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ARQUITETURA E DESIGN




Nikolai Nekh, Museu da Gentrificação, 2019. Proposta vencedora do concurso internacional Arquitectura: SOLI (Beirute). Fotografia cortesia Balcony Gallery.


Nikolai Nekh, Conceito para o Museu da Gentrificação, 2019. Fotografia cortesia Balcony Gallery.


Vista da exposição, Nikolai Nekh, Museu da Gentrificação. Fotografia cortesia Balcony Gallery.


Vista da exposição, Nikolai Nekh, Museu da Gentrificação. Com obra Outdoor, 2020, e Modelos para os expositores do Museu da Gentrificação, 2019. Vista da exposição, Nikolai Nekh, Museu da Gentrificação. Fotografia cortesia Balcony Gallery.


Vista da exposição, Nikolai Nekh, Museu da Gentrificação. Fotografia cortesia Balcony Gallery.


Vista da exposição, Nikolai Nekh, Museu da Gentrificação. Fotografia cortesia Balcony Gallery.


Vista da exposição, Nikolai Nekh, Museu da Gentrificação. Fotografia cortesia Balcony Gallery.


Vista da exposição, Nikolai Nekh, Museu da Gentrificação. Fotografia cortesia Balcony Gallery.


Fotografia de objecto #6 (2018). Fotografia cortesia Balcony Gallery.


Vista da exposição, Nikolai Nekh, Museu da Gentrificação. Fotografia cortesia Balcony Gallery.


Vista da exposição, Nikolai Nekh, Museu da Gentrificação. Fotografia cortesia Balcony Gallery.


Vista da exposição, Nikolai Nekh, Museu da Gentrificação. Fotografia cortesia Balcony Gallery.

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SURENDER, SURENDER

DASHA BIRUKOVA


 

 

 

«HUO e RK: Acha que há uma instituição em falta em Londres, e o que mais falta?
RH: Jesus, por onde começamos: bom cinema, bom clube nocturno, um museu que nos agrade...» (Entrevista Maratona 2006: Russell Haswell, por Hans Ulrich Obrist e Rem Koolhaas) [1]

«Só quando o hábito consciente de ver em imagens pequenos nichos da natureza, Madonas e Vénus desaparecer, poderemos testemunhar uma obra de arte puramente pictórica.
Eu transformei-me no zero da forma e resgatei-me do ignóbil pântano da arte académica» (Kazimir Malevich, Do Cubismo e Futurismo ao Suprematismo: O novo Realismo Pictórico, 1915) [2]

 

 

“Surender, Surender.” é uma exposição baseada no conceito do Museu da Gentrificação que Nikolai Nekh desenvolve desde 2018. Este conceito transformou-se numa narrativa multilinear onde vários continuums espácio-temporais se sobrepõem a fim de fornecer um espaço para falar sobre questões urgentes nas esferas sócio-políticas e culturais, bem como em criar uma tensão afectiva.

Mas comecemos pelo início.

Podemos nunca saber a verdadeira razão pela qual Nikolai Nekh decidiu criar um "Museu", mas é óbvio que todo o artista sonha em ter o seu próprio museu.

O Museu é uma agência de legitimação, um palco para problematizar a realidade e estructurar o conhecimento e a prática. A fim de musealizar a sua prática artística, Nekh criou o Museu da Gentrificação (MoG), com a sua clara visão conceptual e uma narrativa muito realista. O artista explica claramente: “eu trabalho muito com a questão das narrativas de produção e distribuição da imagem, que é o pano de fundo para o que em última análise vemos.” [3]

Há algum tempo que Nikolai Nekh colecciona objectos que encontra na rua deitados fora durante o processo de remodelação de apartamentos numa determinada área da cidade (diferentes tipos de utensílios domésticos). Este processo levou-o a pensar na gentrificação de Lisboa e na controvérsia que provoca, aumentando muitas vezes o valor económico de um bairro, e com isso resultando alterações demográficas. O conceito desta instituição imaginada foi introduzido na entrevista ficcional com a sua “directora artística”, Alexandra Trejo Berber, feita por Carolina Montalvão, editora da revista Conflict & Theories. A ideia principal do museu é criar uma consciência da gentrificação e do seu impacto na cidade: como é que a reestruturação espacial da economia capitalista contemporânea influencia a paisagem lisboeta, como é que a descolonização altera a distribuição demográfica ou como poderemos acabar com mitos como “Lisboa é uma nova Berlim”, etc.

Além de ser uma plataforma discursiva, o museu possui um plano expositivo que se entrelaça com a prática de produção de imagens de Nekh. Criando os artefactos para o museu, o artista aplica a ideia de gentrificação aos objectos que encontrou como resultado desse mesmo processo de gentrificação. Tal como um desenvolvimento urbano aumenta o valor económico de um bairro, Nikolai Nekh cria um valor simbólico para os objectos encontrados, fotografando-os ao estilo de “fotos de apartamentos à venda” ou “documentação de exposição”, o que revela uma ideologia de representação, um desejo universal de ver o mundo. Nas suas fotografias do colchão enrolado, a cadeira expandida com o tapete de ioga ou o escorredor de pratos, Nekh foca-se na simplicidade das formas geométricas, como os suprematistas há 100 anos viam as formas abstratas puras como uma representação do "mundo real", uma maneira de fazer o espectador pensar sobre o modelo do mundo, libertar-se de uma sociedade moralmente falida e alcançar a pureza. De maneira a expor adequadamente essas imagens, Nekh constrói “pódios” apropriando-se das formas de andaimes das renovações e de “esquadrias”, usando formas de molduras que ele também encontrou na rua. Os seus andaimes em escala reduzida existem num lugar entre uma escultura e um equipamento de exposição, apontando para a fluidez da arte e da utilidade. Molduras transformadas jogam com as formas dos logotipos de diferentes corporações - do Airbnb ao Museu Berardo. Por um lado, referem-se ao seu impacto no processo de gentrificação (as instituições de arte são também fundamentais nos processos de gentrificação das cidades) e, por outro, jogam com a ideia de horizontal e vertical, em todos os sentidos: social, político, cultural ... e literal - horizontal das molduras e vertical da moldura da parede.

 

Nikolai Nekh, Modelos para os expositores do Museu da Gentrificação, 2019. Fotografia cortesia Balcony Gallery.

 

 

Para completar o ciclo de mercantilização, a ideia do museu é vender as imagens dos objectos encontrados (que após um toque do artista mudaram as suas características funcionais para simbólicas) aos seus ex-proprietários ou a um novo dono, e esta é a parte menos ficcional da exposição que se pode literalmente comprar na galeria.

Continuando a seguir a narrativa do Museu de Gentrificação, e como todas as instituições novas e desafiadoras, este anunciou uma open call para um projeto de arquitectura para o novo edifício do museu. Quem ganhou foi um escritório de arquitectura em Beirute, onde Nikolai Nekh esteve no ano passado como representante do MoG. Logo após a sua chegada começou a revolução no país, paralisando a cidade e arruinando o modo de vida. Na exposição vemos a fotografia de Nikolai olhando para a cidade em luta a partir da piscina do terraço. Impressa em forma de banner a toda a escala da parede, esta foto provavelmente é a peça mais crítica da mostra, falando sobre uma maneira de lidar com a outra revolução e todo o discurso de revolução em geral.

Outra curva da linha narrativa de Nekh, da sua "estrutura de imaginação colectiva", podemos encontra-la no segundo comunicado à imprensa disponível na galeria. Além de criar exposições, o Museu da Gentrificação envia artistas para fazer residências com o objectivo de repensar a “gentrificação” em diferentes formas artísticas. Desta última vez a residência decorreu no hotel Sur Ender, como podemos verificar no e-mail impresso do seu gerente para o director do GoM, acompanhado de uma resposta do artista residente Raafat. Esta outra linha fornece um campo extensivo para falar sobre o regime capitalista - desde o paradigma da indústria hoteleira (“Talvez o mundo fosse um lugar melhor se o seu museu virasse um hotel.” [4]), bem como o da torre de marfim da prática artística, que às vezes se dá bem com os negócios e outras vezes não.

Além disso, essa história paralela deu o título à exposição: “Surender, Surender”. Ou estamos cercados pelos objetos / circunstâncias / políticas, ou o curador se rendeu ao artista e à galeria, ou a humanidade se rendeu ao sistema.

 

 

 

Dasha Birukova
Curadora e escritora sediada em Lisboa. Formou-se na Universidade Estatal Russa para as Humanidades, Moscovo, departamento de história da arte, e na Universidade Estatal Russa de Cinematografia (VGIK), Moscovo, departamento de história do cinema. As suas especialidades são o filme experimental, o vídeo e media arte.
Fez a curadoria do programa “New Media” no National Centre for Contemporary Arts (NCCA, Moscovo) e a co-curadoria do Festival de Media Art “VideoFocus”, organizado também pelo NCCA (2014 e 2015). Foi co-curadora da exposição “Error Message”, que integrou a 4ª Bienal Internacional de Arte Jovem de Moscovo, 2014. Em 2016, Dasha Birukova juntou-se à equipa do projecto “Geometry of Now”, com curadoria do artista britânico Mark Fell e organizado pela VAC Foundation em Moscovo. Em 2017, foi curadora da exposição “Pink Flamingos” no espaço artístico BLEEK, na Bélgica. Em 2018, leccionou na Universidade Estatal Russa para as Humanidades, em Moscovo, no departamento de história da arte, e na British Higher School of Art and Design, Moscvo, onde fez a curadoria da exposição «BRITANKA_coop: ritual», projecto especial da 6ª Bienal de Arte Jovem, Winzavod, Moscovo.

 

 


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Notas


[1] Interview Marathon 2006: Russell Haswell
[2] From Cubism and Futurism to Suprematism, Kazimir Malevich (1915)
[3] Dossier da exposição Surender, Surender. / Inglês
[4] Dossier da exposição Surender, Surender. / Português

 

 

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SURENDER, SURENDER.
Nikolai Nekh
Curadoria de João Silvério
4 Dez 2020 - 19 Jan 2021

Balcony Gallery