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MUSEU NACIONAL DE ARTE ANTIGA EXIBE HOJE OBRA-PRIMA DE JOSEFA DE ÓBIDOS

2019-09-06




Intitulada 'A Leitura da Sina do Menino Jesus', a pintura criada por Josefa de Ayalla, conhecida por Josefa de Óbidos, é considerada, pelos especialistas, "uma obra-prima pela qualidade e iconografia rara".

"É uma peça extraordinária, com um tema muito raro", avaliou Joaquim Caetano, diretor do MNAA, contactado pela agência Lusa sobre a vinda da pequena pintura para ficar um mês, em exibição, no museu, cujo nome do comprador foi agora revelado.

O especialista em História da Arte revelou que a peça foi adquirida pelo colecionador e galerista argentino Jaime Eguiguren, a quem o diretor pediu para que a cedesse ao museu português, possuidor do maior acervo de obras de Josefa de Óbidos - 15 no total.

"Fomos contactados pelo colecionador, dizendo que tinha a peça, e que queria obter uma opinião do museu. Na altura, na troca de 'e-mails', eu disse que gostávamos mesmo de a expor no MNAA", recordou à Lusa o diretor do museu, mostrando-se surpreendido por Jaime Eguiguren ter aceitado de imediato a cedência para Lisboa.

A vinda a Portugal da pintura devocional de pequenas dimensões - totalmente desconhecida dos especialistas - surge num contexto particular, que tem a ver com a previsão da permanência da peça na Alemanha, de onde só partiria para os Estados Unidos dentro de um mês.

"Nestas circunstâncias, o colecionador acedeu a que a obra ficasse em Lisboa para exibição durante esse período", avançou Joaquim Caetano, que já organizou duas sessões para falar sobre esta pintura, uma hoje, às 18:00, dia da inauguração, e outra no dia 03 de outubro, à mesma hora.

A obra foi vendida em junho por 220 mil euros num leilão em Bona, na Alemanha, e, na altura, o Estado português, através da Direção-Geral do Património Cultural, tentou comprá-la para o MNAA, mas sem êxito, porque o valor ultrapassou a disponibilidade financeira para o quadro.

A pintura, vendida através da leiloeira Plückbaum, com uma base de licitação de 25 mil euros, tem uma dimensão de 23 por 29 centímetros, e foi feita sobre placa de cobre, mostrando a Virgem Maria com o Menino Jesus ao colo a ser saudado por outras mulheres com crianças, enquanto uma cigana lhe pega na mão para ler a sina.

A cena decorre durante a estada da família de Jesus no Egito, e a associação entre este país e o povo cigano foi usual na época, em coletâneas de gravuras e nas pinturas em Portugal e em Espanha.

Joaquim Oliveira Caetano disse à Lusa que a peça foi muito disputada no leilão, onde se encontravam colecionadores portugueses e estrangeiros, bem como museus interessados, que chegaram a licitar, mas viria a ser comprada por Jaime Eguiguren, que possui várias galerias de arte, nomeadamente na Europa e nos Estados Unidos.

A pintura terá sido comprada já fora de Portugal, nos anos de 1980, mas só foi conhecida quando surgiu no leilão, na Alemanha, recordou o historiador de arte, que foi conservador da coleção de pintura do MNAA e um dos comissários da mais recente e grande mostra do MNAA dedicada à artista, "Josefa de Óbidos e a Invenção do Barroco Português" (2015).

Para o historiador de arte, é muito possível que venham a surgir, no mercado, outras obras desconhecidas de Josefa, "sobretudo porque, atualmente, com as questões de género em foco, o facto de se tratar de uma mulher artista de grande talento, do período barroco, a sua obra está a ser mais valorizada".

Josefa de Óbidos nasceu em Sevilha, em 1630, e morreu em Óbidos, em 1684. Aprendeu o ofício com o pai, Baltazar Gomes Figueira, com quem trabalhou na sua oficina, e recebeu educação religiosa no Convento de Santa Ana, em Coimbra, entre 1644 e 1646, passando a residir em Óbidos a partir desse ano.

A pintora está representada no Museu do Louvre, em Paris, com o quadro "Maria Madalena", também conhecido por "A Penitente Madalena Consolada Por Anjos", comprada num leilão em Nova Iorque pelo galerista de arte lusodescendente Philippe Mendes, por 236 mil euros, e doada ao museu, onde fora curador.

Também o Museu da Misericórdia do Porto tem um quadro de Josefa de Óbidos, "A Sagrada Família com São João Batista, Santa Isabel e Anjos", igualmente adquirido num leilão em Nova Iorque, por 228 mil euros.

Dos quadros-chave na obra da pintora, destacam-se ainda 'Maria Madalena' e 'Lactação de S. Bernardo', na coleção do Museu Nacional Machado de Castro, em Coimbra, 'Cordeiro Místico', no Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães, e 'Cordeiro Pascal', no Museu Nacional Frei Bartolomeu do Cenáculo, em Évora, que detém igualmente algumas naturezas mortas da pintora, assim como as peças "Transverberação de Santa Teresa" e 'Sagrada Família' e 'Calvário'.

O Museu de Arte Walters, de Baltimore, nos Estados Unidos, tem no seu acervo e em exposição permanente o 'Cordeiro Sacrificial', pintura adquirida em Roma, no início do século XX, pelo fundador da instituição, Henry Walters.

Em 1991, a Galeria D. Luís, no Palácio Nacional da Ajuda, acolhera a mostra "Josefa de Óbidos e o Tempo Barroco" e, em 1997, o National Museum of Women in the Arts, em Washington D.C., nos Estados Unidos, dedicou à artista a exposição "Sagrado e Profano: Josefa de Óbidos de Portugal".

A primeira exposição conhecida com obras de Josefa de Óbidos remonta ao final da década de 1940, no MNAA, com a reunião de pinturas do seu acervo.



Fonte: Notícias ao Minuto