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EXPOSIÇÕES ATUAIS


© Bruno Lopes


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Pedro Valdez Cardoso, The end is the beginning is the end is the …, 2022. © Bruno Lopes


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ARQUIVO:


PEDRO VALDEZ CARDOSO

PAGAN DAYS




NO NO
Rua de, R. Santo António à Estrela 39A
1350-291 Lisboa

30 MAR - 19 MAI 2023


 


Em Pagan Days, de Pedro Valdez Cardoso, o espectador mergulha numa encruzilhada do mundo alternativo contemporâneo, o paganismo. Percepcionamos uma outra visão antropológica, em que o artista questiona o ser na contemporaneidade. O ser, o não-ser, o humano e o não-humano, sociedade e natureza, cultura e ecologia, deambulamos pelo passado, mas, interrogamos sobre o presente. Porquê voltar a falar de bruxas? Pergunta Sara Magno (2023), no texto da exposição.

Olhamos para um passado, em que a mulher se revela como um não-ser. Ao debruçar na “caça às bruxas”, reiniciamos uma viragem vertiginosa às profundezas obscuras do ser humano, à queda antes da mudança. Assim, apela-se à recuperação do feminino à natureza, à Great Goddess ou à Terra-Mãe, em que a mulher era mitificada pela união do feminino com a natureza, tal como aconteceu na arte contemporânea nos anos 1970s e 1980s.

 

One aspect of ‘feminist’ or ‘women’s art’ was (is) embodied by the figure of the Goddess, the ancient and primeval Great Mother of all, celebrated then – and now – as Isis, Ishtar, Demeter, Kali, and so on. The Goddess embodying aspects of ‘feminine’ – love, motherhood, purity, nobility, sacrifice, hunting, and so on. (Malpas, W. [2008]. Land Art in the U.S.A., pp. 89-90)

 

A obra The end is the beginning, is the end, is the beginning, is the end… apresentada por uma pequena instalação-objecto a concepção mítica da mulher, como descreve Sara Magno (2023):

 

composta por um copo e uma varejeira real, simboliza a circularidade perpétua no ciclo da vida e morte, e a capacidade de regeneração e de reprodução muitas vezes associada à mulher. Ela aparece-nos aqui de alguma forma cativa, suspensa no tempo, dentro da redoma de vidro.

 

O artista coloca-nos no lugar do desconforto do ser humano ocidental, transgredindo conceitos, valores, crenças, preconceitos sociais, pensamentos intelectuais e racionais que ainda persistem no nosso legado histórico-filosófico, indagamos a existência do ser e a sociedade contemporânea.

Como num bater de asas de um insecto, sentimos um corpo a metamorfosear que é muito mais do que matéria. Corpo é “corpus”. Um rizoma de conexões, que transcende o ser como seres humanos, desdobra-se para além da matéria orgânica e da energia, para pensamentos, conceitos e vivências. Viajamos para o desconhecido, por iniciar um reencontro com o elo perdido da natureza, um “dreamtime”, como designava Suzi Gablik ([1991]. The Reenchantment of Art), um espaço similar onde retornamos aos primórdios do tempo. No limiar de uma outra dimensão, prevalece o mito e o ritual, abrindo portas para outros caminhos, cujas experiências rejeitam a noção antropocêntrica, mas sim, transcrevem um discurso estético visionário do ser. O artista, como um “seer” por vislumbrar uma consciência mais profunda da sociedade e da humanidade, procura, desta forma, a essência do ser humano. Por meio de descortinar a realidade contemporânea, exalta o encontro do espectador com o mundo arcaico, o tempo mítico - pagan days.

Num ínfimo instante de tempo, desponta-se a energia para a transmutação, que se move no espaço. Assim, Pedro Valdez Cardoso aclama a morte do espírito para o nascer de um outro, onde o significado de vida-morte transcende as forças naturais e o ciclo de vida, reflete, em certa medida, a questão das origens, da Ur, que se torna um dos conceitos-chave de todo o saber científico, antropológico e filosófico.

Ao contemplarmos a escultura, intitulada Ecdise, observamos uma espécie de altar ritualístico, recria um elo com as forças sobrenaturais ou o fluxo da energia humana e cósmica. Manifesta-se como um lugar mágico entre o passado e o presente, a história, a cultura e a natureza, sendo, por isso, uma das principais obras desta exposição.

Em Ecdise, um corpus de pele negra, encaminha-nos para uma experiência transformativa colectiva, o artista apresenta o local antropológico como uma possibilidade do espectador se metamorfosear, recriando um ritual cerimonial. Entre o visível e o invisível da matéria, no processo da metamorfose, nasce no espaço o fluxo da energia humana e natural, transpondo, neste modo, o elo da vida e da morte, como acção de renovação artística e estética, enquanto processo alquímico da metamorfose. Esta transformação gera um novo ciclo, no qual o público faz parte de todo o processo cosmológico, ecológico, social e político.

Valdez Cardoso expressa no seu discurso artístico as multiconexões do ritual cerimonial na construção conceptual e estética na arte contemporânea. A cultura e a natureza fundem-se no ritual, proporcionando as vibrações do universo cíclico, ritualizado pelo mito. A natureza é experimentada pelo corpo revivido como lugar cerimonial na obra de arte, cuja acção se transcreve pela “pele” negra da escultura.

O artista incorpora no corpo o poder mágico do mito contemporâneo, em que o ser se liberta pela passagem multidimensional, quer seja psicológica, espiritual ou material. Através de Pagan Days, Valdez Cardoso permite ao espectador dar um salto qualitativo para o inconsciente colectivo, no que respeita aos aspectos da psique, assumindo como um espaço de rito de passagens, embora muito diferente dos da cultura indígena americana ou africana. O ritual e a transformação do ser dão-se como um acto de renovação do pensamento, ou melhor, do discurso estético. O artista produz uma espécie de ponte alquímica entre o passado e o presente, onde o espectador é convidado a experimentar ou mesmo em desejar que pudesse vivenciar através da percepção estética uma nova experiência pessoal - a da transformação psicológica.

 



Joana Consiglieri
Vive e trabalha em Lisboa. Artista plástica, teórica de arte, investigadora, professora do ensino superior e Design (Cocriadora de AMAZ’D art studio). Doutoramento em Ciências da Arte. Mestrado em Teorias da Arte e licenciada em Artes Plásticas – Escultura.



JOANA CONSIGLIERI