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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição. Cortesia IMAGO LISBOA. © Hugo David.


Vista da exposição. Cortesia IMAGO LISBOA. © Hugo David.


Joakim Eskildsen, Cuban Studies: Globes. Cortesia IMAGO LISBOA. © Joakim Eskildsen


Joakim Eskildsen, Cuban Studies: Punto de Venta. Cortesia IMAGO LISBOA. © Joakim Eskildsen


Vista da exposição. Cortesia IMAGO LISBOA. © Hugo David.


Vista da exposição. Cortesia IMAGO LISBOA. © Hugo David.


Vista da exposição. Cortesia IMAGO LISBOA. © Hugo David.


Joakim Eskildsen, Cornwall: St. Agnes. Cortesia IMAGO LISBOA. © Joakim Eskildsen


Joakim Eskildsen, Cornwall: Antony House. Cortesia IMAGO LISBOA. © Joakim Eskildsen


Joakim Eskildsen, Homeworks: Attic Studio. Cortesia IMAGO LISBOA. © Joakim Eskildsen


Joakim Eskildsen, Homeworks: Figure Study. Cortesia IMAGO LISBOA. © Joakim Eskildsen

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JOAKIM ESKILDSEN

IMAGO LISBOA PHOTO FESTIVAL




MNAC - MUSEU DO CHIADO
Rua Serpa Pinto, 4
1200-444 Lisboa

14 OUT - 02 JAN 2022


 

No inverno, gosto de chegar a casa, ter a lareira acesa. Gosto que esteja frio lá fora e quente cá dentro. Gosto de abrir o estore, nunca acender a luz: vê-la entrar levemente pela casa. Gosto de ver a geada a derreter pela manhã. Gosto de ter uma família com quem estar. Para dizer isto, baseio-me em memórias, como stills retirados da minha câmara interior – ou talvez, duma câmara imaginária, coletiva, inerente a uma qualquer necessidade de conforto. 

Há um sentimento que percorre a obra de Joakim Eskildsen – seja ela virada para o fotojornalismo, como para retratos íntimos – a melancolia, guiada pelo afeto. Há algo de tão familiar nas suas obras, que muitas deles parecem revisitações de coisas que já vivi – há, sobretudo, uma luz amarela, metálica que anuncia tempestade.

A tempestade. Este poderia ser o título da sua nova exposição, inaugurada no Museu Nacional de Arte Contemporânea, no contexto do Imago Photo Festival. Dividida em três secções - Cornwall, Cuban Studies e Homeworks – perpassa, por cada uma delas, anúncios de um temporal, seja em Cuba, enquanto duas pessoas tentam reparar um carro em Shepherd Study II, como em Cornwall, onde o artista faz um retrato de um homem vestido de pai Natal em The Postman. Não há nada de sombrio na fotografia de Eskildsen, muito pelo contrário – há, simplesmente, um jogo de contradições. As imagens são doces, otimistas, ainda que marcadas por uma ameaça - um céu carregado de inverno. Muitas vezes vemos apenas uma exploração da paisagem, noutras vemos personagens a protegerem-se ou a enfrentarem a atmosfera que as rodeia: em todos os casos há um profundo sentido de compreensão do outro, desencadeado pela metaconsciência do fotografar – é a olhar para o outro que nos vemos a nós – mas, sobretudo, pelo olhar presente do artista, que procura aproximar-se, relacionar-se com o fotografado.

As imagens resultam pensadas, não lhes detemos qualquer espontaneidade – parecem sempre uma vontade de efetivar uma ideia precisa, uma ingenuidade infantil ou uma esperança eufórica ao encarar o mundo. Num limite, poderíamos ver a obra de Eskildsen como profundamente empática. Num limite oposto, como excessivamente romântica, melosa.

Em Homeworks, estas dinâmicas complementam-se. Aqui o artista, em vez de iniciar mais uma viagem para fotografar, decidiu-se por captar a própria família, as envolvências da sua casa, e retornar, nas suas palavras, ao início da sua paixão fotográfica dos 13 anos – a uma tentativa de compreensão do lugar onde vive.

São as imagens de Homeworks que parecem aquecer-nos, alumiar-nos à leveza das memórias felizes – lembrar-nos a infância, as caminhadas no campo. Em After The Snow Storm vemos o filho do artista a dormir à luz quente da lareira, o espaço ajeitadamente desarrumado – uma definição de felicidade, como se a imagem tivesse consciência da memória que posteriormente iria deter. É nesta luz quente que as imagens arranjam refúgio ao metalizado da tempestade - vemo-la também, enquanto luz solar, em Green Door, percorrendo o beiral de uma porta num espaço em construção, parecendo anunciar a sua concretização final – algo indiretamente, a sua obra fotográfica parece rodear-se de um idealismo pagão, uma conexão intrínseca com a natureza. A legenda da sala reitera-nos isso: “É difícil saber que este planeta está a ser irrevogavelmente alterado e danificado, e a natureza e a vida que existem nele estão ameaçadas”.

 

Joakim Eskildsen, Cuban Studies: The Haircut. Cortesia IMAGO LISBOA. © Joakim Eskildsen

 

Neste contexto, Cuban Studies resulta como uma interrupção, mostrando o lado socialmente engajado do artista e salientando o modo como, mesmo nas divergências, a sua fotografia permanece coesa num mesmo olhar definido, concreto – há sempre a procura pela mesma luz densa, animista. Em Punto de Venta é uma porta aberta que ilumina a composição, sublinhando o peso quente, mas vazio, do espaço, e onde o fotografado, disposto ao fundo de um balcão, olha diretamente para a câmara. Este é um detalhe significativo: em Cuban Studies, os fotografados olham quase todos diretamente para a câmara, as imagens assumem-se como retratos, e nunca como a captação subtilmente composta de um momento, como víamos em Homeworks. Detém-se, no entanto, um sentido de pausa, uma estática que parece colocar as pessoas como estátuas vivas, posando para o infinito – por exemplo para esta exposição, onde provavelmente nenhuma saberá que está a ser vista.

Cornwall assumir-se-á a meio termo entre estas duas secções, mas talvez mais próxima de Homeworks: inicia-se com três fotografias alusivas ao Natal - uma árvore de Natal num lobby de hotel em Lobby, vários homens a montarem uma árvore de Natal sob um espesso nevoeiro em Christmas Study, e o já mencionado The Postman. Conceptualmente, o Natal é uma boa súmula da obra de Eskildsen – alude a um calor humano sob o frio atmosférico. Em The Square vemos uma leveza humorística que pode passar despercebida na obra de Eskildsen – é um exercício à Tati, a imagem de uma praça triangular num curioso trocadilho com a etimologia inglesa de Square. Talvez seja esta a melhor forma de encarar a obra de Eskildsen: um olhar curioso.

 

 

 

 

A mostra encontra ainda espaço para a exibição de um documentário denominado Nothing Special, focado em Homeworks e numa possível continuação dessa série, e que nos mostra o processo por trás do trabalho do artista. A dada altura, no documentário, enquanto relata o seu método de captação das imagens, Eskildsen afirma: “When I go to visit some people and try to take a picture, I walk around with them, go to different rooms. At the same time, I try to figure out where could there possibly be interesting light. It’s like the saying: I didn’t see them in the right light”.

Enquanto escrevo este texto, encostado a uma janela, vejo que a luz do sol, ainda amarela, é forte o suficiente para ofuscar o ecrã do computador: é, na verdade, difícil ver o que estou a escrever. Está bastante quente – o Outono tem sido assim este ano – mas a luz parece coordenada com o que escrevo, e como o quero dizer. Não sei se afetado pelo texto, mas há aqui qualquer coisa de Eskildsen - talvez seja o inverno que aí vem.



MIGUEL PINTO