecto Ernesto Korrodi, fazendo-nos pensar na revelação circunstancial da ideia de banco como frágil castelo de cartas.

Para além destas esculturas dispostas rizomaticamente entre os jardins exteriores dos serviços centrais da ESECS e o espaço público da cidade de Leiria, poderemos também encontrar dentro dos Serviços Centrais peças mais pequenas feitas em aço, ferro, bronze e mármore que estão numa condição instável, entre a maqueta e a escultura autónoma, entre o desenho no espaço e o espaço como ideia. O artista utiliza também a fotografia na mesma medida do desenho, isto é, usa a fotografia para pensar ou especular espaços e o desenho propriamente dito acompanha sempre esse esforço.

 

S/Título (2017). Estores plástico, 85 x 78 cm. Créditos: Marcos Paixão e Laura Ferreira, Gabinete de Imagem e Comunicação Politécnico de Leiria.

 

 

Concluímos com algumas linhas que pretendem estabelecer relações com o início da nossa reflexão. O trabalho de Thierry Ferreira não esquece o poder desmaterializador do mármore branco, o mesmo que foi usado em séculos e séculos de estatuária, não esquece a alquimia do bronze que incandescente percorre o espaço deixado vazio dentro do molde, este artista tanto utiliza materiais artificiais e industriais como aqueles que historicamente determinaram uma boa parte da nossa produção tridimensional. A sua prática pode dizer-se que está no entendimento da plasticidade da ideia de casa.

A ideia de Casa existe numa grande quantidade de autores que nos lembram o seu poder. O escritor Aleksandr Soljenítsin, prémio nobel da literatura, em “A Casa de Matriona” mostra-nos como a casa pode ser comparável ao interior de um corpo, com seus cheiros, investimentos plasmados nas paredes ou percursos. Joseph Rykwert em “A Casa de Adão no Paraíso”, não pára de nos lembrar que a primeira casa aparece como razão de proteção contra os rigores de clima, dos animais selvagens ou dos inimigos humanos. Já Gaston Bachelard na sua poética do espaço, ensaia a Casa como lugar de afecção feliz e protetora. Temos que estar preparados para pensar que aquela primeira casa que o pai de Thierry ergueu, no meio do lamaçal invernoso de Bidonville, nas margens da grande, luminosa e glamorosa Paris, tenha também sido afinal um lugar feliz e protetor e simultaneamente o espaço onde se aprende a lidar serenamente com o medo.

Da mesma maneira temos de estar preparados para entender que a arte não é um ornamento da vida, não é a demonstração de uma capacidade técnica ou tecnológica, nem do virtuosismo do artista! Não é algo que possa ser traduzível integralmente para linguagem verbal! não é tudo isto. Embora muitas obras exibam excelentes capacidades ornamentais, e em épocas como o Renascimento a capacidade técnica e o virtuosismo fossem critérios obrigatórios para se praticar arte.

Então o que é a arte? A arte é dizer não! diz o escultor Rui Chafes. Já Alberto Carneiro dava a imagem do “nó górdio”, para explicar a mesma ideia, a arte é um nó que quando se desata revela outro e outro ainda maior. A vida do artista obstinado está condenada à ausência de respostas, entrega-se ao devir, resiste aos anacronismos, nunca confunde comunicação com expressão. Ele sabe que a arte está em trânsito e não é definível, sabe também que não há tradutibilidade integral entre o gesto expressivo e a palavra que fala desse gesto.

O testemunho da arte feita por um artista é tentar ir o mais longe quanto possível na missão de desatar o “nó górdio”. Ir tão longe ou cavar tão fundo, onde muitos e muitos só conseguiram esgravatar na superfície.

 

 



SAMUEL RAMA