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O seguinte guia de exposições é uma perspectiva prévia compilada pela ARTECAPITAL, antecipando as mostras. Envie-nos informação (Press-Release e imagem) das próximas inaugurações. Seleccionamos três exposições periodicamente, divulgando-as junto dos nossos leitores.

 


PEDRO CALAPEZ

BOPEEP




SISMÓGRAFO
Praça dos Poveiros 56, 1º andar, sala 1
4000 PORTO

07 SET - 29 SET 2018


Inauguração sexta-feira 7 de Setembro 2018, 22:00, no Sismógrafo

Com curadoria de Óscar Faria



A linguagem dos espelhos

Há todo um mundo simbólico que é reflectido pela exposição de Pedro Calapez no Sismógrafo. Formada por um conjunto de pinturas inéditas de três séries que o artista tem vindo a desenvolver recentemente, a mostra desenvolve-se sobretudo a partir de duas linhas temáticas: a paisagem e o espelho negro. É no cruzamento de ambas que se produz um inesperado efeito, pois aquilo de que nos apercebemos é estarmos perante obras acerca de estados interiores. Uma obsidiana completa “Bopeep (espantado escuro na nesga do brilho)”, sendo que em noites de lua cheia (25 de Setembro) se devem libertar no exterior as energias negativas captadas pelo objecto.

É do rápido arrefecimento da lava de um vulcão que se forma a obsidiana, mineralóide simultaneamente duro e frágil e com uma particular natureza vítrea, a qual permite este sólido ser usado, depois de polido, enquanto espelho. A etimologia do nome deriva da “História Natural”, enciclopédia escrita por Plínio, o Velho, publicada entre os anos 77 e 79 da nossa era. Nesse texto, o naturalista romano refere um “vidro vulcânico encontrado na Etiópia por Obsius, um explorador romano, a que fora dado o nome de obsiānus lapis, em honra do seu descobridor.”

No caso da exposição de Pedro Calapez, importa referir o facto dos espelhos negros serem considerados na cultura mesoamericana, sobretudo no período pós-clássico tardio (c.1200- 1521), como portais para o mundo subterrâneo, permitindo assim o acesso ao reino dos mortos. Há mesmo uma importante divindade azteca, Tezcatlipoca, que era considerada como a incorporação sobrenatural de um espelho em obsidiana polida. Em diversas representações deste deus, “detentor do céu e da terra”, observa-se um dos pés substituído por um “espelho fumado” – o significado do seu próprio nome –, enquanto outro destes objectos pode surgir no peito ou na parte de trás da cabeça. Um dos mais famosos destes espelhos foi adquirido por John Dee (1527-1608/9) – astrólogo, matemático e conselheiro de Isabel I em matérias relacionadas com a magia –, sendo actualmente visível, com o estojo onde era guardado, no British Museum, em Londres. Note-se que este tipo de peças era feito a partir de pedaços de obsidiana polidos com areia, agregados depois com recurso a fezes de morcego, sendo então emoldurados em madeira e decorados com penas. Trazido para a Europa por volta de 1520, o espelho negro de Dee era um dos artefactos por si usados em “conferências espirituais” para evocar os espíritos – o objecto chegou posteriormente a ser propriedade de Horace Walpole (1717-1797), o criador do romance gótico. Essas sessões, conhecidas como “Trabalhos Enoquianos”, contavam com a participação do necromante e médium Edward Kelly – Aleister Crowley acreditava ser a reincarnação deste personagem.

De 1581 a 1587, Dee registou nos seus diários os resultados dessas sessões, onde lhe foi revelada por anjos a “linguagem enoquiana”, preferindo o mago usar termos como “angelical”, “sagrada”, “adâmica” para descrever essa língua que fora apenas conhecida pelo patriarca bíblico Enoque e antes por Adão, sendo por estes usada para comunicar com Deus. Nas experiências da dupla, a recepção da língua enoquiana iniciou-se a 26 de março de 1583,
quando Kelley, recorrendo a objectos mágicos – a bola de cristal, o espelho negro –, teve visões de 21 letras de um novo alfabeto, as quais viriam a compor o Liber Loagaeth (“Livro [ou] Fala de Deus”), cujos textos foram depois traduzidos para inglês. O espelho negro de Dee – na época, a sua biblioteca era a maior das ilhas britânicas – inclui ainda no seu estojo uma inscrição, crê-se que escrita por Walpole, com uma citação do poema “Hudibras”, de Samuel Butler, publicado em 1663: “Kelly did all his feats upon The Devil's Looking Glass, a stone; Where playing with him at Bo-peep, He solv'd all problems ne'er so deep.”

Tomando como título uma palavra de um dos versos, Pedro Calapez sublinha o sentido inicial de “Bo-peep”, um jogo infantil em que a criança tapa a cara com as mãos, exclamando “boo!”quando a descobre. É durante esse esconder do rosto, quando olhamos para o nosso interior, que aumenta a hipótese de resolver os problemas de uma forma profunda. Trata-se do maravilhamento possível de se produzir no encontro com a arte, que revela em nós universos desconhecidos. Pode mesmo afirmar-se ser na cegueira que se forma o olhar: deixar de ver para ver.

Um outro objecto que serviu enquanto modelo para a exposição é o “espelho de Claude” também conhecido como “espelho negro”, pequeno artefacto de forma ligeiramente convexa e com a superfície tintada de uma cor escura, usado sobretudo por artistas e viajantes para a observação de paisagens. O seu nome deriva do pintor seiscentista francês Claude Lorrain, e a sua principal característica era a de isolar o tema do seu contexto, permitindo não só um rápido enquadramento do assunto, mas também o esbatimento das tonalidades presentes na realidade. Os “Espelhos C”, de Calapez apresentados no Sismógrafo dialogam com a “estética do pitoresco”, dela afastando-se de modo radical, vendo-se antes nessas obras turbulências várias, que podem corresponder quer a visões da natureza, quer a estados de espírito, como se de um jogo de correspondências se tratasse.

Em “Bopeep”, Calapez prossegue o caminho de uma constante renovação da sua própria linguagem pictórica, continuando a abrir caminhos entre a longa tradição da pintura e não só. Veja-se John Dee, Claude Lorrain, mas também as fotografias de August Strindberg e o livro “Le miroir noir”, uma pesquisa acerca da dimensão obscura do reflexo escrita por Arnaud Maillet, sem esquecer o filme “The Draughtsman's Contract” (1982), de Peter Greenaway e, por que não, as investigações de David Hockney acerca dos dispositivos ópticos usados desde a Renascença. Uma exposição com várias camadas que se dá a descobrir em diversos tempos, uns mais negros, outros mais coloridos, sempre intensos e reflexivos, tal como a última obra que podemos convocar para lê-la: o “Narciso”, atribuído a Gustave Courbet (1819-1877), patente na Casa-Museu Anastácio Gonçalves, em Lisboa. Um mundo de espelhos, a descoberta da nossa própria imagem: o jogo que nos propõe Pedro Calapez.


Óscar Faria


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