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OPINIÃO


Inauguração da exposição Still (H)e(a)ven, de Sérgio Bráz d'Almeida, no Centro Interpretativo do Mundo Rural, Vimieiro, 2019. Fotografia: Cortesia Cortex Frontal.


Vista da exposição Still (H)e(a)ven, de Sérgio Bráz d'Almeida, no Centro Interpretativo do Mundo Rural, Vimieiro, 2019. Fotografia: Cortesia Cortex Frontal.


Vista da exposição Still (H)e(a)ven, de Sérgio Bráz d'Almeida, no Centro Interpretativo do Mundo Rural, Vimieiro, 2019. Fotografia: Cortesia Cortex Frontal.


Vista da exposição Still (H)e(a)ven, de Sérgio Bráz d'Almeida, no Centro Interpretativo do Mundo Rural, Vimieiro, 2019. Fotografia: Cortesia Cortex Frontal.


Vista da exposição Still (H)e(a)ven, de Sérgio Bráz d'Almeida, no Centro Interpretativo do Mundo Rural, Vimieiro, 2019. Fotografia: Cortesia Cortex Frontal.


Vista da exposição Still (H)e(a)ven, de Sérgio Bráz d'Almeida, no Centro Interpretativo do Mundo Rural, Vimieiro, 2019. Fotografia: Cortesia Cortex Frontal.


Sérgio Brás d’Almeida, Natureza-morta com laticínios, ovos, maçãs & HandyCam (2019). Impressão fotográfica em algodão, 105cm X 70cm.


Sérgio Brás d’Almeida, Natureza-morta com frutos vermelhos & dildo azul (2019). Impressão fotográfica em algodão, 105cm X 70cm.


Sérgio Brás d’Almeida, Natureza-morta com dióspiros, abóboras & lâmpada económica (2019). Impressão fotográfica em algodão, 105cm X 70cm.


Sérgio Brás d’Almeida, Natureza-morta com chá, romãs & telemóvel (2019). Impressão fotográfica em algodão, 105cm X 70cm.


Sérgio Brás d’Almeida, Natureza-morta com queijo, enchidos & bomba alargadora de pénis (2019). Impressão fotográfica em algodão, 105cm X 70cm.


Sérgio Brás d’Almeida, Natureza-morta com nozes, castanhas & barra de cereais (2019). Impressão fotográfica em algodão, 105cm X 70cm. 


Vista da exposição Still (H)e(a)ven, de Sérgio Bráz d'Almeida, no Centro Interpretativo do Mundo Rural, Vimieiro, 2019. Fotografia: Cortesia Cortex Frontal.

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O CENTRO INTERPRETATIVO DO MUNDO RURAL E AS NATUREZAS-MORTAS DE SÉRGIO BRAZ D´ALMEIDA



NUNO LOURENÇO

2019-11-06




 


 


Nas povoações de alguma importância, existe pelo menos uma igreja, uma mercearia e um café, para além do casario. Em núcleos populacionais maiores, proliferam vários equipamentos de função religiosa, social e de distribuição de diversos tamanhos, adaptados à maior diversidade cultural e às exigências das diferentes camadas socioeconómicas. A par destas estruturas, é de salientar, a multiplicação nesses grandes núcleos, de galerias de arte e/ou de museus de arte contemporânea, conforme conhecemos através do ensaio de Brian O´Doherty sobre a ideologia destes espaços. Mas, a novidade é que as suas mágicas paredes brancas, onde o passado, presente e futuro se fazem equivaler sob as linhas concetuais contemporâneas, chegaram às mais pequenas vilas da província como de um equipamento vital para o funcionamento da sociedade se tratasse. Apresentam-se, no entanto, com outros nomes como centro cultural ou centro interpretativo e albergam objetos específicos ou exposições de uma temática mais regional, mas, reservam também um espaço expositivo para artistas poucos conhecidos. O Centro Cultural de Cabeção da autoria do arquiteto Vítor Mendes e o Centro Interpretativo do Mundo Rural do Vimieiro, dos arquitetos Michele Cannatà e Fátima Fernandes, são disso exemplo. Nestes dois equipamentos lá está a imprescindível tinta branca, as janelas ou portas de parede a parede através das quais trespassa toda a beleza da luz natural e se desenvolvem a partir do módulo do cubo branco, protótipo do espaço da galeria.


 



Centro Interpretativo do Mundo Rural, Vimieiro. Fotografia: Nuno Lourenço.

 


 


No caso do Centro Interpretativo do Mundo Rural do Vimieiro, as paredes brancas anulam a rudeza implícita das ferramentas, objetos domésticos e alfaias agrícolas, elevando a sua condição de objetos de trabalho a uma dimensão estética. Apesar de não serem obras de arte, a sua descontextualização “clean” integrada num ambiente museológico contemporâneo, força o nosso olhar e consequentemente a nossa mente, para a transformação do objeto enquanto coisa, num objeto intocável donde ressalta mais que tudo a sua dimensão aurática.


 




Vistas da exposição permanente no Centro Interpretativo do Mundo Rural, Vimieiro. Fotografias: Nuno Lourenço.


 




Neste museu, ou melhor, neste centro interpretativo, dito do mundo rural, estiveram abertas ao público, paralelamente à sua coleção permanente de objetos que vão desde as sementeiras até às colheitas, exposições temporárias integradas no contexto regional, como “Rostos do Alentejo” ou “O Alfaiate através dos Tempos”. Mas, presentemente, está patente até ao dia 24 de novembro, nessa pequena freguesia de Vimieiro, Arraiolos, com pouco mais de 1600 pessoas, uma verdadeira exposição de arte contemporânea. Sérgio Braz d´Almeida apresenta-se neste centro com um projeto fotográfico de naturezas-mortas desconcertante, em colaboração com Cortex Frontal, uma organização de residências artísticas, também sediada em Arraiolos. Transformar um género ou uma temática clássica em fotografia ou vídeo não é original. Basta pesquisar na internet naturezas-mortas fotografadas para vermos a quantidade de artistas que o fazem ou relembrar Robert Wilson usando a imagem de Lady Gaga para tornar vivo o quadro “A morte de Marat” de David. Diria que original, terá sido a série “Meat-Abstract” de Helen Chadwick ao fotografar naturezas-mortas de vísceras combinadas com todo o tipo de materiais e objetos. Sérgio Braz d´Almeida tem, contudo, mérito no que faz por duas razões fundamentais. As naturezas-mortas que fotografa são efetivamente clássicas no que respeita à sua composição, pela perfeita conjugação de frutos, queijos, e objetos de serviço de mesa, e na mestria com que encena a luz refletida sobre tal composição. Se olharmos para as naturezas-mortas holandesas do séc. XVII de Willem Claesz ou Willem van Aelst, expostas no Rijksmuseum, pensamos que parecem fotografias de tão perfeitas que são. Quando olhamos para estas fotografias de Braz d´Almeida, pensamos que está tudo tão perfeitamente posto em equilíbrio que parecem pinturas elaboradas ao mais ínfimo pormenor. São exemplo desse equilibro sublime, “Natureza-morta com chá, romãs e telemóvel” ou “Natureza-morta com lacticínios, ovos, maçãs e handycam”.


A outra razão fundamental, é sem dúvida o elemento desconcertante incorporado no resto da composição. Esses elementos integram-se em geral pela cor, mas, também pelo claro-escuro. À exceção, de uma barra de cereais que se associa a uma natureza-morta com castanhas e nozes, porque a barra poderá conter esses frutos secos, o mesmo não se poderá dizer de um mata-moscas à frente de peras, uma fita-cola grossa no meio de cebolas e uvas ou um amplificador servindo de cenário a vinho, queijo e uvas. Ao mesmo tempo, que nos surpreendemos com a existência desses objetos contemporâneos e industriais misturados com o classicismo dos elementos naturais e das linhas do serviço de mesa, reparamos que na maior parte das fotografias, esse elemento não destoa assim tanto do conjunto da composição. Ele encaixa-se estrategicamente no conjunto de toda a composição.




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Sérgio Bráz d'Almeida, Auto Retrato em Natureza-morta com cebolas, fruta, pão & fita adesiva, 2019.


 


A contemporaneidade de Sérgio Braz d´Almeida surge então de duas maneiras. Primeiro, aprendemos que uma lâmpada económica ou um alargador de pénis é tão natural nos nossos dias como a naturalidade de um tomate ou dos frutos silvestres. Segundo, constatamos que um dos traços importantes da cultura contemporânea não assenta apenas no discurso sobre o momento presente, mas também na apropriação de todos os tempos com a roupagem fresca da atualidade.


Assim sendo, não se deve apelar ao seguinte: se passarem pelo Vimieiro, terão aí algo interessante para visitar. Não. O Vimieiro tem um centro interpretativo do mundo rural rico, irrepreensível em termos concetuais e abre-se agora ao mundo com um projeto fotográfico que introduz objetos da nossa vida contemporânea num mundo imaginário do passado clássico holandês. Esse deverá ser o motivo primeiro de um próximo passeio.


 




Nuno Lourenço