Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição Pathosformel, de Vasco Araújo. Fotografia cortesia Escola das Artes / Universidade Católica do Porto.


Vista da exposição Pathosformel, de Vasco Araújo. Fotografia cortesia Escola das Artes / Universidade Católica do Porto.


Vista da exposição Pathosformel, de Vasco Araújo. Fotografia cortesia Escola das Artes / Universidade Católica do Porto.


Vista da exposição Pathosformel, de Vasco Araújo. Fotografia cortesia Escola das Artes / Universidade Católica do Porto.


Vista da exposição Pathosformel, de Vasco Araújo. Fotografia cortesia Escola das Artes / Universidade Católica do Porto.


Vista da exposição Pathosformel, de Vasco Araújo. Fotografia cortesia Escola das Artes / Universidade Católica do Porto.


Vista da exposição Pathosformel, de Vasco Araújo. Fotografia cortesia Escola das Artes / Universidade Católica do Porto.


Vista da exposição Pathosformel, de Vasco Araújo. Fotografia cortesia Escola das Artes / Universidade Católica do Porto.


Vista da exposição Pathosformel, de Vasco Araújo. Fotografia cortesia Escola das Artes / Universidade Católica do Porto.


Vista da exposição Pathosformel, de Vasco Araújo. Fotografia cortesia Escola das Artes / Universidade Católica do Porto.


Vista da exposição Pathosformel, de Vasco Araújo. Fotografia cortesia Escola das Artes / Universidade Católica do Porto.


Vista da exposição Pathosformel, de Vasco Araújo. Fotografia cortesia Escola das Artes / Universidade Católica do Porto.


Vista da exposição Pathosformel, de Vasco Araújo. Fotografia cortesia Escola das Artes / Universidade Católica do Porto.

Outras exposições actuais:

PEDRO BARATEIRO

O MEU CORPO, ESTE PAPEL, ESTE FOGO


Casa da Cerca - Centro de Arte Contemporânea, Almada
CARLA CARBONE

COLECTIVA

MIRA | ON


MIRA, Porto
CONSTANÇA BABO

CRISTINA ATAÍDE

DAR CORPO AO VAZIO


Museu Coleção Berardo, Lisboa
JOANA CONSIGLIERI

JOÃO FERRO MARTINS

OBJECTOS EM ETERNO COLAPSO


Galerias Municipais - Pavilhão Branco, Lisboa
DASHA BIRUKOVA

COLECTIVA

ACTO DE ESTADO. O REGIME ISRAELITA DE OCUPAÇÃO, UM ARQUIVO FOTOGRÁFICO (1967-2007)


Arquivo Municipal de Lisboa | Fotográfico, Lisboa
MARC LENOT

JOSEF KOUDELKA

RUINES


Bibliothèque Nationale de France - Bibliothèque François-Mitterrand, Paris
MARC LENOT

JORGE SANTOS

A ILUSÓRIA VERDADE


Galeria Quattro, Leiria
SÉRGIO PARREIRA

PEDRO CALHAU

DO INESGOTÁVEL


Fundação Eugénio de Almeida - Centro de Arte e Cultura, Évora
NUNO LOURENÇO

KORAKRIT ARUNANONDCHAI & ALEX GVOJIC

NO HISTORY IN A ROOM FILLED WITH PEOPLE WITH FUNNY NAMES 5


Museu de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto
MAURO SANTOS GONÇALVES

THIERRY FERREIRA

HABITAR O LUGAR


Vários locais / Leiria, Leiria
SAMUEL RAMA

ARQUIVO:


VASCO ARAÚJO

PATHOSFORMEL




ESCOLA DAS ARTES | UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PORTO
R. de Diogo Botelho 1327
4169-005

16 OUT - 29 JAN 2021


 


Pathosformel [1], exposição de Vasco Araújo (n. 1975) com curadoria de Nuno Crespo, na Escola das Artes transporta-nos para um espaço de encontros e de memórias, onde mitos da Antiguidade Clássica e figuras da Renascença confrontam a realidade e o homem contemporâneo. Assumindo-se como um espaço de crítica, de questionamento e de reflexão sobre a condição humana através do olhar do outro, Pathosformel explora conceitos e definições de identidade, sem esquecer a complexidade e ambiguidade das relações interpessoais e da relação entre o sujeito e o mundo. Ancorando-se em disciplinas como a Literatura, Estética, Estudos Clássicos e Mitológicos, o artista confronta-nos com o Passado - resgatando os seus ensinamentos, a sua dimensão filosófica, política e social - para que através dele possamos olhar e pensar o tempo contemporâneo. O fascínio de Vasco Araújo pela condição humana e pela reflexão atemporal de temas universais como a felicidade, o amor, o ódio, o medo e a morte, traduzem-se numa prática artística em que o corpo, a palavra - dita e escrita - e a gestualidade desempenham um papel essencial, não sendo coincidência o nome escolhido para o projeto expositivo, Pathosformel, conceito elaborado pelo crítico e historiador de arte Aby Warburg (1866 -1929), que traduz uma gestualidade expressiva do corpo, com origem nas paixões e nas afeções sofridas pela humanidade. [2] Para Warburg, é necessário procurar a matriz que imprime na memória as formas expressivas da máxima exaltação interior, expressa na linguagem gestual com tal intensidade, que esses engramas da experiência emotiva sobrevivem como património hereditário da memória [3], ressaltando a importância da linguagem figurativa do gesto na cultura, ou como afirma Agamben, do gesto como cristal de memória histórica [4]. Em Pathosformel, Vasco Araújo apresenta uma instalação que evoca o Atlas Mnemosyne, onde Warburg procurara mapear a variedade e a riqueza do potencial expressivo-figurativo da humanidade e que Didi-Huberman definiu como:

[...] um atlas das ‘fórmulas-de-pathos’ (Pathosformeln), gestos fundamentais transmitidos e transformados – até nós desde a Antiguidade: gestos de amor e gestos de combate, gestos de triunfo e de servidão, de elevação e de queda, de histeria e de melancolia, de graça e de fealdade, de desejo em movimento e de terror petrificado... O homem encontra-se, pois, no centro do atlas Mnemósine, pela energia contrastada dos seus pensamentos, dos seus gestos, das suas paixões. [5]

O confronto com a nossa humanidade, as nossas emoções, o nosso pathos, mediante a conjugação e comparação de imagens da História de Arte, é recuperado e materializado por Vasco Araújo na instalação apresentada em Pathosformel. Num primeiro contato com a obra, somos atraídos por imagens, que reconhecemos da história da pintura, rostos que aparentam falar entre si, ideia que é reforçada pelas vozes que ouvimos, pequenos diálogos que ecoam por todo o espaço expositivo. À medida que olhamos os retratos, a nossa perceção altera-se e os papéis invertem-se, não somos apenas nós que observamos os retratados, eles também nos observam e questionam. Através da utilização de 42 impressões digitais de retratos pictóricos da história da arte, sobre fragmentos de cartazes publicitários, Vasco Araújo estabelece um diálogo direto entre o passado e o presente, entre signos visuais clássicos e contemporâneos, convocando simultaneamente o espaço urbano enquanto espaço expositivo, de intervenção e o espaço museológico. Recorrendo à colagem e descolagem - técnicas que pressupõem uma ação, um gesto, uma performatividade – o artista apropria-se, descontextualiza signos visuais e textuais da cultura urbana e clássica, criando sucessivas camadas de informação e de leituras, num processo aparentemente inacabado que presume uma repetição. Vasco Araújo banaliza ao nível de outdoors, pinturas de Ingres, Rafael, Bronzino, entre outras, imagens musealizadas, deformando-as pela fragmentação, laceração e rasgagens, com o objetivo de lhes retirar a aura e de as humanizar, através da manipulação [6]. Para além destas imagens que preenchem as paredes da sala de exposição e três paredes cenografadas, fazem parte da instalação três esculturas: a de um homem engessado e duas esculturas vídeos, ambas intituladas Entre Actos, em que a partir de mitos o artista promove uma reflexão sobre o comportamento humano e o mundo, à semelhança de Warburg que entendia a representação dos mitos antigos como testemunhos de estados de ânimo, convertidos em imagens, a partir dos quais las generaciones posteriores...buscaban las huellas permanentes de las conmociones más profundas de la existência humana. [7]

Na instalação Entre Actos #1, qual canto da sereia que nos hipnotiza, somos conduzidos, pelo som de uma guitarra que acompanha uma voz masculina. Cantando sozinha, frente ao espelho de um camarim - provavelmente no intervalo entre dois atos de uma representação, numa alusão ao título da obra – a figura da Medusa, canta-nos o seu destino num fado. Recorrendo à figura mitológica da Górgona, enquanto signo, Vasco Araújo propõe a sua desconstrução numa versão contemporânea. Se na mitologia grega a Medusa, é uma temida criatura do sexo feminino, mortal, com cabelos de serpentes e olhos que petrificam, em Entre Actos #1, é-nos apresentada como um homem trasvestido, cujo olhar paralisa o espetador pelo peso da sua confissão [8]. Assumindo uma posição de voyeur, assistimos a um momento de solidão e intimidade de alguém cujo rosto nos é revelado através do reflexo de um espelho. De costas voltadas para o espetador, não deixa de ser curiosa a presença do espelho, em frente do qual a Medusa canta ao mesmo tempo que observa a sua imagem refletida, contrariando o mito clássico, em que a visão do seu reflexo no escudo espelhado de Perseu a conduziu à morte. Nesta obra, onde realidade e ficção se cruzam, a expressividade teatral do intérprete, conseguida pelo gesto, o olhar e a voz, ultrapassam os limites da representação, levando-nos a interrogar sobre quem nos está a falar: a Medusa ou quem a interpreta? A própria letra do fado que nos é cantado, triste e melancólico, explora a intimidade, a questão do género, da identidade e da condição de ser mulher: (...), Mas a gente/ Já traz o fado marcado/E nenhum mais inclemente/Do que este de ser mulher! Recordemos o fado da Medusa, descrita por Ovídeo como uma bela donzela, que ao ser seduzida por Poseidón, foi castigada, ao contrário do deus, por Atena, que transformou o seu cabelo em serpentes e tornou mortífero o seu olhar. À medida que assistimos ao vídeo, a imagem da Medusa vai-se confundindo com a do próprio ator que a veste, promovendo-se uma reflexão sobre a identidade, a sua procura e a pluralidade do ser humano, temáticas exploradas na prática artística de Vasco Araújo, que recorre ao travestismo enquanto meio para a construção da narrativa que pretende contar. De salientar o importante papel desempenhado pela voz, que associada ao gesto, imprime o tom pesaroso, triste e amargurado do poema que se canta, assumindo-se como protagonista, e através da qual estabelecemos uma relação entre o texto e a imagem. A voz, que Vasco Araújo considera como nossa verdadeira identidade, é o que nos identifica imediatamente [9], e talvez seja por esse motivo que, na esfera privada da personagem, para a qual fomos convidados, a Medusa canta: Seja quem for adivinha/Na minha voz soluçando/Que eu finjo ser quem não sou!

A importância do mito como meio para refletirmos o mundo contemporâneo, assim como o protagonismo atribuído à voz e à intimidade, voltam a estar presentes na escultura de vídeo Entre Actos #2. A instalação em madeira pintada, espécie de cabine composta por uma caixa de paredes opacas com um pequeno orifício, qual câmara escura, convida-nos a espreitar o seu interior. Ao entrar na instalação o espetador depara-se com múltiplas linguagens – música, imagem e texto – que o atraem e despertam emoções. O ambiente sonoro, amplifica o caráter trágico da cena, em que a expressividade da voz rivaliza com o dramatismo da imagem. Inspirado na pintura A Morte de Marat (1793), de Jacques Louis David (1748-1825), concebida como um monumento público ao herói-mártir, Vasco Araújo apresenta-nos a morte do homem que está na origem da criação de Marat - a lenda - enquanto símbolo de um homem novo, saído da Revolução Francesa. Recorrendo ao vídeo, como medium, Vasco Araújo confere uma nova expressividade ao tema, transpondo-o para a contemporaneidade, numa obra que se situa simultaneamente entre a fotografia e o filme, e em que o tempo desempenha um papel essencial. A simplicidade alcançada, a mesma que encontramos na obra de David, herdada da arte clássica, atrai-nos para a contemplação da figura de Marat. Destaquemos a genialidade do artista ao cruzar temporalidades diferentes no espaço da narrativa: o momento da morte, para o qual somos transportados através do vídeo, e o momento anterior à morte, através da voz do retratado, a voz que na memória é dos primeiros elementos que perdemos aquando da morte de alguém. O relato, na primeira pessoa, da carta escrita por Marat antes de morrer, adquire um tom confessional – tal como na Medusa - expondo dúvidas, angústias e receios.

 

Detalhe da exposição Pathosformel, de Vasco Araújo. Fotografia cortesia da autora.

 

Em ambas as instalações de Pathosformel, Vasco Araújo propõem-se refletir sobre a condição humana, explorando as suas inquietações, fragilidades e desejos, através da apropriação de narrativas do passado que transporta para a época contemporânea, comprovando a intemporalidade dos conceitos que enunciam. Assistimos à sobrevivência da imagem ao longo da história da arte e da cultura como motriz de humanidade. Uma travessia do tempo, que se converte num recurso para ver a história como manifestação presente, ainda que a partir de uma eventual memória do passado.

O interesse de Vasco Araújo pelo lado de trás ou o que está por debaixo, o que não se vê, a intimidade, o forro das coisas [10], que carateriza/acompanha a sua prática artística e que encontramos em Pathosformel, adquire uma dimensão literal através de uma imagem de gestualidade emotiva, que se esconde, inserida na parte de trás de um dos cenários que compõem a exposição. Colocando o dedo na ferida, o artista apresenta-nos o toque, através reprodução de um fragmento de uma obra de pathos barroco de Caravaggio. Ao longo de toda a exposição somos confrontados com o poder das imagens e a sua capacidade de criar e disseminar mitos, ritos, memórias e sensações. Imagens de um passado que fascina Vasco Araújo, pois como o mesmo diz, (...) apesar de todos os episódios, de todos os séculos, nós continuamos a ser os mesmos. ou seja, matamos de forma diferente, amamos de forma diferente, vivemos de forma diferente, mas continuamos a ter o mesmo tipo de emoções. [11]

 

 

Mafalda Teixeira
Mestre em História de Arte, Património e Cultura Visual pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, estagiou e trabalhou no departamento de Exposições Temporárias do Museu d’Art Contemporani de Barcelona. Durante o mestrado realiza um estágio curricular na área de produção da Galeria Municipal do Porto. Atualmente dedica-se à investigação no âmbito da História da Arte Moderna e Contemporânea, e à publicação de artigos científicos.


:::


Notas

[1] A exposição resultou de uma residência artística de Vasco Araújo na mesma instituição durante o ano de 2019-2020. Para além da mostra expositiva, o artista realizou um filme com o mesmo nome, Pathosformel.
[2] SERRÃO, Vitor – Ainda a Iconologia de Aby Warburg.: as célebres pinturas de Botticelli. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2017.
[3] WARBURG, Aby – “Mnemosyne”. In Dossie Aby Warburg. Revista Arte e Ensaios. UFRJ, Ano XVI, n. º19, 2009, p. 126.
[4] AGAMEBON, Giorgio – “Notas sobre o gesto”. In Artefilosofia: Revista do Instituto de Filosofia, Artes e Cultura. Ouro Preto. nº 04, jan. 2008, p. 11.
[5] DIDI-HUBERMAN, Georges - Atlas ou a gaia ciência inquieta. Lisboa: KKYM, 2013, p. 22.
[6] Citação da intervenção do artista na inauguração da exposição, no dia 16 de Outubro de 2020, no Auditório Ilídio Pinho da Universidade Católica do Porto.
[7] CASTIÑEIRAS GONZÁLEZ, Manuel António - El método Iconológico de Erwin Panofsky. In Introducción al método iconográfico, 5ª ed., Ariel, 1998, p.77.
[8] Quem via a Medusa ficava petrificado. Não seria por refletir a Górgona a imagem de uma culpa pessoal? Segundo Paul Diel: A confissão pode ser - o é quase sempre - uma forma especifica da exaltação imaginativa: um remorso exagerado. (...) A própria confissão deve estar isenta de excesso de vaidade e de culpabilidade(...) A Medusa simboliza a imagem deformada do eu…que petrifica de horror ao invés de esclarecer na medida justa. CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain: Dicionário de Símbolos:(mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números). Livraria José Olympio Editora S.A., Rio de Janeiro, RJ. Tradução: Vera da Costa e Silva...(et.al). 6.ª edição, 1992, p. 476.
[9] Citação de Vasco Araújo na entrevista de 2018 conduzida por Liz Vahia para a Artecapital.
[10] CARLOS, Isabel – O Forro das Coisas, Prémio EDP, Novos Artistas. Fundação EDP (cat.), Lisboa, 2003.
[11] Citação da intervenção do artista na inauguração da exposição, no dia 16 de Outubro de 2020, no Auditório Ilídio Pinho da Universidade Católica do Porto.



MAFALDA TEIXEIRA