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AS DEFORMAÇÕES VISUAIS DE MANET E DEGAS

2007-05-17




Marmor (professor de Oftalmologia na Universidade de Stanford e filho de coleccionadores de arte) publica em “The Archives of Ophtalmology” um ensaio que sustenta que as oscilações de estilo que os mestres impressionistas Degas e Monet acusaram nos seus últimos anos não reflectem uma evolução no sentido da arte abstracta ou expressionista, como defendem muitos críticos de arte, traduzem antes os efeitos que o avançar da idade provocou nas suas capacidades oculares. Degas teve uma degeneração macular que lhe nebulava a vista, Monet sofreu de cataratas. “A sua época mais abstracta coincide com os anos em que via através de um filtro borroso e amarelado provocado pela doença”, afirmou o cientista. “Depois de ser operado voltou ao seu estilo anterior”. A questão não passa tanto pelo facto dos pintores captarem um mundo distinto e por isso o pintarem de uma forma diferente, mas por, sabendo que já não viam bem, terem tratado de o compensar através da sua obra (Degas acabou pintando sobre telas enormes). A ironia: “Ao observar os seus quadros não eram capazes de julgar se o que acabavam de pintar era, de facto, o que queriam ter pintado”, afirmou Marmor. Para explicar a aparente confusão, o melhor é ver através dos seus olhos. Recorrendo a um programa informático, Marmor aplica filtros que imitam as deformações visuais. Se analisarmos a forma como Monet pintou entre 1918 e 1924, quando as cataratas eram mais graves, concluímos que foram elas as responsáveis pela privação da sua subtil paleta de cores visuais, essência do seu estilo. Quando foi operado optou por destruir muitos dos quadros desse período”. Degas teve melhor sorte com a doença que o atacou. “Reparamos numa tremenda evolução do seu traço à medida que se torna maior e vê pior. É menos refinado, os perfis menos suaves, a sua pincelada mais tosca”. No entanto, a sua deformação esfumava estas diferenças. “Ele sabia que os seus traços eram mais toscos, contudo quando se afastava para observar o quadro o que via era uma figura suave e bem sombreada”. “De certo modo, a natureza da sua deformação deu-lhe confiança para continuar a pintar até ao final dos seus dias”, conclui Marmor, que esclarece que a sua teoria não explica a arte, mas revela muito sobre os obstáculos que os pintores enfrentaram. Como reagiram os críticos e historiadores de arte à tese do médico? “Muitos consideram-na útil para entender melhor os artistas”, responde Marmor, “outros defendem que os médicos não deviam intrometer-se em assuntos que não lhes dizem respeito”. O cientista apoia a sua investigação em documentos históricos, sobretudo cartas em que os artistas falam da sua visão mas não mencionam a sua intenção consciente em evoluir até ao abstraccionismo.

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