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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista de exposição, "This is a Bar… ou Praia de Banhos – Joaquim Bravo, Turismo e o Algarve", 2022; Galerias Municipais - Pavilhão Branco; © João Neves


Vista de exposição, "This is a Bar… ou Praia de Banhos – Joaquim Bravo, Turismo e o Algarve", 2022; Galerias Municipais - Pavilhão Branco; © João Neves


Vista de exposição, "This is a Bar… ou Praia de Banhos – Joaquim Bravo, Turismo e o Algarve", 2022; Galerias Municipais - Pavilhão Branco; © João Neves


Brana, S/ Título (Marinas), 1970-80. Aguarela, Tinta-da-china e pastel de óleo s/papel. Cortesia Maria de Lurdes Cunha

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ARQUIVO:


COLECTIVA

THIS IS A BAR… OU PRAIA DE BANHOS – JOAQUIM BRAVO, TURISMO E O ALGARVE




GALERIAS MUNICIPAIS - PAVILHÃO BRANCO
Campo Grande, 245
1700-091 Lisboa

14 ABR - 21 AGO 2022


 

 

Há pessoas que, ao tomarem café, optam por um copo gelado. Outras ainda, por beberem o chá frio. Encontra-se prazer numa união de opostos, ainda que signifique a anulação da característica de uma substância essencial ao seu fundamento. Cria-se um objeto híbrido: quente e frio. Como sair do mar e estender-se na toalha. Como o clima que age sobre o território do Algarve, tornando-o uma geografia momentaneamente atractora, para momentos depois o devolver ao esquecimento. O que é que lhe resta?

This is a Bar… Ou Praia de Banhos – Joaquim Bravo, Turismo e o Algarve, como o nome indica trabalha, fundamentalmente, sobre as obras e o legado artístico de Joaquim Bravo, principalmente sobre o período em que residiu em Lagos, a partir de 1966. Quente e frio é provavelmente a melhor forma de a descrever: enquanto por um lado vemos obras de beleza inegável, imediata, sejam as instalações quase land art de Vera Gonçalves ou as evocações nostálgicas de um presente algarvio, ainda suspenso num tempo perdido, de que são exemplo a Mirror Ball de Patrícia Almeida ou os azulejos de Jorge Mealha, observamos simultaneamente um lado deslocado, que é assinalado pela prática curatorial de Diogo Pinto, intervindo diretamente na exposição: por exemplo, na segunda sala do piso térreo, o espaço dispõe-se como um bar vazio, onde doentias luzes esverdeadas e apenas alguns pobres elementos dispersos figuram a sua forma, tornando-o sempre distante, morto – talvez, como as obras que expondo-se ali padecem inevitavelmente, como a memória de Joaquim Bravo, como a distância que demoraríamos daqui até ao Algarve. De quanto em quanto tempo ouve-se, saindo da sala, música que dá cor à exposição, tornando-a num espaço evocativo – Penina de Jota Herre, uma canção que, segundo uma história quase mítica, terá sido oferecida à banda de bar do Hotel Penina em Alvor, por Paul Mccartney quando lá esteve alojado. O pop fácil, suave, adorna o espaço petrificado como um perfume, ecoando um passado que nos recentra e faz contemplar. Joaquim Bravo terá trabalho neste hotel quando foi para Lagos: é interessante como os pequenos atos da exposição, aparentemente inocentes, nos dão sempre pistas para qualquer coisa, referências de um mundo bem fechado, porosamente controlado, mais do que aparenta.

A evocação do Algarve não é, no entanto, praticada só a um nível estético, imersivo (ainda que provavelmente seja nesta dimensão que reside a sua maior riqueza), mas também abordada social e politicamente, camada fundamental à compreensão destes constantes diálogos e contradições, este quente e frio.

Expõe-se, no primeiro piso, o documentário de António da Cunha Telles, Continuar a Viver ou Os Índios da Meia Praia, onde se mostra, após a revolução do 25 de abril, a construção de habitações de pedra para a comunidade piscatória da Meia Praia (terá sido para este documentário que José Afonso compôs a afamada “Os Índios da Meia Praia”), projeto que terá sido também documentado por Bravo numa série de fotografias dispostas, numa das vitrines do primeiro piso da exposição. É de destacar ainda a série Portobello de Patrícia Almeida dividida em várias secções: por um lado estandartes evocando imagens-chave do contexto algarvio: estâncias turísticas idílicas, familiares, inscritas em redor de um terreno abandonado e desértico; praias cheias, compreendidas por habitações luxuosas que já se situam no limite da areia; ou uma série de fotografias, transmitidas num projetor antigo (cujo ruído constante nos lembra, delicadamente, o som das cigarras no verão) mostrando-nos terrenos abandonados, áridos, resíduos perdidos como vestígios do que poderiam ter sido edifícios.

É neste piso que, através de documentação exposta, também nos detemos conscientes do papel dos artistas que aqui vemos: a influência da obra de Bravo para com os outros objetos expostos não se verifica apenas a um nível formal ou temático, os artistas cujo trabalho vemos compreenderam toda uma geração que trabalhou e se alimentou mutuamente, pelo menos durante parte das suas vidas, no Algarve. Disso é exemplo Zé Ventura, José Miranda Justo, Joaquim Bravo ou João Cutileiro (de que se expõe uma réplica do seu conhecido Dom Sebastião que estará colocado na Praça Gil Eanes em Lagos, não esquecendo, portanto, a carga mitológica também associada a este território, e as suas repercussões coloniais), mas também Xana (entre outros), mostrando-se a instalação Areia Para os Olhos, uma quase muralha composta por baldes de esfregona, remetendo não só para as construções infantis na areia da praia, como para uma dinâmica de trabalho, neste caso, o das empregadas de limpeza, diretamente conectado com o ecossistema das estâncias turísticas. A produção de Zé Ventura traz também uma nova camada à exposição, elaborando o que chama de uma pintura texturada, composta sobre tecidos, uns presos ao teto como cápsulas, comprimindo atmosferas, outras produzidas em trajes possíveis, a remeter para o etnográfico.

Neste primeiro piso, a curadoria age, mais uma vez, como um artista invisível: vejamos não só as luxuosas espreguiçadeiras viradas, cinicamente, para a televisão, sob um toldo, onde se expõe o documentário de António de Cunha Telles, a loja fictícia elaborada na última sala da exposição, expondo algumas t-shirts e panfletos apresentados como obras da autoria de Xana e Zé Ventura ou pertencendo à coleção de Vera Gonçalves, ou ainda as grelhas de madeira de jardim, pintadas na mesma sala, num trompe l’oeil parietal, replicando alguns postais desenhados por Joaquim Bravo. Sobre estas expõem-se Marinas, as pinturas de BRANA, um pseudónimo de Bravo, compostas com o intuito do artista as vender como lembranças aos turistas que por ele passavam em Lagos: são obras muito singelas, sobre papel, onde se representam, na aquosidade das suas aguarelas, praias e arribas, onde o mar puro não perde a cor intacta, só as rochas adquirem as possibilidades de reflexos de luz que nelas embatem.

A exposição é muito bonita e transmitiu-me algo que nunca tinha visto abordado, pelo menos tão nitidamente: esta dinâmica profundamente contraditória que caracteriza o território do Algarve - a beleza pura, total, amarela, azul, sufocada por um turismo inquieto, anual, mas temporário, que a continua a dizimar. A exposição não cai, no entanto, no moralismo, e ainda bem: afinal, condensa também toda uma geração de artistas que se deslocou ou sempre trabalhou no Algarve, vendo no território uma fonte de inspiração e liberdade – um possível escape ao controlo da ditadura vivido nas grandes cidades, ou talvez essa luz forte, mediterrânica em que Sophia de Mello Breyner viu a Grécia Antiga. Vejamos um desenho de Joaquim Bravo, Palmeira, exposto numa das vitrines – a mistura de amarelo e verde parece anunciar a claridade vagarosa, seca dos dias quentes, mas também a artificialidade elétrica, kitsch dos bares noturnos. Condensa o essencial, um retrato perfeito.

Para se tornar completa, só falta o cheiro a sal e alfarroba, a areia no chão e a Penina repetida até à eternidade.

 

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ARTISTAS
Joaquim Bravo e Álvaro Lapa, António da Cunha Telles, António Palolo, BRANA, Cristina Motta, João Cutileiro, Jorge Mealha, José Miranda Justo, Maria Altina Martins, Patrícia Almeida, Peter Jones, Rosa Jones, Vera Gonçalves, Xana, Zé Ventura

CURADORIA
Diogo Pinto

 



MIGUEL PINTO