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O seguinte guia de exposições é uma perspectiva prévia compilada pela ARTECAPITAL, antecipando as mostras. Envie-nos informação (Press-Release e imagem) das próximas inaugurações. Seleccionamos três exposições periodicamente, divulgando-as junto dos nossos leitores.

 


ANNA FRANCESCHINI

Tu sei la noite




GALERIA VERA CORTÊS
Rua João Saraiva 16, 1º
1700-250 LISBOA

14 MAI - 12 JUN 2019


Inauguração: 14 de maio, às 22 horas, na Galeria Vera Cortês

Há um fantasma de um corpo que vagueia no espaço expositivo. Não conhecemos o seu género, a sua altura ou peso. Na verdade, não sabemos mesmo se é o fantasma de um ser humano. Mas sabemos que está ali. Ele passa através dos objetos, animando-os, move-se entre imagens enquanto negoceia aparições efémeras, materializando-se em elementos decorativos. Parece paradoxal que a palavra «fantasma» — do grego antigo ϕάντασμ — tenha a sua raiz etimológica no termo ϕαντάζω, «fazer aparecer», como se a sua natureza nos dissesse que o espaço da mise-en-scène é governado por uma ambiguidade substanciosa.

A pesquisa e prática artística de Anna Franceschini focaram-se sempre no potencial expressivo deste espaço ambíguo, revelando e exacerbando os paradoxos do estar em exibição. Para a exposição TU SEI LA NOTTE, na Galeria Vera Cortês, esta investigação toma a forma de um corpo fantasmagórico que infeta e destabiliza o olhar, questionando a ontologia do objeto e a sua relação com a mise-en-scène. Entre a transparência e a opacidade, a experiência de TU SEI LA NOTTE sugere que exposição e ocultação não são tipologias em oposição, mas a condição de cada encenação. Afinal, estar em exibição liga fundamentalmente a categoria artística e a categoria mercantil do capitalismo tardio — pelo menos na forma como as entendemos nas sociedades ocidentais. A estética de Franceschini enceta um diálogo íntimo com os produtos anónimos do consumo desenfreado, abraça as suas formas sem autor e partilha o seu destino desprezível e inglório.

No seu painel vídeo TU SEI LA NOTTE (2019), três perucas de cores diferentes realizam uma pole dance erótica e espasmódica sob uma luz estroboscópica. O filme insiste na textura das perucas e nos resíduos orgânicos sobre elas depositados, uma abordagem quase fetichista que pretende incutir a dúvida de que a hipertrofia das mercadorias talvez não ande ao par do empobrecimento da experiência sensível, mas, pelo contrário, talvez a amplifique e democratize. Como apontaram Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, o que define o atual capitalismo do hiperconsumo é uma espécie de criatividade transestética — que não é menos
cínica e agressiva do que aquela que caracterizava o primeiro capitalismo — que explora as dimensões estéticas e imaginárias em grande escala com o intuito de gerar lucro.

No entanto, ainda que Franceschini aceda aos objetos através da cultura capitalista, a sua mercadoria não é exibida de acordo com os atributos que o mercado lhe confere, ou respeitando o seu valor utilitário. De facto, eles são desfuncionalizados e o objetivo que lhes foi atribuído na sua produção massificada é contrariado. A artista parece sugerir que a vida das mercadorias não é limitada aos seus processos de produção, distribuição, troca e consumo, mas pode evoluir de formas imprevisíveis. Ela está convencida de que os objetos retêm outros espaços, histórias secretas e possibilidades que nós ignoramos. É precisamente esta terra de ninguém que acolhe a sua prática artística, é deste terrain vague que emerge a linguagem de Franceschini. Na verdade, a sua relação com os bens de consumo não é enganosa, mas sempre lúdica e erótica — e aqui podemos identificar tanto a matriz surrealista da sua prática como a influência do «cinema de atração». Desta forma, este registo é o cavalo de Troia que permite a Franceschini abordar o objeto de uma forma que transcende a teleologia modernista e do ecletismo pós-moderno: o casamento com a indústria massificada é a sua entrada lateral para o mundo misterioso das coisas. Nesta terra de ninguém, a artista anima e desencadeia uma crise de identidade no domínio dos bens de consumo, obrigados a viver numa forma que já não corresponde a uma função, com uma alma que já não possui uma correspondência física. Esta crise de identidade reverbera em TU SEI LA NOTTE — dentro e fora das imagens em movimento — e invade a decoração do ecrã que recebe o filme, onde três formas andróginas parecem imitar, sem sucesso, a dança das perucas. Os objetos de Franceschini já não cabem na nossa definição de objeto ou imagem, eles são objetos-exposição e imagens-exposição cuja condição é de eterno travestimento. Pausando para pensar sobre o assunto, podemos compreender
que esta é a condição do fantasma, mas também do ready-made RHODA DECHORUM, que, quase com orgulho, continua a rodar em frente aos nossos olhos como se nada tivesse acontecido.

Vincenzo Di Rosa
Maio, 2019