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JOANA VASCONCELOSTRANSFIGURACIÓNMUSEO PICASSO MÁLAGA Palacio de Buenavistarn. Calle San Agustín, 8 29015 Málaga 29 MAI - 27 SET 2026
Málaga é uma cidade litorânea da Andaluzia, região que vai do Algarve, a oeste, até Múrcia, a leste. Está muito próxima do estreito de Gibraltar, ponto mais próximo do continente europeu ao continente africano. Recebe, por isso, constantemente a areia do Saara vinda pelo vento. Este fenómeno, somado aos métodos e materiais de construção dos seus edifícios, confere-lhe uma cor terrosa, como se a terra, em alguns bairros, se desdobrasse diretamente nas construções. É rodeada por uma cadeia de montanhas, mas é uma cidade litorânea e portuária. É, por fim, uma cidade de forte azul e tons castanhos. Como toda a região da Andaluzia, Málaga é fortemente marcada pela herança árabe, sendo o castelo de Alcazaba, construído entre o século XI e XIV, no período muçulmano, um dos seus marcos históricos. Sendo ainda a cidade natal de Pablo Picasso, abriga em seu solo a sua casa e o seu museu: uma construção de dois pisos e 8.300 metros quadrados no centro histórico da cidade, o Museu Picasso. Um pátio interno e aberto ao céu é o centro do edifício, que se organiza em torno dele num quadrado perfeito e envolve os transeuntes por diferentes saídas e entradas. O museu contém pinturas e esculturas dessa emblemática figura espanhola, muitas delas da coleção particular do pintor e desconhecidas do público geral. De 28 de maio a 27 de setembro, do segundo andar, de onde se avista o térreo ensolarado, pode-se ver também o emblemático sapato de salto alto de Joana Vasconcelos — sua obra chamada Betty Boop. Feito de mais de uma centena de tachos que se sobrepõem numa escalada vertiginosa, o sapato monumental soma-se a outras 12 obras da artista plástica portuguesa, representativas dos últimos 30 anos do seu trabalho, organizadas e curadas por Miguel López-Remiro sob o conceito de Transfiguração.
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Joana Vasconcelos transcende seu país de origem e mobiliza públicos de diferentes países e continentes. Nos dois dias de abertura da sua exposição, o público encheu o Museu Picasso, não deixando dúvida acerca do alcance e reconhecimento da artista, que, junto das suas obras, parece operar uma expansão do museu, recriando-o em novas dimensões. O público parece integrar a dimensão monumental ao mesmo tempo física e simbólica da sua obra. No segundo dia de evento, a artista realizou uma meditação ativa e guiada com o público e trabalhadores do museu, criando uma espécie de sinergia coletiva em torno da abertura da exposição. Mais do que a exibição de 13 obras, o trabalho de Joana Vasconcelos no Museu Picasso é um diálogo estranho e incontornável com a sua arquitetura: suas peças impõem-se no espaço e transformam-no numa coisa distinta daquilo que era. Não são simplesmente recebidas pelo museu: apropriam-se dele numa espécie de fagocitação, transformando radicalmente o espaço numa experiência imersiva. Esse carácter é consagrado, neste caso, pela obra “Floresta Encantada”, originalmente apresentada em Hong Kong mas recriada especificamente para o Museu Picasso: uma instalação de 83 elementos suspensos, manualmente elaborados e iluminados por luzes LED sob fundo negro, num cenário de floresta etérea a partir de tecidos da casa francesa Dior. As obras, que condensam um percurso de 30 anos do trabalho da artista, encontram-se reunidas sob o conceito de Transfiguração. O título, que remete ao episódio bíblico da transfiguração de Jesus Cristo, substituiu uma primeira escolha de carácter mais nacionalista que nomearia a exposição de Portugal. Entre sublinhar o carácter culturalista e nacional do trabalho da artista, a curadoria acabou por optar por aquilo que considerou ser o ponto de encontro entre Vasconcelos e Picasso: o processo de transfiguração das coisas — a transformação dos objetos figurados, recriados sob uma nova ótica. Deve-se esta semelhança ao entendimento curatorial de que a transfiguração de perspectiva operada por Pablo Picasso nas suas pinturas assemelha-se ao exercício de Vasconcelos ao compor peças monumentais a partir de outros objetos, fazendo com que o sentido do objeto figurado na totalidade e aquele que desempenha a sua parte sejam ao mesmo tempo alterados. De facto, nas suas obras mais figurativas, como é o caso de Betty Boop (2019) ou do Coração Independente (2006), é perceptível essa espécie de derretimento do símbolo original por meio da iluminação daquilo que o forma e o origina. Quando nos aproximamos das obras de Vasconcelos, percebemos que não estamos apenas diante de um símbolo de luxo ou nacional; há um tensionamento, uma ironização do seu sentido, realizado também inversamente: os garfos e facas tornados base material de um objeto escultórico os deslocam simbolicamente. Mas se Picasso trabalha no interior de uma crise da representação, interrogando a própria construção da imagem e evocando também o carácter individualista do artista, o trabalho de Vasconcelos desloca a questão para a produção, a circulação e a institucionalização de objetos, expondo as condições materiais que sustentam a sua visibilidade. Grande parte das suas obras — o lustre feito de brincos de plástico, o sapato feito de tachos, o Coração de Viana feito de garfos e facas — desvelam e renovam a manufactura da sua composição, operando um desconforto — ou no mínimo uma surpresa — no espectador que se descobre diante de um aglomerado de plástico enveredado. Além disso, a artista também opera uma expansão da prática artística, que depende, neste caso, de uma ampla cadeia de trabalhadores, objetos, fornecedores e procedimentos para ser executada. A conversa que se instala com Pablo Picasso aparece, assim, não somente como um diálogo entre artistas, mas como duas práticas e sensibilidades de tempos e contextos distintos. A artista plástica portuguesa não busca sair da panóplia de apetrechos que povoam a vida contemporânea: mergulha, na verdade, nessa panóplia - usa, pensa e habita-a enquanto caminho, enquanto proposta estética e enquanto reorganizador simbólico da relação entre obra, museu e visitantes. Também acaba por se organizar dentro de uma gestão logística de objetos, atores e procedimentos que situam a obra como um ponto nodal numa cadeia de circulação mais ampla.
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Ainda que Transfiguração tenha sido o nome escolhido para a exposição, grande parte das suas obras são expressão e diálogo incontornável com a cultura portuguesa. É o caso de Spot Me (1999): uma guarita em madeira utilizada no Estádio Nacional, durante o Estado Novo, como posto de controlo e vigilância. A artista colocou, no seu interior, mais de uma centena de pequenos espelhos de plástico circulares nas suas paredes. A exiguidade do espaço, bem como a dimensão dos espelhos e os diferentes ângulos de colocação, provocam uma sensação de asfixia e, ao mesmo tempo, uma impossibilidade de reconhecer uma imagem estável. Segundo a artista, a obra remete à incapacidade do país de ver a sua própria imagem. É o caso também de Vista interior (2000), um conjunto de objetos domésticos colocados lado a lado numa caixa de vidro acrílico. Uma pequena operação sobre o que significa interioridade e uma exibição do universo doméstico português recente, incluindo uma televisão obsoleta, conferindo à peça um carácter simultaneamente arqueológico e quotidiano Ou o mais emblemático www.fatimashop (2002): instalação composta por um road video, testemunho da viagem da artista a Fátima; e pelo espólio adquirido no local, traduzido em estátuas de Fátima “glowing in the dark” em verde fluorescente, instaladas no interior de um pequeno atrelado, como se de um altar se tratasse. O trabalho constrói um retrato simultaneamente crítico e ambíguo da experiência do sagrado num contexto de circulação consumista. Constantemente jogando com objetos quotidianos e uma estética kitsch, Joana Vasconcelos faz oscilar o olhar entre o estranho e o familiar: ao mesmo tempo consagra, ironiza e desloca aquilo que mostra. Vasconcelos também apresenta um conjunto de obras abstratas que sublinham, segundo a artista, o aspecto espiritual da sua prática. Segundo a artista, peças como As Valquírias ou Floresta Encantada, criada especificamente para o Museu Picasso, podem ser entendidas como uma tentativa de aproximação a um “princípio do mundo”, um ponto de origem comum anterior às diferenciações culturais e às hierarquias formais. Como um trabalho, sobretudo, de costura, a abstração de Vasconcelos não nega, entretanto, a materialidade nem o aspecto de reunião e de encontro que habita a prática da confecção têxtil, que monta uma peça à outra e cria novas formas e formatos; reconfigurando, através da junção das partes, um horizonte de universalidade possível. O desejo de Vasconcelos, sobretudo com a obra Floresta Encantada, mira uma experiência estética que transcende o espaço do museu para alcançar um aqui-agora espacialmente abstrato, um lugar que lembra o “aspecto mágico e fantástico da vida”, de forte carácter lúdico - que a artista considera essencial e parte fundamental do papel da arte. De facto, crianças, jovens e adultos conseguem experenciar e absorver os seus trabalhos, que proporcionam assim uma experiência lúdica transversal. O movimento em direção ao universal não abandona, entretanto, a lógica material que estrutura toda a obra da artista. Nas peças mais abstratas, a costura opera uma possibilidade de libertação completa das formas e significados dos objetos. Mas a abstração, nesse caso, é uma coisa a ser tecida, uma trama a ser construída, um conjunto de texturas, cores, padrões, estampas que vão se somando umas às outras e criando uma reunião entre superfícies.
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O programa em torno de Joana Vasconcelos. Transfiguração inclui encontros com a artista, oficinas que estabelecem ligações entre a obra e técnicas têxteis, celebrações como o Dia Mundial de Tricotar em Público, sessões de cinema ao ar livre no jardim do museu com filmes selecionados pela própria artista, bem como atividades dirigidas a famílias, períodos de férias escolares e grupos em situação de vulnerabilidade. Estas propostas articulam visita, aprendizagem e criação, fazendo do museu não apenas um espaço de exibição, mas um campo de prática e participação. A extensão deste programa revela uma transformação do próprio museu: o objeto artístico já não circula apenas como obra isolada, mas como núcleo gerador de experiências e atividades que se desdobram no tempo. Oficinas de têxteis, iniciativas de inclusão social e atividades pedagógicas fazem com que a exposição se prolongue para lá das salas expositivas, infiltrando-se em diferentes ritmos de uso do espaço museológico. O museu afirma-se assim como lugar de encontro e aprendizagem onde a obra se torna também um ponto de partida para formas diversas de participação social. Este alargamento programático introduz uma nova camada de leitura: a obra deixa de existir apenas como objeto estético e passa a integrar uma infraestrutura mais ampla de mediação cultural. É nesse cruzamento entre obra, programa e instituição que a exposição se articula, sugerindo a ideia de que a transfiguração não diz respeito apenas às formas, mas aos modos de relação que estas ativam.
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A ideia de transfiguração na obra de Joana Vasconcelos pode também ser relida à luz de uma tensão menos celebratória e mais crítica. A artista trabalha, de facto, com práticas historicamente associadas ao universo feminino e ao trabalho manual, como a costura e o têxtil. Ao tornar visíveis estas técnicas, frequentemente desvalorizadas ou relegadas ao domínio doméstico, a obra abre um campo de revalorização simbólica onde as mãos das mulheres surgem como medium central de produção artística.
Joana Vasconcelos, J'Adore Miss Dior (2017). Exposição Joana Vasconcelos. Transfiguración, Museo Picasso Málaga. Foto Pablo Asenjo © Museo Picasso Málaga
No entanto, esta operação convive com uma outra camada de leitura, particularmente evidente na aproximação ao universo da moda, como em obras como J'Adore Miss Dior onde a fronteira entre crítica e fascínio parece menos estável. A relação entre arte e moda surge aí como um território de proximidade intensa, por vezes ambígua, que pode tanto funcionar como comentário irónico sobre o luxo e o fetiche dos objetos, quanto como mimetização dessa mesma lógica de desejo e circulação. Essa ambivalência levanta a questão de até que ponto a obra consegue manter uma distância crítica em relação aos sistemas que incorpora ou se, pelo contrário, acaba por intensificar a sua própria lógica de sedução. Neste contexto, a dimensão harmonizadora presente em certos trabalhos pode ser lida como uma tentativa de recomposição simbólica do mundo, um esforço de produzir formas de unidade num cenário contemporâneo marcado por fratura social e instabilidade. Ainda assim, permanece aberta a questão de saber se essa busca por legibilidade e impacto visual não corre o risco de aproximar a experiência estética de uma economia de consumo, criando um espaço artístico no qual a obra circula com a mesma fluidez que os próprios objetos que mobiliza.
Mariana VarelaÉ escritora e poeta. Publicou Enigmas de Jaguar e Jasmim (2019) e Rotativa (2022) ambos pela editora Urutau. Editou a mini-revista literária Frente! e edita atualmente a revista literária Letra Lenta. Mestre em Sociologia, faz doutoramento em Filosofia e escreve artigos na Intersecção da Filosofia e da Estética. Está publicada em revistas e antologias.
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A autora viajou a convite do Museo Picasso Málaga, a quem a Artecapital agradece.
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