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OPINIÃO


Ohne Titel, 05.01.2006. Colecção privada, Berlim. Cortesia: Ceija Stojka International Fund


Reisen in Somer durch die Sonnenblumen, 1996. Colecção privada, Viena. Cortesia: Ceija Stojka International Fund


Landleben, 1993. Colecção privada, Viena. Cortesia: Ceija Stojka International Fund


Sem Título, 1996. Colecção privada, Paris. Cortesia: Ceija Stojka International Fund


Sem Título, 1995. Colecção privada, Paris. Cortesia: Ceija Stojka International Fund


Sem título (Viena-Auschwitz), s/d. Colecção Hojda e Nuna Stojka, Viena. Cortesia: Ceija Stojka International Fund


Sem Título, 10 (?).1.2002. Colecção Hojda e Nuna Stojka, Viena. Cortesia: Ceija Stojka International Fund


Z 6399, 1994. Colecção privada, Paris. Cortesia: Ceija Stojka International Fund


Die Züge sind schon voll, aber die müssen noch rein. Weiter, los, los! Los, alles nach Auschwitz! (...), 5.3.2005. Colecção Hojda e Nuna Stojka, Viena. Cortesia: Ceija Stojka International Fund

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MIGUEL PINTO

2021-12-26




 

 

Num excerto do documentário sobre Ceija Stojka realizado por Karin Berger, apresentado logo ao iniciar da sua mais recente exposição no Museu das Artes de Sintra, observa-se a artista a compor as suas obras: coloca a tinta nas mãos e apalpa-a, apercebe-se da sua plasticidade enquanto simultaneamente a liberta pelos dedos; de seguida esfrega-a na tela, construindo a substância de que se faz a pintura. Stojka só utiliza as mãos, mas pintar com o corpo é parte fundamental da sua obra – há uma atitude de presença física e mental perante os objetos que compõe, parte fundamental da catarse que convocam. De origem cigana, Stojka está sempre em busca do porquê dos seus traumas, da razão de ter passado por eles sem nada ter feito para isso. Ainda que a maioria das pinturas aqui dispostas, compostas mais de 40 anos após a libertação de Bergen-Belsen, onde esteve presa num campo de concentração, já denunciem algum sentido de ultrapassagem destas marcas, elas escondem-se, discretamente, perante o seu aparentemente ingénuo otimismo.

Há dois elementos recorrentes, fundamentais na compreensão das suas obras: os corvos e os girassóis.

 

1. Os Corvos

No documentário apresentado há entrada da exposição, há um excerto em que Stojka descreve um sonho que teve: tinha voltado aos campos de concentração depois de ultrapassada toda a tragédia, e via neles um cemitério; rapidamente, repara que os mortos começam a ganhar vida, transformando-se em pássaros, que num belo espetáculo, voam dali para fora. Podemos perfeitamente situar este imaginário nas pinturas de Stojka: é curioso verificar que grande parte delas incluem o que parecem ser estes pássaros, aves negras como corvos que voam sobre os céus. Nas pinturas que parecem ser apenas o denunciar de uma vida no campo, simples, banal, os pássaros negros parecem convocar o trauma, aquele que a pintora já não teme, mas que veste consigo:

Auschwitz é o meu manto
tens medo da escuridão?
digo-te que no caminho onde não há ninguém,
não tens que ter medo.
Eu não tenho medo.
O meu medo ficou em Auschwitz
e nos campos de concentração.
Auschwitz é o meu manto
Bergen-Belsen o meu vestido
e Ravensbrück a minha camisola interior
De que é que posso ter medo?

Os mortos não têm para Stojka o cunho dramático, assustador que podemos à partida ver neles – são almas que, finalmente, estão em paz, respeitaram o curso natural da vida e já nada fazem, nem sentem. São corpos traumatizados, como ela:

Eu estava sempre lá fora, sentada entre os mortos. Era o único lugar realmente calmo, abrigado do vento (…) Sempre que regresso a Bergen-Belsen, é como se fosse uma festa! Os mortos voam num rumorejar de asas. Vêm cá para fora, agitam-se, e eu sinto-os, cantam, e o céu está repleto de pássaros.

Estes pássaros são presença regular nas obras que focam diretamente os campos de concentração que, nesta exposição, ocupam uma pequena secção – mas de grande impacto, violência - com obras unicamente a preto e branco (ainda que nem sempre seja o caso nas pinturas de Stojka que se debrucem, sem rodeios, sobre o assunto). Destaque para Auschwitz inen Leben, onde os pássaros parecem gritar sob uma enorme mancha negra, ou a traduzida A SS gritava: Marchem! Nós tínhamos medo onde pontuam a emotiva e preenchida composição.

A grande parte das pinturas de Stojka não têm título, sendo que as acima descritas o têm apenas porque a artista inscreveu texto na própria composição. Isto torna difícil, num texto como este, a sua evocação. Há, no entanto, uma pintura, da sua secção de obras campestres, que me ficou na memória e que procuro descrever: um campo de girassóis amarelos e negros em primeiro plano, representados com um forte contraste cromático, ocupam o comprimento inteiro da tela, à exceção da margem esquerda, onde, ao fundo, se encontram árvores vermelhas, e as suas folhas, que pendem dos ramos, diluem-se no campo de girassóis. No plano fundeiro, vemos o que parece uma cordilheira, sob um céu branco, onde pássaros negros voam.

 

2. Os Girassóis

Os girassóis são um símbolo da vida na cultura rom. Nas obras de Stojka, o seu sentido não difere, parecem incorporar a felicidade, a esperança, um certo tom naif. É curioso como em muitos casos são sobrevoados pelos pássaros negros – é neste paralelo que se encontra o sentido da obra de Stojka. Ela dedica-lhes também um poema:

O girassol é a flor do Rom.
Ela alimenta-o, ela é a vida.
E as mulheres adornam-se com ele.
A sua cor é a do sol.
Crianças, na primavera comíamos as suas folhas
amarelas e tenras e no outono as sementes.
Era importante para o Rom.
Mais importante que a Rosa,
porque a rosa provoca-nos o choro.
E o girassol desperta-nos o riso.

A natureza é cíclica, viva e forte, como o nosso próprio curso. Ver na nossa vida o pessimismo é renunciar a vivê-la – porque tudo caminha para o mesmo lugar. Este é o espelho destas pinturas, dos corvos, dos girassóis, dos verdes do campo que aqui se fazem representar – a natureza mostra-se messiânica, capaz de salvar. É importante atentar nas opções de luz empregues na mostra: não encontramos a luz branca, imparcial que habitualmente pontua a museografia dos espaços expositivos – é uma luz colorida, contagiante, cujo tom varia em cada uma das salas - ainda que distorça alguma da intenção natural das pinturas, simultaneamente envolve-nos numa embriaguez alegre, simples, sublinhando a aparente inocência de uma pintura que viveu mais que qualquer um de nós.

Amo a chuva, o vento e os relâmpagos,
quando as nuvens encobrem o céu
e o vento dança com as folhas das árvores
a chuva dá vida às flores
e enche as nossas panelas de água.
Mas as nuvens passam
e o sol ri lá do alto do céu
e a paz regressa às florestas e aos charcos.
De manhã abrem-se as flores
e o sol ergue-se de novo
com os seus fios de prata acaricia as árvores e as florestas,
ele dança no sol, para cima e para baixo, uma e outra vez
o vento levanta-o e derruba-o.
Em breve a chuva voltará, os trovões e os relâmpagos
E assim será por toda a eternidade.

A exposição termina com um sistema de som, disposto no chão sob um tapete, através do qual ouvimos cânticos rom, interpretados pela própria artista. Na verdade, o som está alto o suficiente, não só para o notarmos anteriormente, enquanto vagueávamos pelos quadros, como para nos seguir enquanto saímos da exposição. Stojka procura resistir, afirmar-se, fazer-se ouvir: a nossa comoção é inevitável. A sua voz acompanha-nos: para não esquecermos.

Ceija Stojka está em exposição no Museu das Artes de Sintra até ao dia 2 de janeiro.

 

 

 

Miguel Pinto
Estuda História da Arte na Universidade Nova de Lisboa.