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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição Gyres, de Ellie Ga. Cortesia Galeria Zé dos Bois, Lisboa.


Vista da exposição Gyres, de Ellie Ga. Cortesia Galeria Zé dos Bois, Lisboa.


Vista da exposição Gyres, de Ellie Ga. Cortesia Galeria Zé dos Bois, Lisboa.


Vista da exposição Gyres, de Ellie Ga. Cortesia Galeria Zé dos Bois, Lisboa.

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ARQUIVO:


ELLIE GA

GYRES




ZDB - GALERIA ZÉ DOS BOIS
Rua da Barroca, 59
1200-049 Lisboa

16 SET - 26 NOV 2021

Gyres: Correntes marítimas e fragmentos arqueológicos

 

No início do século XX, V. Walfrid Ekman já teria começado a estudar, de forma sistemática, as dinâmicas das correntes oceânicas, grandes fluxos de água formados pela combinação de padrões de ventos e as forças produzidas pela rotação da Terra. Entre estudos da oceanografia e mistérios marítimos, vivem estas forças orgânicas cujos movimentos transportam tudo o que é físico e móvel pelas águas dos oceanos, pelo que são capazes de intersectar objetos e humanos em diferentes pontos geográficos, de diferentes proveniências. Do mesmo modo, somos transportados por correntes, algo mais abstractas e emotivas, pelas ruas e pelas escadas de pedra da galeria até nos cruzarmos com os elementos estéticos que integram a exposição de Ellie Ga.

Em concordância, esta exposição intitula-se Gyres. Representando uma rápida alusão aos giros oceânicos, a palavra gyres remota ao grego antigo gyros que significa “anel” ou “círculo”. Nos remoinhos e círculos de Gyres não sabemos que objetos e formas vamos encontrar, pelo que estamos perpetuamente condicionados pelo que as correntes manobram e trazem até às nossas praias.

Nas primeiras salas, obscuras e misteriosas, da galeria Zé dos Bois em Lisboa, apresenta-se uma verdadeira oportunidade para uma experiência única num espaço expositivo, cheio de motivos sensoriais, pedagógicos e enigmáticos. Para escrever sobre esta experiência, decidi que iria falar na primeira pessoa, pois continuo assombrado pelas ondas fantasmagóricas de um espaço indecifrável onde a razão e a emoção se combinam em formatos arquivistas.

Como Dante acompanhado por Virgílio, percorri esta experiência acompanhado, algo que se tornou consideravelmente importante da mesma forma que testemunhamos e procuramos respostas e soluções em comunidade. Absortos pela escuridão preambular, a curiosidade empurra cada corpo para a entranhas de um cenário esotérico. Mergulhados numa sala escura, o nosso corpo caminha velozmente para os pontos de luz que evocam segurança. Como se de um laboratório se tratasse, na sala são dispostas três mesas de luz que consequentemente convidam o nosso olhar e a nossa atenção.

As mesas, cada uma dividida em dois rectângulos brancos luminosos, guardam diferentes imagens e textos, parecem convidar-nos a mexer e transformar as suas composições previamente formadas. Não podemos transformá-las, pelo que o próximo passo será compreendê-las. Tentamos criar analogias e relações entre conceitos, formas, imagens, palavras. O que pode começar por parecer um exercício lúdico e sem grande método, rapidamente se torna numa disciplina clara e lógica. Deste modo, Cyril Neyrat escreve:

“De uma praia na costa-oeste a uma ilha no Mar Egeu, da morte da sua mãe à de Bruce Chatwin, de orações engarrafas que derivam em direção à ilha de Simi, a coletes salva-vidas que dão à costa nas praias de Lesbos...’’[1].

Agora tudo ganha um novo sentido. Olhamos para as fotografias e identificamos o mar Mediterrâneo, o mar Egeu e os países que estes banham. Depois, com entusiasmo, identifico nas mesas de luz frases em grego, a capa do In Patagonia de Bruce Chatwin, elementos intersectados por imagens de garrafas e pedras. À semelhança do Atlas Mnemosyne, estes elementos gráficos parecem criar um estudo e um mapa de trajetos e de relações imagéticas, entre desastres e oportunidades. Em nós permanece um clima enigmático, criado fundamentalmente pela misteriosa mente da artista que constrói relações e percursos entre o íntimo e o coletivo, entre o movimento e a inércia.

Esta primeira sala proporciona algo que remete para a condição e poder oferecido ao visitante, digo, ao espectador. Se Rancière sublinha que o poder do espectador reside, em parte, na sua individualidade, a experiência coletiva também detém certas vantagens para a recepção de uma exposição e abertura a debates. Enquanto indivíduos e receptores de informação visual, a nossa própria cultura ao nível da imagem e da linguística estará em alerta e em sistemática rotação para exercer ligações e relações entre formas e elementos. Deste modo, temos o poder de traduzir à nossa maneira o que entendemos, de criar a nossa própria aventura intelectual que não se assemelha a mais nenhuma, pela sua própria distinção individual. Por outro lado, este poder é comum a todos os indivíduos que podem partilhar as suas aventuras intelectuais [2]. Numa experiência coletiva, que caracteriza este momento, estas mesmas leituras rotativas subscrevem um debate aceso e plural entre mentes, cultivando o exercício científico e pedagógico a que Ellie Ga nos obriga.

Despertos e imersos, somos invadidos e contagiados pelo som que provém da próxima sala. Aqui, os elementos arqueológicos de Gyres ganham vida e movimento através de um formato cinematográfico. Na mesma linguagem luminosa, as mesas de luz são substituídas por uma projeção audiovisual dinâmica na qual emergem as mãos da artista que, com suavidade, coloca os elementos gráficos na mesa, elabora composições diversas enquanto nos conta histórias, relatos e ideias, narrativas que se interconectam.

A peça videográfica de Ellie Ga intitula-se Gyres 1-3 (2019). Esta é a obra original que funciona como fonte iconográfica e alicerce para toda esta exposição. Os muitos excertos que compõem esta narrativa audiovisual correspondem a relações criadas com objetos que a maré deixou para trás. Estes elementos agora vivem nos mapas mentais de Ellie Ga e transformam-se nos protagonistas de uma grande disciplina quase historiográfica e de auto-referência. Num destes excertos, a artista apresenta uma fotografia de uma rocha enquanto relata a sua experiência e relação com uma arqueóloga. A partir da rocha, pelos caminhos da arqueologia, a voz da artista transporta-nos também para Lesbos (Grécia) onde um egípcio muçulmano utiliza pedras em ritos funerários. Depois, a imagem da pedra transforma-se sistematicamente, metamorfoseando-se em diferentes sedimentos e formas calcárias e rochosas, codificadas por múltiplos mitos e histórias.

Também somos transportados para universos em urgência de ação, especialmente a partir de matérias e referências relativas à poluição ambiental e à constante crise migratória e de refugidos. Este último ponto é de extrema importância, pois se Ellie Ga trabalha com objetos que as correntes marítimas deixam em terra, também o seu trabalho explora as tragédias humanas, as tempestades burocráticas e políticas que permitem a rotação das marés, o abandono e a indiferença pelo outro. O outro, o refugiado, o humano, a mãe, o pai, o filho, o corpo ausente, deixa para trás o colete salva-vidas, o único objeto resgatado. Como uma nota triste e de fúria, estas temáticas vivem no trabalho da artista da mesma maneira que as marés vivem entre as pessoas. Depois, as ondas empurram-nos para costas e portos marítimos, para espaços industriais ou abandonados, lugares feitos de garrafas de plástico e arquivos de memórias.

Na galeria escura, estou perplexo e asfixiado pelas imagens rotativas, deslumbrado e hipnotizado pelas mãos que constroem narrativas. É impossível não ficar abalado com a grandeza bibliotecária que é a mente e a coleção visual de Ellie Ga, em perpétuo movimento e atividade, como um escriba. Como numa viagem contada por Stefan Zweig, encontramo-nos no convés de um navio que percorre linhas imaginárias, as marés envolvem-nos num infinito e ativo círculo de contágios entre cores, ideias, formas. Ellie Ga garante uma imensa rede de imagens e histórias que podes cruzar com as nossas próprias ideias e vontades. Assim, constrói-se um espaço não só artístico, mas um real fórum de debate e partilha. Finalmente, as mentes aventureiras, como lhes chama Cyril Neyrat, podem agora agarrar as garrafas que viajaram pelos vários oceanos e guardam segredos e fragmentos anónimos.

 

 


Mauro dos Santos Gonçalves
Mestre em História da Arte, Património e Cultura Visual na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. As suas investigações focam-se no campo da Arte Contemporânea, especificamente nos discursos de Imagem em movimento e os new media. A dissertação de mestrado foca-se no Vídeo nas práticas artísticas contemporâneas internacionais e nacionais. Possui pós-graduação em Cinema e Cultura Visual na mesma instituição.

 

:::

 

Notas

[1] NEYRAT, Cyril (s.d.) Folha de Sala de Gyres, Galeria Zé dos Bois, Lisboa.
[2] RANCIÈRE, Jacques (2014) O Espectador Emancipado. ed. WMF Martins Fontes, São Paulo. p. 20

 



MAURO DOS SANTOS GONÇALVES