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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Still do filme A Visita e Um Jardim Secreto (2022), de Irene M. Borrego. Cortesia Cedro Plátano e 59 en Conserva.


Still do filme A Visita e Um Jardim Secreto (2022), de Irene M. Borrego. Cortesia Cedro Plátano e 59 en Conserva.


Still do filme A Visita e Um Jardim Secreto (2022), de Irene M. Borrego. Cortesia Cedro Plátano e 59 en Conserva.


Still do filme A Visita e Um Jardim Secreto (2022), de Irene M. Borrego. Cortesia Cedro Plátano e 59 en Conserva.


Still do filme A Visita e Um Jardim Secreto (2022), de Irene M. Borrego. Cortesia Cedro Plátano e 59 en Conserva.


Still do filme A Visita e Um Jardim Secreto (2022), de Irene M. Borrego. Cortesia Cedro Plátano e 59 en Conserva.


Irene M. Borrego. © Abraham Blázquez García

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ARQUIVO:


IRENE M. BORREGO

A VISITA E UM JARDIM SECRETO




CINEMAS PORTUGUESES



16 NOV - 29 NOV 2023


 


Tudo começou com um convite. Não é assim que começam todas as coisas? Um convite, uma chamada para a aventura. Vagueamos por cinemas, eventos, salas de espetáculos, ruas de uma Lisboa que se assemelham a bastidores de algo prestes a acontecer. A azafama normal de uma cidade em movimento.

Escolhemos um lugar, sentamo-nos. Deixamos que nos levem até outro mundo. Imaginamos o cinema como uma janela aberta para a aventura.

Foi assim que acabei numa sala de cinema a assistir ao documentário “A Visita e Um Jardim Secreto” de Irene M. Borrego.

Na sala escura do cinema embarcamos numa viagem. Irene começa por filmar um gato. Todos adoramos estes misteriosos animais, temos vontade de os filmar, de os observar. Os animais fazem aquilo que lhes apetece. Não têm consciência de uma câmara de filmar, não fazem juízos de valor sobre um filme. Irene filma o gato Ramsés. Não como um adereço, mas como uma personagem. Uma personagem que não fará o que é esperado. Por muito que a realizadora queira que este gato lhe dê respostas, ele não o fará. Este gato, como todos os outos gatos, fará somente aquilo que o instinto lhe manda. Este gato anuncia todo o filme. É ele o símbolo de uma existência primacial.

Irene entra de rompante no filme. Ela quer respostas para as suas perguntas. É impaciente, inconveniente, persistente, obcecada em encontrar respostas para o que a atormenta.
Este gato não lhe pode dar as respostas que procura. E a sua tia também não. Não porque não soubesse responder, mas tal como o gato, Isabel não sente a necessidade de explicar o óbvio.

Observamos tudo isto pelos olhos da sua sobrinha que, apesar de perceber, não consegue interiorizar o que Isabel lhe explica. As mentalidades dominantes na época em que Isabel viveu, parecem-nos abjetas e repugnantes quando as analisamos à luz da contemporaneidade.

“Entende o que era a vida em Espanha, entende o que é ser mulher e o que eu vivi”.
Tenho a certeza que Irene sabe bem o que isto significa. No entanto, a Irene realizadora finge não entender. Na verdade, ela, como todos nós: Não queremos acreditar. Temos que perguntar várias vezes para que nos expliquem com clareza... precisamos que nos digam as palavras que não foram ditas.
Antes de morrer, tens que nos contar a tua história. Agora, sem medo de falar.
E nós precisamos que nos contes tudo. Que anuncies as palavras pelo seu nome, que não tenhas medo de dizer que foste discriminada por ser mulher. Esquecida convenientemente, arrumada a um canto para dar lugar a outras presenças mais convenientes ao discurso oficial da época.
Precisamos que nos contes essa história. Nós somos a realizadora impertinente, fazemos demasiadas perguntas e queremos descobrir todos os véus. Queremos o aqui, o agora.

Irene realiza este documentário com uma enorme coragem. Antes de mais, uma coragem para se assumir como personagem no filme. Muitos realizadores escolhem participar nos filmes que constroem, normalmente assumem o papel de herói. Mas quantos assumem o papel de antagonista? Irene fá-lo neste filme. Odiamos Irene pela sua impaciência, pela maneira como interroga Isabel, mesmo que a tentem impedir. Irene coloca tudo isto no seu filme. Mergulha num papel de antagonista, e enquanto ocupa o lugar de vilã, oferece a Isabel o papel de heroína. Irene conta-nos uma história que vai para além de “bons” e “maus”. Deixa-nos a pensar que nem todos os vilões são maus, nem todos os velhos são chatos, nem todos os filmes são iguais.

Tudo começa com um convite, uma chamada para a aventura. A ideia dum cinema como janela aberta para outro mundo, para outro universo. Irene convida-nos a entrar num universo íntimo e pessoal. Irene convida-nos a entrar na casa dos seus familiares, convida-nos a pensar temas desconfortáveis como a velhice, a representação social da arte e do artista, a efemeridade da vida.

Vagueamos por salas de espetáculos, pelos bastidores da vida. De vez em quando encontramos um filme que nos faz pensar sobre a nossa existência, a nossa perceção do mundo; como artistas, e acima de tudo como pessoas.

A história de Isabel não é um caso isolado. Condenada severamente pelo seu único crime: ser pintora; pelo seu único pecado: “ter estudado Belas Artes”. Não é fácil aceitar a sua condição. Nem aceitar que a história de Espanha, e da Europa, a condição de se ter nascido mulher, pobre ou rica, branca ou negra, tenha um papel tão decisivo na construção e aceitação da nossa identidade. “Porque é que se diz que temos alma? Porque se diz que não morremos?”, pergunta-nos Isabel. Nem Irene nem nós sabemos... “É isso que temos que procurar”.

 

 

  

Richard Laurent
Nasceu em Santa Mónica, Califórnia. Formou-se pela USC School of Cinematic Arts (Los Angels-EUA), mestre em antropologia (Culturas Visuais) pela NOVA FCSH (Lisboa – Portugal), actualmente vive em Lisboa.

 



RICHARD LAURENT