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O seguinte guia de exposições é uma perspectiva prévia compilada pela ARTECAPITAL, antecipando as mostras. Envie-nos informação (Press-Release e imagem) das próximas inaugurações. Seleccionamos três exposições periodicamente, divulgando-as junto dos nossos leitores.

 


PEDRO VALDEZ CARDOSO

LUVAS BRANCAS




GALERIA FERNANDO SANTOS (PORTO)
Rua Miguel Bombarda, 526/536
4050-379 PORTO

15 JAN - 12 MAR 2022


Inauguração: 15 Janeiro, 16h, na Galeria Fernando Santos



LUVAS BRANCAS
de Pedro Valdez Cardoso

15.01. - 12.03.2022


Depois de expor em 2018 naquele espaço, Pedro Valdez Cardoso regressa à Galeria Fernando Santos com uma nova exposição que “embora não deva ser entendida como uma exposição antológica, é, contudo, uma exposição que integra obras que vão de 2003 a 2021 – a maior parte inéditas ou nunca antes expostas, mesmo as mais antigas – e que recorda as grandes temáticas e problemáticas que Valdez Cardoso tem vindo a trabalhar ao longo de duas décadas de trabalho: os antagonismos levantados pela estória, mas também a encenação e a cenografia, o corpo, a opulência grotesca, o romantismo neogótico, o dúplice, o original e o humor."


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Houve, em tempos, uma história que virou estória com a duplicidade da emoção e do assombro. Só a imagem base resta, como um facto vivido em criança, que sobrevive apenas nos contornos mais espetaculares. Os factos, que não são assim tão importantes para este caso, perderam-se. Na arte, os factos são secundários, mesmo quando falam da verdade. Como na poesia, finge-se.

É uma estória aflitiva. Não tanto pelas vítimas, mas pelo ultraje antropocêntrico que lhe subjaz e que tudo verga a seus desígnios: a Humanidade no topo darwinista, sempre; a Natureza, os animais, nos últimos patamares – criaturas utilitárias, servis, úteis para atenderem às nossas frustrações, infelicidades e infortúnios. É uma estória, dizia-se, sobre um cavalo, que irrompe pelas labaredas de um grande fogo, com a pelagem e a crina em chamas, negro de fuligem, e a pele coberta de pústulas do calor dantesco. As chamas bruxuleavam na íris negra do olhar ferido. Ao longe, depois de um galope aturdido, ecoava o relinchar dos congéneres que se deixaram morrer nos estábulos, o crepitar das labaredas, a madeira velha e seca a estalar, a construção a ruir.

Só ele teve a audácia de fugir. Só ele rompeu com os anos consecutivos de adestramento. Dócil, servil, autonomizou-se, individualizou-se sem esperar pelo dono. Puro sangue lusitano.

Os restantes não tiveram o mesmo ímpeto – aquele ímpeto primitivo, selvagem, que põe o instinto à frente da razão alheia e clama por liberdade, libertação. Esperaram pelo amo que os salvasse e não conseguiram interpretar a linguagem do fogo e o comando das chamas. O comportamento estava agrilhoado, dividido entre o que queriam fazer e o que deviam fazer.

O cavalo troteou desassossegadamente noite afora, macerado de cansaço, mas certo, no seu cérebro e consciência animais, que tinha ousado a liberdade, atravessado o fogo, ultrapassado as sevícias da arte equestre e do tratamento militar – Equus renascentis. Para trás ficaram os arneses, as selas, as luvas brancas dos cavaleiros, agora negras de fuligem.

(José Pardal Pina, Dezembro 2021)