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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição. © nvstudio / Cortesia Serralves


Vista da exposição. © nvstudio / Cortesia Serralves


Vista da exposição, com o curador Bartolomeu Mari. © nvstudio / Cortesia Serralves


Vista da exposição. © nvstudio / Cortesia Serralves


Vista da exposição. © nvstudio / Cortesia Serralves


Vista da exposição. © nvstudio / Cortesia Serralves


Vista da exposição, com o curador Bartolomeu Mari. © nvstudio / Cortesia Serralves


Vista da exposição. © nvstudio / Cortesia Serralves

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DAN GRAHAM

NOT POST-MODERNISM. DAN GRAHAM E A ARQUITETURA DO SÉCULO XX




MUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA
Rua D. João de Castro, 210
4150-417 Porto

14 OUT - 31 MAR 2024

Dan Graham, arquiteturas e geometrias, no Museu de Serralves

 

 


Citando o diretor do Museu de Serralves, Philippe Vergne, “o que tornava Dan Graham especial era a sua capacidade de capturar o nosso tempo”. Como o descreve, foi “um pensador livre e um livre criador”. Artista, curador e autor de vários e valiosos ensaios, foi mentor de artistas, teóricos, críticos e curadores, tendo a prática e o percurso destes e de tantos outros sido influenciados por ele. Com efeito, o trabalho de Dan Graham consistiu num importante contributo para o desenvolvimento da arte contemporânea, sobretudo das correntes minimalista e conceptual.

A obra do artista, extensa e de uma notável qualidade estética, não se circunscreve a específicos media, práticas e disciplinas, caracterizando-se, pelo contrário, enquanto multidisciplinar e híbrida. Emerge, assim, do cruzamento de diferentes domínios e campos, tais como a performance e a arquitetura. Tomando mais especificamente, como exemplo, a interseção destas duas últimas práticas, explora a relação com o espaço por meio quer do corpo humano quer da matéria.

A exposição que agora inaugura no Museu de Serralves, intitulada Not Post-Modernism. Dan Graham e a Arquitetura do século XX, é prova disso mesmo. Foi desenvolvida nos últimos quatro anos pelo artista, até ao seu falecimento, no passado ano de 2022, e constituiu-se em torno da ligação entre arte e arquitetura. Funcionou, simultaneamente, como testemunho das relações duradouras entre Dan Graham, Serralves e o curador Bartolomeu Mari. O resultado é um projeto curatorial inesperado, inteligente e notadamente bem-sucedido. Acrescenta-se o apoio da mulher do artista, a galerista Mieko Meguro-Graham, sobretudo na aquisição e na disponibilização dos objetos, obras e arquivos que agora se expõem.

Segundo conta Philippe Vergne, foi durante um almoço no restaurante de Serralves que desafiou Dan Graham a conceber uma exposição dedicada à arquitetura, prática pela qual o artista nutria um declarado apreço. O acordo foi traçado com uma única condição: a colaboração do curador Bartolomeu Mari.

Desde então, o projeto desenvolveu-se com o apoio de Mari, ao qual se deve a sua conclusão e a sua materialização. Durante o último ano, o curador encarregou-se, ainda, de desenvolver dois núcleos dedicados a Dan Graham, designados para a última galeria da exposição e o vasto corredor que finaliza o percurso expositivo. Aí, revelam-se artefactos e modelos de trabalhos do artista, nomeadamente do Pavilhão Double Exposure, concebido em 2000 para habitar, permanentemente, os jardins de Serralves. Também aí se encontra uma fotografia de grande escala do escritório de Dan Graham, mais especificamente, de uma rica coleção de livros de arquitetura que atesta o culto do artista pela disciplina. Por certo, essas duas zonas finais sobre o próprio, retratam e cimentam a importância e a influência da arquitetura para Dan Graham, constituindo uma pertinente forma de encerrar a exposição.

Retrocedemos, agora, e debrucemo-nos sob toda a mostra, passível de ser interpretada como um manifesto da arquitetura do século XX, mais especificamente da transição desta disciplina do Modernismo para o Pós-Modernismo. Assinale-se que, embora tais determinações temporais, culturais e sociais tenham a sua origem no Mundo Ocidental, a exposição integra projetos representativos da prática da arquitetura a um nível global, por meio, por exemplo, de impressionantes obras japonesas.

No total, foram selecionados oito arquitetos, cujos projetos são apresentados em pares, em estruturas expositivas que incentivam o estabelecimento de relações, de diálogo e uma certa contaminação entre os objetos. Trabalhos de Jan Duiker, Lina Bo Bardi, Atelier Bow-Wow, Sverre Fehn, Itsuko Hasegawa e Vilanova Artigas distribuem-se em várias áreas, cada uma das quais correspondente a um princípio ou a uma concepção geométrica: O Poder da Geometria, Geometria Diagonal, Formas Geométricas, Composição Geométrica, A Arquitetura e o Programa Urbano, Arquitetura e Natureza, Um Lugar para a Comunidade e Formas Agrupadas.

Ressalve-se o desafio em destacar obras desta exposição, dados a qualidade e o elevado valor de todas elas. Dito isto, refira-se, do penúltimo núcleo expositivo, o projeto Momonoura Village, um conjunto de edifícios “ao serviço da comunidade”. Enquanto tal, responde às preocupações sociais da aldeia piscatória de Momonoura e orienta-se por princípios de sustentabilidade, atendendo à crise climática. O projeto é assinado pelo Atelier Bow-Wow, fundado por Yoshiharu Tsukamorto e Momoyo Kaijima, no Japão, em 1992.

Um pouco mais adiante, da autoria de Hasegawa, apresenta-se uma magnífica obra de arquitetura contemporânea, também no Japão, em Fujisawa, o Shonandai Cultural Center. Pensado não somente em conformidade com a área que ocupa, ou seja, com o terreno e a cidade nos quais se situa, foi simultânea e principalmente desenvolvido de acordo com o público a quem se destina, desde a concepção da estrutura, à estética e aos materiais adotados.

Poderá, ainda, indicar-se o Teatro Oficina, concebido em 1991, pela arquiteta itálico-brasileira Bo Bardi em conjunto com Edson Elito. Funciona como sede da companhia de teatro Uzyna Uzona e foi eleito o melhor teatro do mundo pelo The Observer, na categoria "Projeto Moderno", em 2015. Como se observa a partir dos vários registos fotográficos, o edifício inscreve-se organicamente no espaço que ocupa, ligando-se ao que o rodeia. No interior, as zonas confluem umas nas outras, refletindo as práticas colaborativas e participativas pelas quais se rege a instituição. Também se sublinha a relação com o exterior, favorecida pelas amplas janelas, pela vasta quantidade de madeira que cobre uma parte dos pisos e por uma imponente árvore que parece integrar ou mesmo florescer da própria edificação.

Refira-se que, independentemente da diversidade dos projetos exibidos nesta mostra, identificam-se alguns valores centrais comuns, tais como o reconhecimento e a utilização do espaço público enquanto ágora, lugar da praxis e da lexis, donde, aberto, livre, a ser ocupado, utilizado e experienciado pelos cidadãos. Tais princípios encontram-se, por sua vez, repercutidos na obra de Dan Graham.

Por último, sublinho que a exposição foi concebida a partir das três figuras geométricas essenciais para o artista e para as quais a sua obra tende a remeter: o triângulo, o círculo e o quadrado. Ergue-se como uma mostra dinâmica e cuja experiência, a nível percetivo, relacional e estético, é desafiante e estimulante, muito para lá de uma comum apresentação de obras de arquitetura. Com efeito, a obra de Dan Graham projeta-se para além de limites e paradigmas, e projeta-o a ele, ao artista, para lá do seu próprio tempo.

 

 

 

Constança Babo
É doutorada em Arte dos Media e Comunicação pela Universidade Lusófona. Tem como área de investigação as artes dos novos media e a curadoria. É mestre em Estudos Artísticos - Teoria e Crítica de Arte, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, e licenciada em Artes Visuais – Fotografia, pela Escola Superior Artística do Porto. Tem publicado artigos científicos e textos críticos. Foi research fellow no projeto internacional Beyond Matter, no Zentrum für Kunst und Medien Karlsruhe, e esteve como investigadora na Tallinn University, no projeto MODINA.



CONSTANÇA BABO