O CENTRO INTERPRETATIVO DO MUNDO RURAL E AS NATUREZAS-MORTAS DE SÉRGIO BRAZ D´ALMEIDANUNO LOURENÇO2019-11-06
Nas povoações de alguma importância, existe pelo menos uma igreja, uma mercearia e um café, para além do casario. Em núcleos populacionais maiores, proliferam vários equipamentos de função religiosa, social e de distribuição de diversos tamanhos, adaptados à maior diversidade cultural e às exigências das diferentes camadas socioeconómicas. A par destas estruturas, é de salientar, a multiplicação nesses grandes núcleos, de galerias de arte e/ou de museus de arte contemporânea, conforme conhecemos através do ensaio de Brian O´Doherty sobre a ideologia destes espaços. Mas, a novidade é que as suas mágicas paredes brancas, onde o passado, presente e futuro se fazem equivaler sob as linhas concetuais contemporâneas, chegaram às mais pequenas vilas da província como de um equipamento vital para o funcionamento da sociedade se tratasse. Apresentam-se, no entanto, com outros nomes como centro cultural ou centro interpretativo e albergam objetos específicos ou exposições de uma temática mais regional, mas, reservam também um espaço expositivo para artistas poucos conhecidos. O Centro Cultural de Cabeção da autoria do arquiteto Vítor Mendes e o Centro Interpretativo do Mundo Rural do Vimieiro, dos arquitetos Michele Cannatà e Fátima Fernandes, são disso exemplo. Nestes dois equipamentos lá está a imprescindível tinta branca, as janelas ou portas de parede a parede através das quais trespassa toda a beleza da luz natural e se desenvolvem a partir do módulo do cubo branco, protótipo do espaço da galeria.
Centro Interpretativo do Mundo Rural, Vimieiro. Fotografia: Nuno Lourenço.
No caso do Centro Interpretativo do Mundo Rural do Vimieiro, as paredes brancas anulam a rudeza implícita das ferramentas, objetos domésticos e alfaias agrícolas, elevando a sua condição de objetos de trabalho a uma dimensão estética. Apesar de não serem obras de arte, a sua descontextualização “clean” integrada num ambiente museológico contemporâneo, força o nosso olhar e consequentemente a nossa mente, para a transformação do objeto enquanto coisa, num objeto intocável donde ressalta mais que tudo a sua dimensão aurática.
Vistas da exposição permanente no Centro Interpretativo do Mundo Rural, Vimieiro. Fotografias: Nuno Lourenço.
A outra razão fundamental, é sem dúvida o elemento desconcertante incorporado no resto da composição. Esses elementos integram-se em geral pela cor, mas, também pelo claro-escuro. À exceção, de uma barra de cereais que se associa a uma natureza-morta com castanhas e nozes, porque a barra poderá conter esses frutos secos, o mesmo não se poderá dizer de um mata-moscas à frente de peras, uma fita-cola grossa no meio de cebolas e uvas ou um amplificador servindo de cenário a vinho, queijo e uvas. Ao mesmo tempo, que nos surpreendemos com a existência desses objetos contemporâneos e industriais misturados com o classicismo dos elementos naturais e das linhas do serviço de mesa, reparamos que na maior parte das fotografias, esse elemento não destoa assim tanto do conjunto da composição. Ele encaixa-se estrategicamente no conjunto de toda a composição.
Sérgio Bráz d'Almeida, Auto Retrato em Natureza-morta com cebolas, fruta, pão & fita adesiva, 2019.
A contemporaneidade de Sérgio Braz d´Almeida surge então de duas maneiras. Primeiro, aprendemos que uma lâmpada económica ou um alargador de pénis é tão natural nos nossos dias como a naturalidade de um tomate ou dos frutos silvestres. Segundo, constatamos que um dos traços importantes da cultura contemporânea não assenta apenas no discurso sobre o momento presente, mas também na apropriação de todos os tempos com a roupagem fresca da atualidade. Assim sendo, não se deve apelar ao seguinte: se passarem pelo Vimieiro, terão aí algo interessante para visitar. Não. O Vimieiro tem um centro interpretativo do mundo rural rico, irrepreensível em termos concetuais e abre-se agora ao mundo com um projeto fotográfico que introduz objetos da nossa vida contemporânea num mundo imaginário do passado clássico holandês. Esse deverá ser o motivo primeiro de um próximo passeio.
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