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O seguinte guia de exposições é uma perspectiva prévia compilada pela ARTECAPITAL, antecipando as mostras. Envie-nos informação (Press-Release e imagem) das próximas inaugurações. Seleccionamos três exposições periodicamente, divulgando-as junto dos nossos leitores.

 


PEDRO VALDEZ CARDOSO

177,26 Km




GALERIA SETE
Av. Dr. Elísio Moura 53
3030-183 COIMBRA

17 OUT - 28 NOV 2020


INAUGURAÇÃO: 17 de Outubro de 2020, 16h30 na Galeria SETE




177,26 Km
de Pedro Valdez Cardoso


Aqui há pouco mais de seis meses atrás perguntávamos se seria possível escrever sobre arte num momento como aquele que estávamos a viver. Neste presente, que não é assim tão diferente, mas já estamos mais adaptados, sabemos que não só é possível, como imprescindível. Estranha é esta situação de termos passado e de estarmos a passar por uma experiência coletiva, mas de formas muito diferentes, em termos práticos. Esta coletividade múltipla reflete-se na série BARRO, de Pedro Valdez Cardoso. Dezanove esculturas de pequena dimensão que têm por base, e em comum, ninhos para aves em madeira, espalham-se pela galeria, cada uma com as suas circunstâncias e identidade: tubos, correntes, atacadores, tijelas, bananas, pão, latas, ossos, copos, cintos, garrafas, canecas, pedaços de madeira, cartão, corda, tampas de frascos, fruta...lê-se como uma lista das compras. Algumas coisas são comuns a todos, ou quase, outras nem por isso. [i]

O que parece ser transversal a toda à série, a todas as esculturas, é uma certa sensação de desconforto. O que deveriam ser abrigos, em muitos casos são longe disso, perderam completamente a sua função, e até passaram à abstração. Muitos dos buracos de entrada foram parcialmente ou completamente cobertos, e agora não sabemos se já não se pode entrar ou se alguém ou alguma coisa lá dentro já não consegue sair.

Porém, entre todo este desconforto e esta instabilidade ainda se podem vislumbrar momentos de intimidade e esmero: duplos; inserções; indícios que uma boca passou por cá, trincou aqui, chupou alí; objetos usados para cuidar, do outro, dum animal, de si próprio; objetos para salvaguardar, segurar, apertar.

Estes elementos de delicadeza entre a precariedade e o desperdício dialogam na exposição com DRY, uma outra escultura, maior, que simula uma planta seca, fantasmática e melancólica, com vestígios da presença humana na Terra, numa garrafa de plástico vazia, numa galocha de borracha, e num osso (duma perna ou dum braço, talvez). Alguns dos elementos e dos símbolos repetem-se, mas esta representação já é mais violenta.

Como no caso da série BARRO, em que o que era suposto ser uma toca para um animal distanciou-se radicalmente desse propósito, todas as partes de DRY apontam para uma natureza longínqua. A planta sintética imita uma variedade das que se encontram muito em ambientes domésticos urbanos e que lembram plantas tropicais, quando hoje em dia poucos de nós vive em contacto direto com a verdadeira natureza, selvagem; a garrafa de água vazia também reflete a ubiquidade do plástico e o facto que o nosso acesso a um dos elementos mais básicos e mais fundamentais à vida é feito sempre de forma mediada, e não diretamente à fonte (a ironia de utilizar uma garrafa de plástico para simbolizar a seca); a galocha é o calçado dos agricultores e de alguns aventureiros, e, literalmente, uma pegada, que nos lembra também que a maior parte da natureza que agora nos circunda foi, de alguma forma, influenciada pelo humano, o osso agarrado ao galho da planta funcionando como um enxerto, para este mundo que criámos.

A presença humana está em toda a parte nesta exposição, no seu pior e melhor. Em DRY a sensualidade e emoção que sempre se encontram no trabalho de Valdez Cardoso toma uma forma radical, uma espécie de ecossexualidade e uma ecophilia, um amor à natureza e um forte desejo de verdadeiramente voltar a juntar-se a ela: nesta obra, os elementos “naturais” e os vestígios humanos de alguma forma inserem-se uns nos outros, passando a fazer parte de um todo.

Nas palavras do artista, DRY “vive desta ideia maior de que tudo o que existe no mundo, visível e invisível, necessita de ser “alimentado”’. Mas há sinais de alimentação por toda a parte nesta exposição, portanto o que é que correu mal? A dieta não era equilibrada? Tivemos mais olhos que barriga? Ou, simplesmente, quisemos sempre mais? De facto, parece que esta ecossexualidade foi consumada e já está gasta - porque tão forte e tão desejosa de devir pela dominação -, e que, com esta naturofagia irreprimível, acabámos por comer tudo à nossa volta, ficando até sem abrigo.

Eva Oddo
Lisboa 29.09.20



[i] Como escreve o autor: “Esta adição de elementos acaba por anular a forma original dos ninhos, convertendo-os numa espécie de maquetas de arquitectura precária nalguns casos, e em objetos de maior abstração noutros, numa imagética de quase máscaras. Por outro lado, há igualmente alusão a uma arquitectura popular e de carácter ilegal, onde se criam estruturas de abrigo desprovidas de qualquer intenção para além dessa mesma - a de se constituirem como lugares de proteção face ao exterior. O material que reveste essas esculturas não é barro, mas sim silicone líquida usada em construção civil para revestimento de pisos e de telhados. Contudo o simulacro retinal é bastante convincente e alude de forma alegórica à própria ideia de criação da origem do Homem.”