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SNAPSHOT. NO ATELIER DE...




Estúdio de Produção – Pedra no Rim. © Rudi Navarro, 2022.


Estúdio de Produção – Pedra no Rim. © Rudi Navarro, 2022.


Forno do Estúdio – Pedra no Rim. © Rudi Navarro, 2022.


Fabrizio Matos. © Rudi Navarro, 2022.


Israel Pimenta © Rudi Navarro, 2022.


Sapatilha – Pedra no Rim. © Rudi Navarro, 2022.


Cuecas de Prostituta – Pedra no Rim. © Rudi Navarro, 2022.


Sapo Esmagado – Pedra no Rim. © Rudi Navarro, 2022.


Vista Triste – Pedra no Rim. © Rudi Navarro, 2022.


Polvo – Pedra no Rim. © Rudi Navarro, 2022.


Luva de obras – Pedra no Rim. © Rudi Navarro, 2022.


Criaturas de Deus – Pedra no Rim. © Rudi Navarro, 2022.


Mostruário do Estúdio – Pedra no Rim. © Rudi Navarro, 2022.

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COLETIVO ARTÍSTICO PEDRA NO RIM

PEDRO DA SILVA


15/02/2023 

 

 

O coletivo artístico Pedra no Rim, criado por Fabrizio Matos e Israel Pimenta, foi fundado com o objetivo de criar objetos cerâmicos a partir de despojos contemporâneos e característicos da cidade do Porto. Os Pedra no Rim exploram a fronteira entre o belo e o grotesco, entre a vida e a morte, através de objetos em cerâmica artesanal (edições limitadas). A produção cerâmica dos despojos da cidade do Porto questiona, entre outras coisas, o que se mantém ou se perde de original ou identitário no bairro do Bonfim, da comunidade local e suas culturas. Camélias, lingerie, perucas, fanecas, gaivotas, sacos, sapatos, varejas, rebuçados, polvo, sapatilhas, pombas esventradas. Em ofício e a partir de artefactos vários, os artistas desenham um mapa que questiona os bonfinenses e todos os outros que passam pelo seu estúdio. Questionam-se a si mesmos e as estruturas políticas e socioculturais locais. O seu trabalho foi ainda alvo de especulação arqueológica pela prática curatorial em Arte|Arqueologia, no âmbito do projeto de investigação "Arqueologias da Presença" financiado por Bolsa FCT UI/BD/151198/2021.


Por Pedro da Silva

 

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Pedro da Silva: Como é que surge este coletivo? O que moveu os artistas pelo sonho de gerar os Pedra no Rim?

Israel Pimenta: Isto começou numa altura em que eu estava no chipre e, à distância, conversei com o Fabrizio sobre a possibilidade de fazermos algo que se relacionasse com o bairro do Bonfim, no Porto...

Fabrizio Matos: Eu e o Israel já tínhamos feito várias coisas juntos desde os finais dos anos de 1990 - pequenas exposições e intervenções. A primeira conversa sobre os Pedra no Rim surgiu em 2016 na Rua Formosa, num café, antes de o Israel ir para fora do país. Entretanto já fui sozinho ver um primeiro espaço para trabalharmos, na Rua de São Vítor. Em 2017, a nossa primeira ideia foi considerada sem pensar na cerâmica, mas antes no papel - algo que envolvesse desenho, envolvendo curadores para organizar eventos diferentes. Era fazer algo que estivesse ligado com o bairro do Bonfim, ainda que conceptualmente diferente daquilo que de facto somos. Percebemos rapidamente que seria uma logística demasiado pesada e que corríamos o risco de entrar num campo de comissariado que não nos atraía.

Israel Pimenta: A cerâmica surge em 2018 com a ideia primária de pegarmos em objetos grotescos ou decadentes para torná-los em algo glamouroso, pensando no vidrado enquanto elemento de decoração, mas sem termos ideia do que nos estaríamos a meter, porque não tínhamos qualquer conhecimento sobre produção cerâmica. Era a ideia de termos uma fricção entre o que está representado e a sua representação que nos atraía. Assim surgiu a possibilidade de podermos materializar coisas, objetos grotescos e brutos de alguma maneira pela porcelana, fina e frágil, pintada e decorada.

Fabrizio Matos: Nós passamos uma fase de debate sobre o que era o Coletivo Pedra no Rim: falávamos na ideia de sermos uma marca de cerâmica, mas que não obedeceria aos parâmetros de objeto cerâmico. Ou seja, havia uma base conceptual que transformava os Pedra no Rim num projeto artístico, mas nunca nos preocupamos em nos encaixar num ou noutro - nem ser marca, nem ser coletivo artístico.

Israel Pimenta: Ao começarmos, e após algumas tentativas, percebemos logo que as primeiras peças foram feitas de forma escultórica - com estrutura de arame, revestida com barro e enchimentos, como se fossem, de facto, esculturas. Foi algo natural, porque o Fabrizio tinha um mestrado em escultura e estava muito familiarizado com essa prática. Achávamos nós que estávamos a produzir cerâmica até termos levado essas primeiras experiências ao forno: o resultado foi uma motivação ainda maior por percebermos o desafio que isto ia ser para nós. Não era assim que se produziam as cerâmicas! Poderia ter sido mais fácil aprofundar o conhecimento a partir de cursos mais profissionais, mas aceitamos o desconhecido para aprender com a tentativa-erro. Reconhecemos que a porcelana estaria fora de questão e, antes de chegarmos aos nossos objetos finais, percebemos que haveria a hipótese de fazê-los de forma escultórica a partir de moldes. Mas também não sabíamos como fazer moldes! Foi aí que decidimos procurar o Hernâni Miranda, que é escultor e tem uma habilidade incrível para fazê-los. Falamos com ele há 5 anos atrás, quando não existia ainda este boom de produções cerâmicas e de olaria, pelo que este ficou entusiasmado com a originalidade da ideia. Começamos a produzir numa antiga garagem de automóveis que não tinha grandes condições, porque chovia lá dentro e era um ambiente muito húmido. A nossa ideia de então seria modelar como se fosse escultura, fazer os moldes de gesso e passá-los para cerâmica. Nessa altura tentávamos ainda a procurar encontrar uma linguagem para essas primeiras produções que pensávamos vir a serem de porcelana, definindo temas ou reinos próprios, tais como "Animalia" e "Vegetália", onde se enquadravam as peças de animais ou de plantas. O Fabrizio começou a aperfeiçoar a sua técnica da modelação fora da escultura, já pensando na cerâmica, o que nos fez perceber que se calhar os moldes não seriam um elemento fulcral na produção, mas sim um apoio.

Fabrizio Matos: No caso da pomba enquanto peça, a base e o apoio dessa obra é feita a partir do molde, mas tudo o resto é trabalho manual a partir da cerâmica: é esse o interesse estético do trabalho que não é estandardizado. Em suma, a própria definição estética dos Pedra no Rim foi, por si, muito orgânica. Tivemos peças que fizemos no início, que dissemos "não" e que findos alguns meses, voltamos a olhar e a pensar "afinal isto encaixa".

Israel Pimenta: Foi um processo reflexivo do próprio Coletivo. Entretanto o Hernâni teve que sair, mas também já tínhamos todos percebido que não estaríamos tão dependentes dos moldes e que deveríamos apostar em peças únicas e limitadas. Entretanto também nos surgiu a ambição de termos peças de maior escala. Grandes composições, como cães ou outras coisas.

Fabrizio Matos: Sim, é isso mesmo, ainda que nós quiséssemos usar um cão de um morador do bairro que tinha apenas 3 patas. No entanto, o animal morreu e só ficamos com a modelação da cabeça. O problema é que teríamos de levar este tipo de peças ao forno por partes, para depois fazer as montagens, o que nos fez perceber que se calhar não seria bem esse o caminho. Talvez consigamos usar um cão Chihuahua, ainda não sabemos bem.

Israel Pimenta: Foi nessa altura que surgiu o João, que tinha feito olaria quando era novo e tinha um know-how de moldes e conhecimento sobre embalagens por ser designer de produto. Esteve connosco até muito recentemente.

 

Pedro da Silva: Numa perspetiva arqueológica, importa a visão do coletivo sobre o bairro do Bonfim, as suas gentes e as transformações ao longo do tempo que são identificáveis pelo lixo que vai sendo deixado e esquecido no espaço e tempo. Que vestígios arqueológicos ficaram esquecidos? Quais foram aqueles que os PR recuperaram na própria memória?

Fabrizio Matos: Nós estamos aqui no bairro desde os anos 90. Conhecemo-nos na antiga Escola Secundária de Soares dos Reis no Bonfim, depois nas Belas Artes onde continuamos a ser colegas. Ou seja, assistimos às transformações e isso é muito importante no projeto. Aliás, até os cruzamentos com a história da arte tem sempre que ver com a ideia de tempo vida-morte e julgo que nos faltou fotografar muita coisa que já não existe desde o ano 2000. Especialmente a nível arquitetónico e urbanístico. Tenho uma colega italiana que está cá a viver há 5 anos e ela própria diz que está a sentir uma perda de identidade do Bonfim. A nível arquitetónico reconhece-se uma uniformização europeia: como se estar no Porto é como estar em Estocolmo. Relativamente aos despojos, eu considero a cidade do Porto muito suja, com muitos despojos na zona pública. Como Nápoles, o lixo faz parte da cidade.

Israel Pimenta: Esses despojos são uma característica da cidade, ao contrário das cidades nórdicas que, quando um papel cai ao chão, isso vai sobressair porque está tudo limpo. Aqui é o oposto, o que sobressai é quando uma rua está limpa. Há sempre pequenos detritos que parecem perdurar, às vezes de um dia para o outro. Se nós registamos alguns despojos por fotografia, outros nós vamos recuperar, como a cabeça de porco - é um resgate de memória. As cabeças de porcos eram muito ostensivas nos talhos que existiam na Avenida Rodrigues de Freitas. Para nós é um lixo resgatado à memória.

 

Pedro da Silva: Há algo de melancólico na vossa produção cerâmica. Será esta uma característica expressiva da vossa própria visão sobre o que é uma cidade, ou da cidade do Porto em específico? Ou será um resultado da própria linha de tempo do passado que o deixou de ser, deixando para trás vestígios de uma memória que se vai tornando ruína?

Fabrizio Matos: Há melancolia...

Israel Pimenta: Mesmo os nossos trabalhos mais pessoais andam à volta de coisas como a morte, a ruína, a perda ou a ausência. É, simultaneamente, um reflexo de nós próprios, e a cidade e o bairro têm isso. Se pensarmos através da memória desde os anos 90, há mesmo uma melancolia associada. Os tascos que desapareceram, as personagens que deixaram de existir…

Fabrizio Matos: É como dissecar comportamentos e maneiras de ser na cidade…

 

Pedro da Silva: Cada vez mais a arqueologia serve uma nova geração de investigadores que procura questionar as estruturas de poder, assim como a institucionalização dos sítios arqueológicos e seus artefactos. Os PR tiveram uma participação na Escola dos Confins e Nenhures (Teatro Municipal do Porto). Dessa participação resultou um "Mapa dos Despojos" que questiona, por si, estruturas políticas e socioculturais. Conseguem definir que estruturas são essas? Questiono-me, ainda, se esse Mapa expõe os vossos próprios receios enquanto agentes da cultura...

Israel Pimenta: É um questionamento que se faz a nível geográfico. Percebemos que conseguimos identificar tipologias de despojos numa ou outra zona diferente do bairro. Mais próximo de São Lázaro ou mais próximo de Velasquez ou de Campanhã ou de Santa Catarina. Tanto que, a sapatilha, mais ligada ao consumo, aparece-nos num lado mais comercial do bairro. As cuecas são identificáveis na Rua da Alegria, que é uma zona de prostituição há mais de cem anos. No entanto, sentimos que estas diferenças estão a diluir, dando-nos o desejo de cristalizar essas identidades. Há esse questionamento político e da malha social. Quanto às estruturas que questionamos, obviamente passará muito pelo município, ou quem dirige o município. Do ponto de vista urbanístico é o município que faz essa gestão e interferência. A título de exemplo, a Avenida Rodrigues de Freitas de repente ficou mais trendy e isso teve que ver com a ideia de se fechar a rua, a eliminação de pontos de arquitetura que questionavam de forma crítica a vivência da urbe. Houve uma anulação desse objeto ou a destruição daquele quiosque. Podiam ser estruturas sem interesse arquitetónico, mas tinham interesse social. Há uma limpeza que leva à uniformização com outras cidades europeias.

Fabrizio Matos: Há perda e morte que leva à melancolia. Enquanto estudantes nos anos 90, nós frequentávamos tascas que, hoje em dia, já não existem. Essas tascas eram povoadas por imensa gente heterogénea e, de repente, essas pessoas desapareceram. Questionamos se elas saíram da cidade ou se mudaram a sua forma de viver. Outro exemplo é o Café de São Lázaro, icónico nos anos 60 e 70, que se destrói e dá lugar ao Café das Belas Artes nos anos 90, mas que desapareceu. O princípio desta ruína, parece, é um princípio da transformação da arquitetura de interiores.

Israel Pimenta: Sim, houve uma fase dos pladurs e dos néons, e de repente todos os cafés foram lavados por essa moda. O mobiliário desapareceu, a organização do espaço desapareceu. De repente ao transformarem esses espaços, transformaram-se também as vivências desses espaços. Foi uma espécie de lavagem, porque tudo ficou branco.

Fabrizio Matos: A dada altura nós ponderamos explorar o conceito de anti-souvenir, numa época em que tudo estava a ser consumido pelo turismo. Então em vez de tu comprares algo que gostas muito e que te faça lembrar a cidade, compras algo que é o oposto a isso: como uma pomba morta.

 

Pedro da Silva: Ainda sobre o vosso Mapa, conseguem definir que artefactos de memória da cidade poderão ser encontrados pela arte dos PR? Que ontologias nos reservam?

Israel Pimenta: Para nós há vários artefactos no Bonfim e as nossas peças são todas elas um tesouro para nós, por serem fruto de uma relação pessoal e íntima. Dando exemplo da peça do Croissant, nós tínhamos uma relação muito próxima aos croissants da Confeitaria Chicana ou da Pastelaria Vale Doce. Mais, não temos o pensamento pragmático de termos de fazer um determinado número de peças. É algo mais orgânico e sensível, manifestando-se numa produção exclusiva. Ou seja, parte sempre de uma afinidade e relação metafísica que temos com esse registo do bairro e que nos dá o desejo de materializar em cerâmica: seja um tema ou um objeto.

Fabrizio Matos: Por vezes, há coisas que surgem e aí questionamos se faz sentido para o projeto. Se formos ver os nossos cadernos de apontamentos, temos uma lista enorme de peças que podemos vir a fazer. No entanto, como são "coisas" que carregam sempre uma afinidade ou inquietação, também por vezes acabam por esmorecer ao longo do tempo. Haverá um tempo certo para cada uma delas.

 

Pedro da Silva: Como uma memória que é coletiva, mas com múltiplas traduções, todos os vossos artefactos podem ser alvo de diferentes histórias por quem os vê e interpreta. Foram já surpreendidos por alguma interpretação ou manifestação que não estariam à espera?

Israel Pimenta: Podemos dar o exemplo do sapo esmagado, que já existia e pertencia ao reino da “Animália”, ou seja, do conjunto de animais mortos no Bonfim. Nessa altura Portugal ainda era dos poucos países na Europa sem grandes expressões político-partidárias de extrema direita. Nas últimas eleições, porém, percebemos que o Bonfim contou com 789 votantes num partido de ideologia neonazi. Achamos nós que podia ser boa altura para pôr na discussão o porquê de isso estar a acontecer, ou que afinal ainda há tanta gente que se enquadra nessa visão política. Aproveitamos o facto de haver uma tradição dos espaços comerciais no Bonfim usarem sapos de cerâmica à entrada, e que à primeira vista poderá ser algo insignificante, mas que afinal pode haver quem se identifique com aquilo. Como o nosso sapo era um animal esmagado, pensamos em usá-lo como metáfora sobre o esmagar esse movimento racista e, ao mesmo tempo, esmagar esses sapos cerâmicos à entrada de estabelecimentos.

Fabrizio Matos: Houve duas leituras díspares à peça do sapo antirracista. Uma por ser um animal esmagado - claramente uma preocupação ecológica e a manifestação foi nesse sentido. Outra foi que, sendo esmagado ou não, seria sempre um animal maldito para a cultura cigana e que estaríamos a perpetuar o que tentamos combater. Seja como for, para nós, foi uma reação à notícia de sabermos que aqui no bairro houve 789 eleitores de extrema-direita. Pretendemos, acima de tudo, entender também o que os leva a pensar ou agir de uma determinada maneira. Não procurando a rutura, questionamos.

Israel Pimenta: Por exemplo, nos anos 90, no café Cabo Verde, haviam alguns velhotes que ficavam ao balcão e entre eles, alguns, faziam-nos pensar se seriam fascistas e racistas pelo tipo de conversas que tinham. Sabíamos que, ao tocar num tema tão sensível, podíamos gerar fricção. Num mundo em que tudo parece ser cada vez mais preto e branco, os Pedra no Rim movem-se pelo cinzento, questionando mais do que pretendem afirmar. No fundo, relembramos que não basta beber água, que poder-se-á ter na mesma a pedrinha no rim. (risos)

 

Pedro da Silva: O que dizem estes vossos olhos de cerâmica?

Israel Pimenta: Estes olhos são a nossa Vista Triste. Há uma relação com a iconografia, a arte, com a Santa Luzia e o milagre de curar a cegueira. Questionamos se este abandono causa toda aquela melancolia será fruto de alguma cegueira, enquanto deixarmos de ver - ou porque são limpas, ou porque desaparecem ou porque apodrecem. É essa passagem para uma invisibilidade

 

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Pedro da Silva
Estudante de Doutoramento em Arqueologia pela Faculdade de Letras Universidade de Coimbra com Bolsa FCT (UI/BD/151198/2021). É Investigador Integrado no Centro de Estudos de Arqueologia, Artes e Ciências do Património (CEAACP). Licenciado e Mestre em Arqueologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Colaborou com os serviços administrativos da Fundação de Serralves e teve apoio de diversas instituições para desenvolver os seus projetos e investigação, tais como a Universidade da Basileia, o Instituto Arqueológico Alemão de Madrid e a C. M. de Santa Maria da Feira. Conta com trabalhos e publicações no âmbito do desenvolvimento de novos mecanismos de transmissão de conteúdo histórico e científico para o público geral, desenvolvimento de modelos interpretativos e instalações artísticas para exposição do conhecimento arqueológico. + info

 

 

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Estúdio Pedra no Rim
Rua Duque de Saldanha, 449, Bonfim
Porto, Portugal