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O seguinte guia de exposições é uma perspectiva prévia compilada pela ARTECAPITAL, antecipando as mostras. Envie-nos informação (Press-Release e imagem) das próximas inaugurações. Seleccionamos três exposições periodicamente, divulgando-as junto dos nossos leitores.

 


LUÍSA FERREIRA

LORETO




M|I|MO - MUSEU DA IMAGEM EM MOVIMENTO
Largo de São Pedro


08 DEZ - 31 MAR 2024


INAUGURAÇÃO: 8 de Dezembro às 16h00 na m|i|mo – museu da imagem em movimento, Leiria


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Loreto. Cidade. Loreto do mundo.

A exposição “Loreto” propõe-nos uma miríade de olhares que circulam por dentro e por fora da cidade de Lisboa onde esta rua se situa. Estes olhares são como vestígios de pessoas que ali chegaram, viveram e num dado momento partiram sem destino e sem caminho. São como uma memória que se presentifica, parecendo materializar-se numa espessura profunda que a luminosidade de cada fotografia vai revelando e ao mesmo tempo subtraindo ao nosso olhar, e assim à construção transitória do nosso imaginário. Mas Luísa Ferreira não se detém apenas no registo fotográfico e percorre um itinerário visual e plástico que transforma a exposição numa obra única, por um lado fragmentada no espaço do observador, mas por outro coesa e densa como um corpo que se vai revelando. Assim, esta obra é uma instalação intitulada por uma só palavra, “Loreto”, que unifica todos os meios, objectos e significações que a constituem, sejam estes fotografias, emolduradas de forma diversa, o som da vida urbana que se transforma em cada noite e que nos devolve uma ambiência do espaço público, e os objectos de uso doméstico, alguns utilitários e outros decorativos, que nos revelam uma intimidade que noutro tempo pertenceu ao espaço da vida privada.
No trabalho da artista, a cidade e os seus habitantes, os seus hábitos e costumes, o universo do trabalho, a arquitectura, a casa ou a paisagem são temas recorrentes de investigação e de questionamento. Estes temas constituem a sua obra em diversas séries sob uma forte consciência social e política que nos leva a reflectir sobre modelos económicos e de organização da cidade enquanto modelo civilizacional colectivo. Contudo, “Loreto” apresenta-se perante nós a partir de um plano auto-referencial, da vida familiar, dos laços afectivos que se geram na experiência do lugar, da partilha da vizinhança e do tempo enquanto estratificação da memória da vivência e, deste modo, da construção da identidade, mas também da sua perda. Neste aspecto, a artista desenvolve em cada uma das fotografias micro-narrativas de que não conhecemos nenhum desfecho, sendo por isso um trabalho que cruza a ficção com o documentário, sem esquecer uma poeisis que não estetiza nem diminui o impacto dos espaços vazios, por vezes desnudados da presença humana, disponíveis, porque foram sujeitos à transmutação da cidade em lugar de passagem e não de residência. Duas fotografias são exemplares deste contexto paradoxal, e rementem-nos para um tempo não cronometrado e entrecortado. A primeira que refiro é um canto de uma sala vazia, onde um cabo suspenso e diversas tomadas na parede, sobre um painel de azulejos, revelam a ausência da vida doméstica, assente numa parafernália de aparelhos que nos emprestam a comodidade, mas também o afã da urgência dos dias. A segunda fotografia situa-nos na parede oposta à primeira: o painel de azulejos mostra-nos o seu esplendor iluminado pela luz que desenha a cidade, e as paredes revelam-se então como guardadoras de memórias na geometria abandonada dos quadros e dos objectos que marcaram vivências e cumplicidades. “Loreto” é, deste modo, um itinerário de memórias diversas num contexto de proximidade, onde todos os micro-acontecimentos registados são o resultado de um processo cumulativo de transições irregulares. E, tal como a artista escreveu num texto biográfico, que acompanha esta publicação e tem a sua primeira referência à cidade de Paris no testemunho de um amigo que nos situa entre a década de 1980 e os dias infindáveis do confinamento, da gentrificação e do capital sem rosto, aproximando-nos assim de um Loreto do mundo, globalizado, porventura cosmopolita, mas irreversivelmente desterritorializado.
Uma das últimas fotografias transporta-nos para uma composição equilibrada, cujo punctum é uma luminosa florescência de cor verde no interior de uma escada que se desenvolve em diferentes planos dos pisos de um prédio. Só um olhar atento poderá apreender a totalidade dos acontecimentos que ali ocorrem: os sacos atirados à porta, as revistas amontoadas sobre um pequeno móvel, entre a chegada ou a partida, entre a desolação e a planta verde que deambula na luz interior daquele prédio e onde descobrimos um corpo que parece deter-se na sua marcha sem destino. “Loreto” põe-nos perante um paradoxo, entre as memórias vividas e esses olhares múltiplos e anónimos de uma cidade que se transmuta e se reconfigura num outro tempo. E é sobre o tempo que vivemos, e como o vivemos, que este projecto se revela.

Texto de João Silvério


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Luísa Ferreira (Lisboa, 1961) Fotógrafa independente, Mestre em Design e Cultura Visual – Estudos de Fotografia, pela ESD/IADE-U (Lisboa, 2011). Começou a fotografar em meados dos anos 1980. Integrou a equipa de jornalistas fundadores do jornal PÚBLICO em Dezembro 1989, fotografou para a agência de notícias norte americana Associated Press (1986-1998). Recebeu o Prémio Autores 2019, Artes Visuais, Melhor Trabalho de Fotografia pela sua exposição branco, na Galeria Monumental (2018). O seu último livro publicado, resultado de uma encomenda, “A Ciência Cura: o conhecimento no combate ao COVID19 em Portugal (Março-Junho 2020. Prepara doutoramento na FCSH, Universidade Nova de Lisboa.
A Cidade e os seus habitantes são temas centrais do seu trabalho em que reflete uma consciência social e política sobre a actualidade.