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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Exposição "SOUND IT. RÁDIO ANTECÂMARA", 2022. © Garagem Sul, CCB


Rádio Antecâmara © Stefanos Antoniadis


Rádio Antecâmara © Campos Costa Arquitetos


Exposição "SOUND IT. RÁDIO ANTECÂMARA", 2022. © Garagem Sul, CCB


Exposição "SOUND IT. RÁDIO ANTECÂMARA", 2022. © Garagem Sul, CCB


Exposição "SOUND IT. RÁDIO ANTECÂMARA", 2022. © Garagem Sul, CCB


Exposição "SOUND IT. RÁDIO ANTECÂMARA", 2022. © Garagem Sul, CCB

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RODRIGO FONSECA

ARQUIVO:


CAMPOS COSTA ARQUITETOS E JOÃO GALANTE

SOUND IT. RÁDIO ANTECÂMARA




GARAGEM SUL /CCB
Praça do Império
1449-003 Lisboa

14 MAR - 04 SET 2022

Vertigem

 

 

Ouvi dizer, em tempos, e pela voz de Maria Filomena Molder em conferência, por sua vez, citando o escritor e poeta Osip Mandelstam, que as “citações são como as cigarras”, i.e., “não podemos calá-las; elas cantam” [1]. De facto, o seu som – drone – apodera-se do ar, torna-se um material invisível que constrói uma atmosfera; cria uma espécie de suspensão do tempo, que facilita o habitar – a permanência num lugar seguro. É no entanto preciso sabermo-nos sintonizar na sua frequência, o que em si-mesmo, pressupõe ser consciente de “quando deves fazer a tua entrada” [2], num tempo de portas automáticas, que não oferecem resistência, parafraseando o psicanalista Vasco Santos, e que portanto “não permitem a hesitação” [3]. Afinal, há sempre algo de vertiginoso no entrar em si-mesmo. 

Serão todas as citações como as cigarras? Na apresentação desta nova exposição da Garagem Sul à imprensa, Pedro Campos Costa convidou todos os presentes a entrar na "Vertigem", segundo palavras de Delfim Sardo “uma construção espacial que acolhe dentro de si uma forma indissociável, um projeto sonoro e que permite ao espetador uma viagem sonora”. No centro desta elipse espiralada há uma estação rádio; a Rádio Antecâmara, que ali estará em residência nos próximos seis meses. Projeto este, com cerca de um ano, do ateliê Campos Costa Arquitetos, com um programa radiofónico que toma o nome da obra de Umberto Eco, A Vertigem das Listas, que tem vindo a convidar vários arquitetos a reconstruir a experiência no espaço em edifícios por si escolhidos, a partir de playlists musicais por si também escolhidas. 

O que ouvimos no percurso periférico desta construção espacial é uma instalação sonora do artista João Galante, construída a partir de citações aurais deste programa radiofónico. A escala e materiais deste corredor em espiral reforçam a nossa perceção cinestésica e sinestésica; paramos ou movemo-nos para escutar, e, o som ganha uma dimensão háptica – se, reitero, nos sintonizarmos. Neste sentido, a par do que deve ser a experiência arquitetónica – voluntária e não involuntária como a abertura das portas automáticas –, considero que um dos pontos mais fortes desta exposição é precisamente a metáfora da rádio enquanto possibilidade de nos sintonizarmos com diferentes frequências de vozes, o que pressupõe escolha; ensaiar a escuta ativa, voluntária, cujo potencial é o de nos tornar mais conscientes do modo como nos ligamos às coisas, i. e., o modo particular como as coisas nos acon-tecem; a sua tessitura, aqui em duplo sentido, e com particular urgência escutar aquilo que nas nossas vidas tem vindo a permanecer em surdina. 

Ambos os curadores e membros do ateliê Campos Costa Arquitetos, Alessia Allegri e Pedro Campos Costa enfatizaram o facto de sermos “bombardeados por imagens”. A arquiteta tornou clara a intenção desta exposição consciencializar a correlação entre tempo e imagens; a ausência de imagens visuais promove a sua desaceleração, até à derradeira paragem para a escuta, contrariando a falsa urgência para ver as coisas sem as perscrutar. (Se é que podemos chamar ver, por exemplo, à patológica convergência excessiva na qual o scrollar dos nossos ecrãs nos implica). Houve, no entanto, inicialmente, algum pudor em usar a palavra bombardear como metáfora, atendendo ao atual ao cenário de guerra. O que acelera as imagens, aliado ao nosso complacente e diria inconsciente querer não-ver e não-escutar o que se manifesta complexonão estará também presente naquilo que nos impede de prever, de um modo geral, a irrupção de guerras? 

Tememos a subjetividade, se não mediada. Trocamo-la pelas imagens-máscara. Nesta exposição há antes uma proposta de mediação persona, que se espera facilitadora e não doutrinante, tendo presente o significado original de per-sona; i. e., através do som, aludindo por sua vez aos buracos das máscaras do Teatro Grego, e por conseguinte, a uma acústica rigorosa. A experiência arquitetónica é pois também há muito o alvo de uma tendência de aceleração, engrenada pela ordem económica vigente. O que se pretende acelerar para poder mercantilizar é precisamente a nossa subjetividade; é nessa ordem de ideias excêntricas, economicamente desejável que a transfiramos para outros lugares mais lucrativos, planificando-a. Somos complacentes, porque, a angústia precede a profundidade. Ao fugir velozmente da angústia, perdemos as riquezas do subsolo.

Pessoalmente, e ainda que perigosamente, considero necessárias algumas estratégias de mediação da experiência arquitetónica, se no sentido de um e-terno retorno a uma perdida imersividade: “a música e a arquitectura encerram o ‘homem no homem’, ‘a alma nos seus actos’, ‘sem intermediários’, quer dizer, elas desenvolvem-se sem mediações, fazendo ressoar em nós ‘a potência escondida que faz renascer todas as fábulas’”. [4] Sejamos pois, nas nossas mediações, facilitadores de espanto.

Boaventura de Sousa Santos diz-nos que a experiência não pode ser conceptualizada: “Experience is as much the subjective life of objectivity as it is the life of subjectivity. As a living gesture, experience convenes as a whole everything that science divides, be it body and soul, reason and feeling, ideas and emotions”. Para o Professor Catedrático o que permite a sua inteligibilidade e transmissibilidade é a tradução, porém, não enquanto um ato de intermediação. [5] 

Numa tomada de posição que considero complementar e ressonante com o que tenho vindo a experienciar, convoco o artista Jon Mikel Euba, que nos fala de um radical (de raiz) auto-centramento enquanto condição para que a subjetividade se torne ‘democrática’; a ressonância da verdade de uma tal concentração é geradora de um novo espaço de acolhimento, o encontro com o Outro dá-se então pela presença. Como uma partícula quântica que pode estar localizada em dois lugares ao mesmo tempo, ambos se encontram na frequência ressonante do então campo comum gerado pela(s) sua(s) verdade(s) [6]. 

Tal concentração, diria, é no entanto paradoxalmente vazia, demanda-nos sim um controle da atenção – Eis a mercadoria mais valiosa do nosso tempo…E como se tornou luxuoso fazer uma só coisa de cada vez: “Sim, continua, eu estou-te a ouvir…disseste ‘luxo’ e ‘não sei quê’”. Retorno às citações-cigarra, e, à "Vertigem". Quando penso vertigem, não tenho como não voltar aos meus 14 anos de idade, quando, por acidente, li a obra onde pode ser encontrada a seguinte citação:

 

Quem quer “elevar-se” continuamente deve esperar um dia ter vertigens. O que é a vertigem? O medo de cair? Mas porque temos nós vertigens num miradouro protegido com um parapeito? A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do desejo por debaixo de nós que nos atrai e nos enfeitiça, o desejo de queda do qual nos defendemos depois com pavor. [7]

 

Há 12 anos, tive um episódio de vertigem, que como se sabe, pode ser causado por perturbações no ouvido interno; sendo esse o caso, terá sido porventura uma somatização de alerta para um chamado não escutado. Certo é que a hesitação é fundamental, como referi com Vasco Santos, para que cada-um-de-nós possa cair em si, se recentre no seu conflito, que não é guerra; antes, possibilidade de libertação. Numa outra tradução desta obra, o que está “debaixo de nós” é traduzido por “profundidade”. Nesse espaço entre traduções, que tanto me entusiasma, na medida em estilhaça e por isso espacializa todo o pensamento linear, o debaixo denuncia o que re-calcamos, com as pressas. A profundidade que se abre diante de nós, é escavada pela nossa comparência no mundo – o mundo que nos afeta, se permitirmos, e no qual afetamos. A captura da nossa atenção, resulta, pelo contrário, da nossa ausência. Abrimos então a porta para que o lixo soe a luxo. 

Alessia Alegri deu particular importância à necessidade de escutar “a voz” de todos os que participam da arquitetura. Não tenhamos medo, nós arquitetos e não arquitetos, da arquitetura nos mostrar o caminho que ainda não desenhámos, e/ou propor arquiteturas efémeras, de cartão, como a da “Vertigem”. O caracter temporário nada aqui tem que ver com uma velocidade tirânica; tem antes que ver com uma outra possibilidade: A de criarmos estruturas essenciais – por vezes até invisíveis – para que as diferentes temporalidades da vida possam ser integradas e agirem em consonância. Pedro Campos Costa falou-nos presencialmente do facto da escolha do material – o cartão – se relacionar com as suas propriedades moderadas de reverberação, não tão absorventes como poderíamos imaginar, na medida em que permitem quebrar as ondas sonoras. Esperemos, que em favor da seguinte acústica de encontro: “Nem um momento só podes perder / A linha musical do encantamento / Que é teu sol tua luz teu alimento.” [8]

Escutemos, então, a vasta e variada programação de luxo que a Radio Antecâmara nos propõe para os próximos seis meses.

 

Madalena Folgado

É mestre em arquitetura pela Faculdade de Arquitetura e Artes da Universidade Lusíada de Lisboa e investigadora do Centro de Investigação em Território, Arquitetura e Design; e do Laboratório de Investigação em Design e Artes, entre outras coisas. 

 

::: 

 

 Notas

[1] Vd. “Dante com trinta e cinco eu com setenta” – comunicação a 14 de Fevereiro de 2017, no Grande Auditório da Culturgest, Lisboa, no âmbito do ciclo de conferências A máquina do mundo. (Gravação). 
[2] Rainer Maria Rilke, Notas sobre a melodia das coisas, sl, Licorne, 2014, p. 22. Na íntegra, a nota XVI: “Seja o que te rodeia o canto de um candeeiro, a voz da tempestade, a respiração do entardecer ou o gemido do mar – atrás de ti está sempre vigilante uma vasta melodia, tecida de milhares de vozes, na qual o teu solo só tem lugar aqui e ali. Saber quando deves fazer a tua entrada, eis o segredo da tua solidão: tal como a arte do verdadeiro relacionamento é: do alto das palavras deixar-se cair na melodia una e comum."
[3] Vasco Santos, “Unhomely e o ‘mundo que bate à minha porta’” in AAVV, A casa e o mundo, Lisboa, Lata, 2018, p. 53. 
[4] Maria João Mayer Branco, “Prefácio” in Paul Valéry, Eupalino ou o arquitecto, seguido de a alma e a dança e diálogo da árvore, Lisboa, Fenda, 2009, p. 12. 
[5] Boaventura de Sousa Santos, The end of the cognitive empire. The coming age of the epistemologies of the south, Durham and London, Duke University Press, 2018, p. 79.
[6] Jon Mikel Euba, Writing out loud, Amsterdam, DAI; Amsterdam, If I can’t dance, I don’t want to be part of your revolution, 2016, p. 187. 
[7] Milan Kundera, A insustentável leveza do Ser, Lisboa, BIS, 2022, p. 82.
[8] Sophia de Mello Breyner Andresen, O búzio de Cós e outros poemas, Lisboa, Caminho, 2004, p. 12. 
 

 



MADALENA FOLGADO