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EXPOSIÇÕES ATUAIS


© José Farinha.


© Rui Apolinário.


© Adriano Miranda.


© José Veloso.


© Pedro Ruíz.


© Pedro Ruíz.


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© Inês D'Orey.


© José Farinha.


© José Farinha.


Tertúlia sobre livros, MIRA | ON.

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ARQUIVO:


COLECTIVA

MIRA | ON




MIRA
Rua de Miraflor (à Campanhã), Armazém 133
Porto

10 FEV - 10 FEV 2021

O universo digital do MIRA

 


Se, no início do século XXI, o lugar da tecnologia no campo artístico constituía objeto de discussão e algum desconhecimento, ao longo do último ano a importância da sua validação manifestou-se à escala global. A pandemia do SARS-CoV2 é uma situação sem precedentes, cujas inúmeras incertezas e interferências nos mais diversos campos da vida humana exacerbaram a necessidade de recorrer às práticas tecnológicas, nomeadamente no âmbito do desenvolvimento e da subsistência da cultura e da arte.

Afirmou-se a urgência das instituições reforçarem a sua presença na esfera digital e virtual, desde os grandes museus às pequenas galerias. Tal foi o caso do Espaço MIRA e MIRA FORUM, em Campanhã, Porto, que, tal como os seus pares, viu-se perante a obrigatoriedade do fecho de portas e o término de visitas e eventos. Seguiram-se a transferência, transformação e ajustamento perante o novo contexto, o que não abrandou a programação de José Maia e Manuela Matos Monteiro, antes pelo contrário. O diversificado programa e os vários encontros que têm definido os últimos anos do MIRA, caracterizando-o enquanto completo, plural e inclusivo, transitaram para o digital, nascendo o MIRA|ON, no qual se multiplicam as propostas, exposições, tertúlias e sessões. Até porque, como constata José Maia,

A necessidade de nos relacionarmos com imagens sensíveis, com imagens estéticas, intensificou-se. No primeiro período de confinamento experienciamos a expansão e a partilha de imagens, de imagens mediadoras de realidades; ao distanciamento físico deveremos justapor a aproximação social, a partilha de uma imagética sensível que não só deverá habitar o espaço físico (da cidade) como o espaço da Web, da rádio, da TV e dos jornais.

Manuela Matos Monteiro, por sua vez, conta que,

Aquando da primeira pandemia, assumimos que seria nosso compromisso continuarmos a ser ativos, produtivos e criativos. A partir da segunda semana, iniciámos o programa MIRA|ON que envolveu duas das três galerias: do MIRA FORUM e do Espaço MIRA. Apresentámos durante todo o período um programa semanal com quatro inaugurações, com dia e hora marcados, como se no mundo real se realizasse.

Assim avança o MIRA, dando continuidade ao projeto que assume desde 2013, de descentralizar a arte e convocar o sentido de comunidade. No dia 30 de janeiro inaugurou um novo ciclo, com uma obra de Pedro Ruiz à qual se segue uma calendarização de fim-de-semana, sempre às 15h, entre o Facebook, o YouTube e o site do Espaço MIRA. Com curadoria de José Maia e João Terras e intitulado O mundo que nos vê, abre espaços-imagens que se querem públicos e é projetado em torno do Dia da Liberdade e do Dia do Trabalhador. Apresenta exposições individuais e coletivas, intervenções no espaço público, concertos, performances, debates, conversas e vídeo-arte, esta última que, como explica José Maia, contempla também vídeo-performance, vídeo-poesia, vídeo-fotografia, vídeo-livro e vídeo-concerto.

 

© José Farinha.

 

Do que se desenvolveu no último ano, destacam-se as Narrativas Visuais da Quarentena 2020, para as quais, na página de Facebook do MIRA, lançou o convite público para o envio de registos fotográficos do espaço privado de cada um, o qual se havia tornado o lugar único e exclusivo da vida. O resultado foi um vasto conjunto de imagens de múltiplas autorias, não somente portuguesas como de além fronteiras, caráter que é, precisamente, próprio do universo virtual. A partir daí, produziu-se um vídeo que ainda se mantém passível de visualizar no canal de YouTube do MIRA, lugar onde se encontram todas as suas restantes propostas e registos digitais.

Tal como nesse projeto o público foi protagonista, o último ano, em geral, viu-se pautado por várias iniciativas, nas quais lhe foi concedido um lugar central. Isto está, por certo, alinhado com o surgimento de um espectador-ator, participante e utilizador que, nas últimas décadas, se afirma com evidência na esfera digital. Ora, como observa Manuela Matos Monteiro,

A reação das pessoas ultrapassou todas as nossas expectativas pelo número e pelo empenho em nos seguirem. Aprendemos muito com o primeiro confinamento, desenvolvendo outras formas de comunicação e interação. Tomamos consciência da importância do território virtual e compreendemos que a sua geografia é muito ampla e que chegamos a um público muito mais vasto. Por exemplo, a nossa comunidade de leitores passou a fazer-se exclusivamente via Zoom, porque chegamos a pessoas que vivem em várias zonas do país. Apercebemo-nos, também, que as pessoas estão mais à vontade para intervir e participar.

Com efeito, na internet atinge-se uma inédita visibilidade e um alcance ilimitado, revelando-se uma plataforma de eleição para ciclos tais como Conversas sobre um projeto de fotografia, iniciado no passado dia 21 de janeiro com a artista visual Pauliana Pimentel. O projeto promove a relação e interação entre artista e público, num momento que se define tanto pela partilha do processo criativo na primeira pessoa, como pela abertura de um espaço de discussão, debate e reflexão.

Também no campo da fotografia destacam-se as Exposições Virtuais, tanto pela sua qualidade formal e visual como, em alguns casos, pela ligação ao atual cenário de crise. Tendo esta iniciado na primeira quarentena, em março de 2020, contou com fotógrafos que já tinham exposto no MIRA, mas que, desta vez, viram-se colocados numa situação distinta, tão desafiante quanto estimulante. Simultaneamente, tratando-se a fotografia de uma prática que, ela mesma, discute, cruza e problematiza a relação entre o analógico e o digital, o real e o virtual, o tangível e o intangível, permitiu-se explorar mais profunda e sistematicamente um domínio onde essas diversas dicotomias se confrontam e sobrepõem, o online.

Foi assim que, a primeira exposição de fotografia, de Rui Apolinário, intitulada Primitive Reason ou a razão antes das coisas, cujas paisagens e elementos naturais são retratados por um olhar esteticamente valioso, foi recebida e experienciada com particular sentido e significação, por relação ao confinamento vivido. Desde então, seguiram-se vários momentos, alguns deles a salientar, caso da exposição virtual do fotojornalista Paulo Pimenta que, tendo inaugurado no 1º de maio, cruza o simbolismo histórico dessa data com o atual contexto. Como o próprio título indica, As vozes, os corpos, as ruas, recorda-se a cidade em movimento, protesto e celebração, contrastando acentuadamente com as ruas agora desertas e assombradas pelo silêncio.

Na semana seguinte, expôs-se Estranhos tempos estes, a série que, deste primeiro ciclo, terá sido a mais representativa da atualidade e uma das mais marcantes. Luís Veloso, médico neurologista no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia, apresentou um testemunho direto dos efeitos do vírus, um conjunto de registos ao qual o autor se refere enquanto Covidiário. Algumas semanas e exposições depois, ainda que de modo muito distinto mas também dialogando com a atual crise, o fotojornalista Adriano Miranda apresentou um contexto que agora se aparenta longínquo, o Carnaval, no qual o propósito do uso de máscaras e a relação de proximidade entre as pessoas são opostas às que hoje imperam. Seguiram-se vários outros momentos, que perfazem um total de 28, contando-se alguns nomes particularmente relevantes no contexto artístico nacional, caso de Inês D'Orey, com Futuro Contínuo.

Assim se chega à segunda edição, com abertura no passado dia 15 de janeiro, a par do início do segundo confinamento do país, prevendo-se novas mostras, todas as sextas-feiras às 21h00, desta vez com artistas que agora se estreiam no MIRA. O primeiro foi o fotógrafo José Farinha, com a obra Made in P.R.C (People's Republic of China), cujos magníficos registos captados durante uma viagem de três meses, em 2016, na China, convidam a vislumbrar a beleza da arquitetura, da paisagem e da cultura chinesas, o que se mostra particularmente relevante nos dias de hoje, quando a imagem desse país sofre com a marca dos recentes acontecimentos e o estigma que daí advém.

Aproveita-se esta última ideia para assinalar que, reconhecendo as diferenças e divergências culturais, bem como as mais variadas disparidades e desigualdades na sociedade, da pandemia resultou, também, uma dinâmica relacional, aproximando a humanidade. Isto revela-se, reflete-se e manifesta-se, precisamente e com particular evidência, na esfera digital, com uma acrescida potência de expressão e de experiência relacional na arte.

 

 

 

 

Constança Babo (Porto, 1992) é doutoranda em Arte dos Média na Universidade Lusófona do Porto e bolseira da FCT, tendo como área de investigação o objeto artístico dos novos média e os seus modelos expositivos. É mestre em Estudos Artísticos - Teoria e Crítica de Arte pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e licenciada em Artes Visuais - Fotografia pela Escola Superior Artística do Porto. Tem publicado artigos científicos e textos críticos de arte.

 



CONSTANÇA BABO