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O seguinte guia de exposições é uma perspectiva prévia compilada pela ARTECAPITAL, antecipando as mostras. Envie-nos informação (Press-Release e imagem) das próximas inaugurações. Seleccionamos três exposições periodicamente, divulgando-as junto dos nossos leitores.

 


MUSA PARADISIACA

The I of the Beeholder




FUNDAÇÃO CARMONA E COSTA
Rua Soeiro Pereira Gomes, Lote 1- 6º A e D, Edifício de Espanha (Bairro do Rego)
1600-196 LISBOA

25 JAN - 07 MAR 2020


Inauguração: Sábado, 25 de janeiro, a partir das 18h, na Fundação Carmona e Costa
De quarta a sábado das 15h às 20h (excepto feriados)



Musa paradisiaca: The I of the Beeholder
Exposição Individual com curadoria de Filipa Oliveira


Esta exposição nasceu do desafio de definir o papel do desenho na prática artística da Musa paradisíaca. Tinha a sensação que o desenho povoava todo o seu trabalho, em particular no pensamento sobre a obra. Juntos descobrimos que o desenho era estruturante na sua obra, mas nunca exposto enquanto tal.

Levaram o desafio a sério. E começaram a desenhar. Juntos, sempre a quatro mãos, sendo indistinguível o traço de cada. São desenhos que nos transportam para um universo infantil. Parecem doodles ou desenhos de crianças. Parecem um quase nada, são ‘parvos’ como lhes chamam, mas muito sérios. Carregam um peso enorme consigo. Um peso da história, da arte bruta por exemplo, mas o peso de um pensamento intricado que os sustenta.

A Musa nunca poderia fazer desenhos apenas. Todo a sua essência assenta na ideia de pluralidade. Assim, deram estes desenhos a uma atriz, a Charlote Allan (Lotte), para que os traduzisse e os interpretasse. Mais para que os incorporasse em si mesma. E é isso que faz, em quatro peças de som, Lotte começa por descrevê-los através de tentativas: isto parece aquilo, ou podia ser isto... vai devagarinho entrando em cada desenho, ficando mais próxima do seu significado, até que mergulha neles, transforma-se na sua voz. Já não é a Lotte quem nos fala, mas o próprio desenho através dela. Como se estivesse temporariamente possuída por cada desenho. Uma versão Poltergeist, mas em que o génio do mal é substituído por desenhos que finalmente encontraram uma voz que falasse por eles.

E com estas gravações, Musa paradisíaca volta à escultura. As quatro grandes peças são uma tentativa de traduzir as performances da Lotte (e dos desenhos através dela) em esculturas.

É a primeira vez que as esculturas são conjuntos de objetos sobrepostos. A qualidade mimética é cada vez mais forte, não por um desejo de copiar o original, mas antes para que tenham uma vida própria, verdadeira.

Na exposição, estas três dimensões dialogam entre si. Cada elemento, é um protagonista que tem uma voz própria, e juntos conversam. A exposição é assim, acima de tudo, um diálogo performático, uma energia e vibração contagiante entre os desenhos, as esculturas e a Voz.

Há ainda um outro elemento que subjaz a toda a construção da exposição. Em 2015, Musa paradisiaca recebeu uma carta de João Carlos Costa, um rapaz autista com 19 anos que acreditava que na forma colaborativa de trabalhar que define Musa paradisiaca poderia ser um veiculo para que a voz dele fosse representada no mundo.

A carta ficou guardada uns anos. Era um assunto delicado e difícil. Mas a relação entre Musa paradisiaca e João Carlos foi crescendo e solidificando. Tinham de facto um pensamento que os aproximava: a procura pela hipersensibilidade no mundo. Esta exposição é um momento dessa procura, desse caminho que fazem juntos.
Perguntei ao João Carlos o que era para ele a hipersensibilidade, ao que ele respondeu que “A hipersensibilidade é viver entre dois ou mais mundos. É doloroso e corta a profundeza das entranhas e é ver, sentir, cheirar e tocar o demais visível e invisível. O mundo visível está entregue aos adormecidos”.

Esta exposição é sobre esse mundo invisível, feito de vibrações, de toques, e dessa hipersensibilidade. Ela é para
os que estão vivos, vocês que leem este texto, mas também para os desenhos e as esculturas que vivem temporariamente nestas salas.

Filipa Oliveira


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Musa paradisiaca é um projecto artístico de Eduardo Guerra (Lisboa, 1986) e Miguel Ferrão (Lisboa, 1986). Tendo início em 2010, com a apresentação de um conjunto de ficheiros sonoros em www.musaparadisiaca.net, a prática de Musa paradisiaca tem vindo a pluralizar-se desde então. Em contexto discursivo, participativo ou expositivo, Musa paradisiaca pode ser definida pela produção de esculturas, filmes, desenhos e acções performativas, entre outras. Através do diálogo e dos benefícios da junção de perspectivas e competências distintas, Musa paradisiaca tem reunido diferentes entidades, praticantes, especialistas ou referências, sejam estes de cariz colectivo ou individual, com quem estabelece uma afinidade de pensamento que partilha e revela várias vozes. Entre as suas exposições individuais mais recentes destacam-se “Cavazaque Piu Piu” na Galeria Quadrado Azul, Porto (2019), “Curveball Memory” na Galeria Municipal do Porto (2018), “Man with really soft hands” na Galeria Múrias Centeno, Lisboa (2017) e Frieze, Londres (2017), “Masters of velocity” na Dan Gunn Gallery, Berlim (2016), “Alma-bluco” no CRAC Alsace, Altkirch (2015), “Audição das máquinas” na Kunsthalle Lissabon, Lisboa (2014) e “Audição das flores” na Galeria 3+1 Arte Contemporânea, Lisboa (2014). O seu trabalho tem sido apresentado em diferentes contextos, entre os quais Whitechapel Gallery, Londres (2019); MAAT – Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, Lisboa (2018); Haus der Kulturen der Welt, Berlim (2017); BoCA – Bienal das Artes Contemporâneas, Lisboa (2017); Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa (2017 e 2013); Centro Internacional das Artes José de Guimarães, Guimarães (2016); Museu de Arte Contemporânea de Serralves, Porto (2016 e 2015); Malmö Art Academy – Moderna Museet, Malmö (2015); Fondation d’Entreprise Ricard, Paris (2015); Palais de Tokyo, Paris (2013); Cinemateca Portuguesa, Lisboa (2013).

Musa paradisiaca foi finalista do Prémio Sonae Media Art (2015) e do Prémio EDP Novos Artistas (2013) e é representada pela Dan Gunn Gallery (Londres) e pela Galeria Quadrado Azul (Porto/Lisboa). A sua obra integra diversas colecções de arte contemporânea, entre as quais Colecção António Cachola; Colecção de Bruin-Heijn; Colecção Figueiredo Ribeiro; Colecção Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian; Colecção Norlinda e José Lima; Colecção de Serralves.