Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição Somos o Tempo, Mikhail Karikis. © Sismógrafo


Vista da exposição Somos o Tempo, Mikhail Karikis. © Sismógrafo


Vista da exposição Somos o Tempo, Mikhail Karikis. © Sismógrafo


Vista da exposição Somos o Tempo, Mikhail Karikis. © Sismógrafo


Vista da exposição Somos o Tempo, Mikhail Karikis. © Sismógrafo


Vista da exposição Somos o Tempo, Mikhail Karikis. © Sismógrafo

Outras exposições actuais:

COLECTIVA

NOVAS NOVAS CARTAS PORTUGUESAS


Galerias Municipais - Galeria Quadrum, Lisboa
JOÃO BORGES DA CUNHA

EDVARD MUNCH

EDVARD MUNCH. UN POÈME DE VIE, D’AMOUR ET DE MORT


Musée d'Orsay, Paris
MARC LENOT

CINDY SHERMAN

CINDY SHERMAN: METAMORFOSES


Museu de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto
MAFALDA TEIXEIRA

CARLOS NUNES

ABASEDOTETODESABA


3 + 1 Arte Contemporânea, Lisboa
CARLA CARBONE

TIAGO BAPTISTA

THE TALE


Rialto6, Lisboa
FILIPA ALMEIDA

COLECTIVA

MY FATHER IS A DIRTY SLUTTY TRANSCENDENTAL GIRLIE


Espaço Caramujo, Almada
ANDREZZA ALVES

RUI MATOS

A SEQUÊNCIA DOS DIAS


Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa
JOANA CONSIGLIERI

COLECTIVA / EXPOSIÇÃO VIRTUAL

REACENDER A IMAGINAÇÃO CÍVICA PARA A MUDANÇA SOCIAL


PLATAFORMAS ONLINE,
RITA ALCAIRE

CATARINA AGUIAR

TESSITURA


Casa da Avenida, Setúbal
MADALENA FOLGADO

DAVID DOUARD

O’TI’LULLABIES


Museu de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto
SANDRA SILVA

ARQUIVO:


MIKHAIL KARIKIS

SOMOS O TEMPO




SISMÓGRAFO
Rua de Alegria 416
4000-035 Porto

29 OUT - 03 DEZ 2022


 

 

Não pára; todas as manhãs começa tudo de novo. Um dia, o nível da água está a subir; a seguir, é a erosão do solo; à noite, são os glaciares a derreter cada vez mais rápido; nas notícias das 20h, entre duas reportagens sobre crimes de guerra, ficamos a saber que milhares de espécies estão prestes a desaparecer antes mesmo de serem devidamente identificadas. Todos os meses, as medições de dióxido de carbono na atmosfera são ainda piores do que as estatísticas de desemprego. Todos os anos dizem-nos que é o mais quente desde que as primeiras estações meteorológicas foram instaladas; o nível do mar continua a subir; o litoral está cada vez mais ameaçado por tempestades de primavera; quanto ao oceano, cada novo estudo considera-o mais ácido do que antes. Isso é o que a comunicação social chama de viver na era de uma ‘crise ecológica’.

Bruno Latour
In Facing Gaia - Eight Lectures on the New Climatic Regime, p.7

 

Mikhail Karikis, que vê a sua produção artística de teor eco-ativista representada na exposição Somos o tempo, patente no Sismógrafo entre 29 de outubro e 3 de dezembro de 2022, pertence a uma linhagem de artistas que usam a ecologia do som e a sonoplastia – quer seja através da biofonia, antropofonia, geofonia e sons de instrumentos e outros objetos – para abordar desafios, questões e problemáticas da ecologia como o aquecimento global e o degelo (Katie Paterson - Vatnajokull (the sound of), 2007-2008), o ruído antropogénico e a poluição marítima (Victoria Vesna - Noise Aquarium, 2016), a extinção das espécies (Claúdia Martinho - Extinction Calls, 2020 ) e as forças da natureza e as suas alterações (Juan Duarte - Aeolian Artefacts, 2018).

O percurso expositivo inicia-se com a obra Surging Seas/Levantamento dos mares (2022) elaborada como um arquivo-memória sincrónico entre passado, presente e futuro que inter-relaciona elementos existentes e documentados com outros que evocam acontecimentos especulativos. Na entrada da galeria foi disposta uma série de cartazes pousados no chão e encostados à parede, contemplando imagens de arquivo de protestos ambientais, em Portugal, onde slogans como Make our planet green again e There is no planet B, são visíveis e traduzem o propósito da brigada estudantil que se reuniu num consenso de ação. Outros cartazes mostram hipotéticos mapas de inundações, a sua extensão e a perda de terrenos, na zona costeira da área do Porto, resultado do aquecimento global. Completa esta cenografia, uma bandeira com um mapa térmico do planeta Terra. Na quietude da cristalização artística, estes objetos representam a possibilidade da ação física da reivindicação através do braço estendido que os pode erguer e da mão que os pode segurar e, concomitantemente, do pensamento, da ideologia e da fraternidade que se podem expandir num som audível nas múltiplas vozes de protesto, numa acústica de conjunto, de propósito comum e resistência imaginativa, (Karikis, 2022, p.303) em direção a uma pretensa mudança social e transformação material (Karikis, 2018) de um planeta que experiencia uma ‘crise ecológica’, fomentando, desta forma, uma contextura robusta e enlaçada entre revolta, esperança e ação.

Sobrevém, num espaço intermediário entre a entrada e a caixa negra, um singelo cartaz, afixado na parede, com uma mensagem visceral: um amor/com instinto/e paixão/para perpetuar/toda a vida/um/amor feroz. Acessível através de uma cortina que cruza a funcionalidade e a teatralização, a negritude do, então, espaço imersivo que se segue, revela a continuação da obra Surging Seas (2022) num vídeo que apresenta uma conversa imaginada entre dois jovens, em 2080, que versa sobre esse amor intimidante, poderoso e feroz que levou os seus parentes a sonoros protestos nas ruas antes da ocorrência de uma enchente, resultado das alterações climáticas. Os dois protagonistas dissertam, ainda, sobre o que une os humanos e concluem a necessidade de amar e proteger toda a vida existente e de assumir a responsabilidade no bem-estar e na proteção dos interesses dos futuros habitantes terrestres. Esta esperança em expandir a (nossa) imaginação ética adiante ao tempo, que estes habitantes do futuro nos revelam, dimensiona assertivamente a importância do compromisso geracional através do alerta, da responsabilização e da ação, face à realidade preocupante das mudanças climáticas e às suas repercussões na vida humana e não humana do planeta. Urge a celebração, entre gerações, de um pacto para fomentar outras formas de viver e morrer.

Ainda neste ambiente imersivo, opera e encerra a exposição, numa instalação audiovisual de dois canais, a The Weather Orchestra/Orquestra do Tempo (2022) - meteorológico e desses tempos que não são mais do que construções abstratas da Humanidade – numa heterogeneidade espaço-temporal de sons, ritmos, dinâmicas, através de músicos filmados sob uma luz suave e focal que permite a corporalidade das sombras, a poética dos gestos e dos corpos em movimento que evidenciam a simbiose da pele e do toque na operacionalização de tocar instrumentos e utilizar máquinas de ruído analógico que são projetadas para imitar os sons de fenómenos naturais, e que mesmo na sua magnificência e força já seguem despojados da ira dos deuses. Assim, o espaço de exibição artística passa a contemplar um sistema climático interno e artificial, gerado através da vibração sonora de uma máquina de vento barroca, paus de chuva cerimoniais latino-americanos, um tambor oceânico, um telefone de água, um tubo de trovão e lâminas de trovão de metal. A antropofonia disposta em canções folclóricas e multiculturais de Portugal, através das vozes de João Neves e Mariana Camacho, da Síria com a participação de Salman Duski e da Dinamarca representada por Helene Tungelund, acompanham, na outra tela de projeção, esta paisagem sonora de música meteorológica que mimetiza os polirruídos da natureza que vão desde o som errático do vento, às variações sonoras da água, ao sublime som retumbante dos trovões, e que cria uma ignição para a consciência e celebração da nossa conexão com o clima e a atmosfera, e nos impele para a importância de renovar e respeitar os poderes biodiversos da Terra. O som é uma propriedade fundamental da natureza, pelo que estudar a dinâmica dos ecossistemas a partir da perspetiva da paisagem sonora ecológica, que pode ser drasticamente afetada por uma variedade de atividades humanas que produzem ruido antropogénico afetando a vida de inúmeras espécies, é essencial para a sua proteção e preservação.

Escutar, refere Mikhail Karikis, surge como estratégia artística que determina o conteúdo dos seus projetos, apresentando-se como uma ação, uma força geradora, que envolve todo o corpo postado em atenção e que nos permite uma simbiose com o outro e o mundo, incluindo o não humano, o que permanece oculto e o subterrâneo, num ato relacional que potencia a solidariedade, a empatia, as relações e afetos, formando um sentido de coletividade em que as individualidades coexistem, relacionam-se e respeitam-se. (Karikis, 2022, pp. 302-303) Parece aqui brotar, um alinhamento teórico entre Karikis e Tarek Atoui, artista libanês que, entre 24 de Fevereiro e 28 de Agosto de 2022, viu patente a sua exposição Waters’ Witness / O testemunho das águas, no Museu de Serralves, na qual apresentou as características e idiossincrasias do ecossistema sónico de várias cidades portuárias, do Porto a Atenas, Abu Dhabi ou Beirute, concebendo o som como algo multissensorial e a audição como um processo ativo que pode ser tátil, visual e físico, ou seja, corporal. Tudo começa por ouvir o material e partir daí perceber a que é que ele se pode ligar e como pode fazer parte de um cosmos maior. (Atoui, 2022) E Mikhail Karikis embarca, de forma profícua, nesta consciência da cosmogonia dos fenómenos ecológicos na sua articulação com as sonoridades, não só pela música meteorólogica orquestrada, e já supramencionada, mas também pelas sonoridades imaginadas de ondas consecutivas da subida do mar e ondas de ruído humano que registou de diversos eco-protestos, que acompanham as imagens de um vídeo, que fez parte de uma versão expandida da obra Surging Seas (2022) que esteve exposta nas Carpintarias de São Lázaro, entre 22 de julho a 28 de agosto de 2022, onde aparecem mapas de Lisboa e do estuário do Rio Tejo, e a extensão das inundações e da perda de terras que a área sofrerá ainda neste século, resultado do aquecimento global; ou ainda, a sonoridade, contemplada na obra audiovisual No ordinary Protest (2018) que serviu de prólogo à exposição de Lisboa, e que o artista caracterizou de impossível, paradoxalmente inaudível e ensurdecedora numa mescla multissensorial de sons produzidos por crianças que utilizaram instrumentos musicais, brinquedos, as suas vozes e mãos, e que teve inspiração na obra literária ecofeminista The Iron Woman, do escritor Ted Hughes. (Karikis, 2018)

O extenso mundo sonoro-visual de Karikis, adaptável em forma e conteúdo aos espaços artísticos e à realidade ecológica onde estes se situam, por cimentar futuros desejáveis incidindo nas possibilidades de ação, por considerar e dar voz às diferentes gerações, não esquecendo o ecofeminismo e a multiculturalidade (na exposição de Lisboa havia, inclusive, um cartaz com referência às mulheres indígenas), e por destacar a importância de escutar o não-humano, condimenta as suas obras com uma visão pós-humanista e pós-antropocêntrica, uma vez que tais conceitos compreendem uma visão de natureza-cultura que considera o planeta e o cosmos como atuantes numa arena política planetária, distanciando-se da visão academicista do eurocentrismo, do antropomorfismo e do Anthropos associado ao Antropoceno em que o Homem se impõe numa condição de racionalidade e de suposta espécie excecional, concedendo-se o direito de aceder aos corpos de outras entidades vivas. (Braidotti, 2016, p.381) Mais, ainda, o sujeito político pós-humano, que cruza humanidades digitais e ambientais providas de ética, não descura a justiça social feminista e as perspetivas pós-coloniais e critica os abusos capitalistas. Devem ser fomentadas alianças transversais entre agentes humanos e não humanos em que se estabelecem conexões com um mundo partilhado em que o sujeito transversal está imerso numa rede de relações não humanas – animais, vegetais, virais – e é atravessado por vínculos relacionais – contaminante, viral, tecno – que o interligam a outros vínculos que podem ser ambientais, ecológicos e tecnológicos. (Braidotti, 2016, pp. 385-388)

Na vertente pós-antropocêntrica, também Donna Haraway defende que o discurso humano-excecionalista do Antropoceno mina a capacidade de cuidar de outros mundos, os que existem e os que são necessários criar em aliança e reconexão com outros seres com o intuito do bem-estar multiespécies. (2016, p.50) Propõe o termo Chthulucene, ao invés de Antropoceno ou Capitaloceno, inspirado no aracnídeo tentacular de oito patas, Pimoa cthulhu, de estrutura simpoiética. A tentacularidade, pelas suas características plurais, de aspetos abissais, esgarçamentos, tessituras que revezam continuamente nas recursões generativas que compõem o viver e o morrer, é a metáfora para a sustentabilidade e o pensar no habitar (novamente) no meio da porosidade dos tecidos e das bordas abertas de mundos vivos danificados. As extinções, genocídios, misérias e extermínios de várias espécies, a autora estabelece-os como urgências e não emergências porque esta última palavra conota algo que se aproxima do apocalipse e das suas mitologias. As urgências, refere, têm outras temporalidades e esses tempos são nossos (ou somos o tempo como indica o título da exposição de Karikis, entrando aqui numa indelével e admirável linha de sintonia) e precisam de histórias. (2016, pp.31-33) E o Chthulucene é composto de histórias e práticas multiespécies contínuas do devir - em tempos que permanecem em jogo, em tempos precários, em que o mundo não está acabado e o céu não caiu - ainda. (Haraway, 2016, p.55)

 

 

Sandra Silva
Licenciada em História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e mestre em Estudos Artísticos - variante Estudos Museológicos e Curatoriais, pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, com uma dissertação sobre a interligação entre arte e ciência. Dedica-se à investigação independente, com particular interesse pelos diversos temas da arte e curadoria contemporânea.

  

:::

 

Referências Bibliográficas

Atoui, T. (2022). "Nas águas do Porto, captámos sons muito psicadélicos". Entrevista com Tarek Atoui. Entrevistado por Rui Frias para o Diário de Notícias.
Braidotti, R. (2016). The CRITICAL POSTHUMANITIES; or, IS MEDIANATURES to NATURECULTURES as ZOE IS to BIOS?. Cultural Politics, 12(3), 380-390.
Haraway, D.J. (2016). Tentacular Thinking - Anthropocene, Capitalocene, Chthulucene. In Staying with the trouble: Making Kin in the Chthulucene. (pp 30-57). Durham e Londres: Duke University Press
Karikis, M. (2022). Acústica de Resistência/Acoustics of Resistance. In Lisboa Soa. (pp.299-303). Disponível aqui.
Latour, B. (2017[2015]). First Lecture: On the instability of the (notion of) nature. In Facing Gaia - Eight Lectures on the New Climatic Regime. (pp.7- 40). Cambridge: Polity Press

Media Audiovisual

Karikis, M. [WhiteChapel Gallery]. (2018, dezembro 10). Mikhail Karikis: No Ordinary Protest. [video]. Youtube

 

 



SANDRA SILVA