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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da instalação Alexandre Estrela: Flat Bells, The Museum of Modern Art, Nov 4, 2023 - Jan 7, 2024. © Jonathan Dorado.


Vista da instalação Alexandre Estrela: Flat Bells, The Museum of Modern Art, Nov 4, 2023 - Jan 7, 2024. © Jonathan Dorado.


Vista da instalação Alexandre Estrela: Flat Bells, The Museum of Modern Art, Nov 4, 2023 - Jan 7, 2024. © Jonathan Dorado.


Vista da instalação Alexandre Estrela: Flat Bells, The Museum of Modern Art, Nov 4, 2023 - Jan 7, 2024. © Jonathan Dorado.


Alexandre Estrela. Flat Bells [detalhe]. 2023, video gerado por computador e projecção de sombra. © João Neves. Cortesia do artista e Travesía Cuatro, Madrid.


Alexandre Estrela. Flat Bells [detalhe]. 2023, video gerado por computador e projecção de sombra. © João Neves. Cortesia do artista e Travesía Cuatro, Madrid.


Alexandre Estrela. Flat Bells [detalhe]. 2023, video gerado por computador e projecção de sombra. Cortesia do artista e Travesía Cuatro, Madrid.


Alexandre Estrela. Flat Bells [detalhe]. 2023, video gerado por computador e projecção de sombra. Cortesia do artista e Travesía Cuatro, Madrid.

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ALEXANDRE ESTRELA

FLAT BELLS




MOMA - THE MUSEUM OF MODERN ART
11 West 53 Street
New York, NY 10019-5497

04 NOV - 07 JAN 2024


 

A exposição Flat Bells de Alexandre Estrela inaugurou a 4 de Novembro e estará patente até 7 de Janeiro no Museum of Modern Art, na Sala Estúdio Marie-Josée e Henry Kravis, em Nova York. Esta exposição integra a programação The Hyunday Card Performance Series que tem vindo a mostrar experiências dentro de formatos híbridos e experimentais, associados às práticas performativas e media arts. Esta é a primeira exposição do artista em Nova York.

Parecem-me existir duas vidas de apresentação desta exposição. Por um lado, uma partilha da experiência vivida ao visitá-la. Por outro, a compreensão das estruturas conceptuais e formais que regem o conjunto de obra de Estrela. Para uma maior compreensão destas estruturas conceptuais e narrativas que refiro, aconselha-se esta leitura, onde se compreende o trajecto de formação da obra, desde a descoberta das placas metálicas gravadas com desenhos, à criação e organização dos sons a partir das mesmas e da “audição da imagem”.

Em Estrela, os processos são a obra, avançaria. A experiência da obra, uma outra coisa. No intermédio destas duas vias, parece-me existir o plano em que Estrela age. Há um cinismo face à dimensão estrutural - crenças, sociedades e afins - e um exasperamento face à falta de estrutura, e a tirania que daí decorre.

Um quadrado impresso com um curto texto do artista - uma peça impressa, diz-se no site do museu - disponível como souvenir aos que vêm-vêem, anuncia-se como uma nota de aviso àqueles que entrarão em Flat Bells à procura de um banho de gongo numa casa onírica. E assim prossegue o aviso, afirmando que nem imagens nem sons que se apresentam nesta instalação são celestiais ou sobrenaturais, tratam-se de ecos de uma extraordinária experiência de um organismo artificial. A experiência de relaxamento que poderá acontecer não é intencional, acrescenta-se. Tendo ou não intenções terapêuticas, a exposição prolongada a Flat Bells é imprevisível.

O reiterado uso da expressão “contudo”, neste mesmo texto, cria condições de suspeição quanto à aproximação a este objecto ou experiência. Note-se que se entra em Flat Bells mais do que se vê Flat Bells. Pode ser desta maneira, poderá ser neste sentido, contudo... E abre-se o espaço para um misterioso vazio. Será intenção que a dúvida se instale, ou antes da experiência - como condicionamento a um determinado modo de atenção, ou depois da experiência - como influenciador da reflexão sobre o vivido, consoante os diferentes leitores de textos de exposição?

Lendo este texto antes e depois da exposição, a sua própria leitura altera-se. Estamos em jogo, diria. Ou seja, apesar da potente experiência de entrar em Flat Bells, Estrela pisca o olho ao crer num qualquer sistema de crenças nessas mesmas experiências. Esta leitura suporta-se, ou acentua-se, com a frase “Flat Bells wants to grab your attention but it also doesn't really give a shit” proferida pelo artista. Esta frase aparece como espécie de parangona sensacionalista, dentro da conversa realizada entre Alexandre Estrela e Ellie Ga a propósito de Flat Bells. A conversa, a mesma já aconselhada à entrada deste artigo, está disponível para leitura na Magazine do Museu.

É impactante, entrar aqui. E como não seria, se assim é a vida? Parece-me este o tom.

Um brincar arisco, ao nível do animal doméstico que sabe, à partida, que, apesar de qualquer travessura que possa ser feita - risível, espera-se - o mimo não se perderá no futuro. É um espaço de uma brincadeira protegida. Esta brincadeira não é levada às suas últimas consequências o que desembocaria, porventura, numa reacção extremada à prática de Estrela. Assim não acontece. Esta exposição é amável e é agradável.

À medida que o som soa, e as projecções em pequenas superfícies suspensas se movem, a projecção-cenário, que ocupa a totalidade da parede de fundo da sala, mostra sombras que acompanham o som. O som torna-se visível através de um artifício de movimentos e sombras, como um pequeno teatro de figuras. Um som metálico. Também as projecções mais pequenas acompanham o movimento do som. Sinos, somos induzidos aos sinos, pelo título.

O jogo da superfície - a mentira da pintura - é activada com projecções de imagens em movimento, como temos vindo a ver no trabalho de Estrela. Estas imagens carregam também um universo metálico, acentuada pela ambiência de azuis com transição para o rosa permanente. A paleta de cores mimetiza as cores da Caravela Portuguesa, algo que se descobre também na informação paratextual da exposição, onde Estrela partilha o seu fascínio pelos seus sistemas - cada um dos exemplares desta espécie é uma colónia de organismos com diferentes funções, apesar da partilha genética - muito para além da aparência estranha e do perigo que representam. A Estrela fascina também a forma como os animais se tornam úteis metáforas para os humanos, a mesma utilidade de que fiz uso generalizando a imagem de doméstico.

As formas geométricas e linhas são a geometria base dos pratos metálicos suspensos, activada e alterada em coordenação com a projecção que lhe assenta. Qualquer coisa de um digital-manual me recorda o fazer de Pedro Henriques, embora pudesse fazer sentido lembrar o contrário; Henriques como um fiel seguidor ou percursor de Estrela. A relação com Henriques não se dá apenas pela materialidade e características da imagem em si mesma, mas pela composição e distribuição dos elementos no espaço. Como uma orquestra. Projectores, planos de projecção, fundos, fios, colunas... tudo está visível e tudo está composto. Somos enganados, mas sabemos que estamos a ser enganados, tal como, novamente, no teatro. Tal como, novamente, no plano bidimensional da pintura.

Circuitos, circulação de energia, activação de matérias; há uma espécie de falsa transdução através da evocação de estados transitórios. No final, nada do que se transforma é irreversível. É referido, a propósito, o círculo circadiano, tal como no filme Inversão Polar (2011). Também a possibilidade não intencional do estado de relaxamento ou transe, o que não deixará de se relacionar com esta circularidade funcional. Dois extremos me parecem possíveis, ainda dentro das características desta indução de estrados, tal como no caso do filme Viagem ao Meio - I e II (2010) exibido em sala: we're trapped.

O som parece ainda pertencer à boca, algo que lembra os estalos da língua no céu da boca, e que marcam uma transição no movimento do som. É um concerto, é um teatro. Espaço, tempo, simulação, engano, narrativas e formas e personagens. Abstractos. Mas nem por isso menos narrativos ou sequenciais.

 

Catarina Real
(1992, Barcelos) Trabalha na intersecção entre a prática artística e a investigação teórica no campos expandidos da pintura, escrita e coreografia, maioritariamente em projectos colaborativos de longa duração, que se debruçam sobre o questionamento de como podemos viver melhor colectivamente. É doutoranda do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho com uma investigação que cruza arte, amor e capital. Encontra-se em desenvolvimento da Terapia da Cor, prática aplicada entre teoria da cor, arte postal e intuição coreográfica. Mantém uma prática de comentário - nas vertentes de textos de reflexão, textos introdutórios a exposições, entrevistas e moderação de conversas - às obras e processos realizados pelos artistas na sua faixa geracional, com a intenção de contribuir para um ambiente salutar de crítica e criação colectiva e comunitária.
É de momento artista residente na Residency Unlimited, Nova York, com apoio do Atelier-Museu Júlio Pomar/EGEAC.


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* os filmes de Estrela referidos foram apresentados dentro da linha programática “Modern Mondays”

*tradução livre



CATARINA REAL