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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Mariana Silva, From the point of view of the mammal, 2017. Video e ecrã, 5’42’’. Fotografia: Bruno Lopes. Courtesia Bruin-Heijn Collection


Mariana Silva, Swarms/Throngs (After "Networks, Swarms, and Multitudes”), 2018. Vídeo, ecrã cúpula e banco de cortiça, 6’15’’. Fotografia: Bruno Lopes Cortesia da artista e Galeria Francisco Fino.






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Museu Coleção Berardo, Lisboa
MARC LENOT

ARQUIVO:


MARIANA SILVA

PAVILHÃO DAS FORMAS SOCIAIS




MUSEU DA CIDADE - PAVILHÃO BRANCO
Campo Grande, 245
1700-091 Lisboa

16 NOV - 27 JAN 2019

Tu és uma formiga vermelha, tu és uma formiga vermelha

 

 

Num vídeo projectado numa superfície redonda, grandes planos de insectos em alfinetes. Uma voz sussurrante, “Qual é a pergunta se a resposta for “Tu és uma formiga vermelha”?”. Imagens geradas por computador de pequenos triângulos movem-se em grupo. Ainda em sussurro: “é detectada uma massa em torno de uma bomba V1. As forças armadas britânicas enviam aviões para inspeccionar a área. Temem que a Luftwaffe tenha inventado uma nova forma de bloquear os radares. Não encontram nada no sitio. (...) És finalmente identificado por um ornitólogo. Qual é a pergunta se a resposta for “és um murmúrio de estorninhos”?

O Pavilhão das Formas Sociais, de Mariana Silva inaugurou a 15 de Novembro nas galerias municipais do Palácio Pimenta. Dois dias depois as primeiras manifestações dos coletes amarelos tomavam rotundas e praças francesas. Difícil de contextualizar, foi feito um esforço vasto para entender uma revolta que parece prolongar-se. São essas formas que o entendimento toma para dar conta de uma multidão revoltosa que podem ser postas em perspectiva pela pesquisa exposta no Pavilhão.

Mariana Silva vai colocar lado a lado a pesquisa entomológica sobre comportamentos sociais dos insectos e a pesquisa sociológica sobre comportamentos colectivos humanos. A partir dos insectos, a metáfora da organização, a “sociedade perfeita” concretizada pela “mão invisível” da selecção natural, mas também o temor do alheio, massas de pequenos seres hiper-comunicantes são uma ameaça latente ao domínio da humanidade. Nas salas do andar inferior duplas de ecrãs sobrepostos mostram excertos de filmes e pontos de escuta dão a ouvir entrevistas a sociólogos e investigadores. As referências cruzam-se, alternamos facilmente a bandas sonora dos vídeos sobrepostos; bancos na parede convidam a ouvir as entrevistas perante a paisagem de grandes grupos de gente e insectos nos vários ecrãs, cada sala centrada por uma escultura de um ninho de formigas que pende do teto.

Num excerto do filme Phase IV, de Saul Bass, um evento cósmico tem o efeito de amplificar a comunicação e a organização das formigas, que se preparam para tomar o planeta dos humanos. Por cima deste, um travelling num grande supermercado de Tout Va Bien de Jean-Luc Godard, a câmara que percorre as linhas de caixa num movimento pendular, enquanto à normalidade quotidiana se sucede uma expropriação massiva, pouco depois reprimida pela polícia.

Numa das esquinas, ouvimos algumas frases do sociólogo sueco Stefan Jonsson: “desprovido de substância o indivíduo é apresentado como um novo sujeito político. (...) As massas são a maioria excluída da política que ainda assim precisa ser invocada para a sua legitimação (...) O seu caráter de comunidade orgânica de seres desvanece, ao mesmo tempo que o Povo surge como uma série de dados aritméticos”.

A história da democracia é a da dispersão da soberania numa categoria abstracta, a vontade popular, o Povo. Esta totalidade vai despir os indivíduos da sua posição, no seu discurso todas as diferenças são igualadas. É o erguer prematuro do teatro do fim da história. Não se dissolvem as estruturas do estado ou as desigualdades materiais, mas pelo símbolo do voto o poder antes condensado na figura do soberano é disperso homogeneamente no campo social, torna-se número. A dialética do conflito social é resolvida na oposição retórica, a distribuição dos lugares do parlamento a partir dos quais cada deputado fala, resolvê-las é, no limite, o trabalho de contar votos. A política trata sobretudo de uma forma de adesão a um discurso, a gestão das desigualdades é apresentada enquanto gestão técnica, uma administração matemática de populações e recursos cujas decisões aparecem cada vez mais como inevitáveis.

Num outro ecrã, entre o caminhar mecânico dos trabalhadores do Metropolis, de Fritz Lang e a massa em corrida armada dos soldados russos de October de Eisenstein, Workers leaving the Factory, dos Lumiére, sem coreografia, uma cadência ritmada no avançar dos trabalhadores que se desfaz ao atravessar a porta em múltiplas direcções e tempos. O movimento de um fim que é um começo, contém nele o trabalho e os seus constrangimentos, as tarefas da vida quotidiana que se lhe seguem, mas também uma certa liberdade momentânea que esse pequeno fim diário anuncia.

A multidão começou por ser representada como uma forma de loucura. Nos tempos conturbados do século XIX, o indivíduo supunha-se transformado pelos grandes grupos, perdendo o domínio da razão e entregando-se a comportamentos imprevisíveis e violentos. A violência colectiva vai ser enquadrada como uma doença, entre o contágio de um vírus e as tendências inatas, esvaziada da sua dimensão política.

O som das salas do andar superior preenche todo o espaço, em cada uma das duas salas um vídeo, em projecção alternada, Do ponto de vista do mamífero e Enxames / Turbas. As salas inferiores funcionam como uma antecâmara, povoando pela informação a leitura do andar superior. Trata-se de procurar o lugar do outro, em Do ponto de vista… uma voz sussurrante faz-nos sujeito das situações que descreve, em Enxames / Turbas, vemos a pesquisa em torno do olho composto dos insectos e das primeiras simulações da sua visão ser integrada na discussão em torno da multidão.

“Ver com os olhos de outrem” trata aqui também de entender como vê um projecto de poder, que trabalho é esse o de representar multidões e enxames. Descendo de novo, Tania Munz, outra das entrevistadas, fala sobre a pesquisa de von Frisch, entomólogo alemão que se popularizou por interpretar a dança das abelhas enquanto forma elaborada de comunicação. Munz vai ressaltar a dimensão ideológica deste projecto, em sintonia com o seu tempo. Acrescentamos que era enquanto o comércio global se estendia com os avanços técnicos do transporte marítimo e com os acordos de livre comércio, enquanto redes de telecomunicações se espalhavam sobre um território já atravessado por linhas de caminho de ferro e estradas que Von Frisch registrava cuidadosamente os movimentos das abelhas.

Formas que representam os seres não humanos (e os humanos) pela sua capacidade de se relacionarem tomam primazia sobre outras, à metáfora da máquina vem sobrepor-se a da rede (ou da máquina-rede). representados sobretudo pela sua capacidade de se relacionarem. O emergir da cibernética vai recuperar o indivíduo do transe hipnótico da multidão enlouquecida, devolvendo-lhe algum movimento e agência própria. Trata-se ainda assim de montar uma estrutura explicativa que dê conta do fenómeno colectivo, a sociedade enquanto sistema de seres em relação. Noutro ponto de escuta Jussi Parikka vai mais longe na correspondência humano-animal, afirmando uma génese animal da tecnologia, através da apropriação de práticas de outras espécies. A ideia de “hive mind”, oriunda da análise de comportamento de formigas e abelhas vai ser importante para Parikka, no sentido em que descreve uma inteligência colectiva que dá conta de fenómenos sociais e tecnológicos.

Num artigo recente sobre as mobilizações em França Jacques Rancière elogia as “virtudes do inexplicável”. Talvez nos reste o exemplo do bando de estorninhos que confundiu o radar inglês, escapar tanto quanto possível a uma explicação. Talvez o trabalho assinalado aqui de localizar pontos de vista, articulações e simultaneidades seja um começo de uma representação colectiva que nos permita ultrapassar os fantasmas do século.

 

 



Bruno Caracol