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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da sala dedicada a processos de subjectivação, com obras de Bruno Pacheco, José Pedro Croft e Jorge Molder [1]. Foto: Rui Soares


Vista da sala das paisagens, com obras de Pedro Calapez, Augusto Alves da Silva e João Queiroz [2]. Foto: Rui Soares


3.16 (2003), de Augusto Alves da Silva. Foto: Rui Soares


Vista da exposição, com obras de Pedro Cabrita Reis, Inês Botelho e Pedro Calapez [3]. Foto: Rui Soares


Vista da exposição, com obras de Pedro Casqueiro e Carla Filipe [4]. Foto: Rui Soares


José Loureiro, Sem título, 2005. Guache sobre papel. Foto: Rui Soares


Nuno Sousa Vieira, Chão Morto, 2009. Chão em tacos de madeira intervencionados e madeira. Foto: Rui Soares


Febre I (1997), de Rui Chafes. Foto: Rui Soares


Um corpo nu coberto de flores (1997), de Rui Chafes. Foto: Rui Soares

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ARQUIVO:


COLECTIVA

UM HORIZONTE DE PROXIMIDADES. UMA TOPOLOGIA A PARTIR DA COLECÇÃO ANTÓNIO CACHOLA




ARQUIPÉLAGO - CENTRO DE ARTES CONTEMPORÂNEAS
Rua Adolfo Coutinho de Medeiros, s/n
9600-516 São Miguel, Açores

16 OUT - 28 FEV 2016


 

As afinidades electivas de Sérgio Mah e António Cachola cruzam-se numa oportunidade de visitar algumas das obras mais marcantes de uma das mais importantes colecções de arte contemporânea portuguesa. A disposição das obras dialoga com a configuração do novo centro açoriano, antiga fábrica de álcool requalificada que tem somado prémios pela inventividade da sua reapropriação.

No espaço introdutório do edifício, somos apresentados a um preâmbulo que anuncia o ecletismo das obras expostas. A prova cromogénea de João Maria Gusmão e Pedro Paiva, intitulada Mola Paleolítica (2012), constitui-se numa composição triangular, no classicismo etnográfico das fotografias de expedição do final do século XIX. A qualidade da imagem e as suas cores remetem-nos para a contemporaneidade e as suas tecnologias, investindo de uma ironia fina os quatro homens que são retratados, conferindo-lhes um triunfalismo de descobridores. No centro da composição, uma estrutura de metal envelhecida, a partir do qual toda a composição da fotografia se estabelece, sendo que a pequena relíquia se apresenta como orgulho dos heróis. Mesmo se tudo aponta para a constatação que o objecto tenha sido colocado propositadamente, mesmo se a idade de ouro das escavações arqueológicas tenha passado, somos convidados a explorar o resto das obras como se nos passeássemos pelos espólios de uma descoberta, como se os objectos a contemplar se constituíssem como respostas a perguntas perdidas.

A divisão em sete espaços principais pretende assim agregar peças segundo temáticas que, pela sua porosidade e diferença de propósito, se assemelham mais a vectores ordenadores: 1) o espaço como questão; 2) subjectivizações; 3) paisagens; 4) abstracções; 5) imaginário lúdico, 6) sintomas da cultura contemporânea e, finalmente, 7) uma exploração das especificidades do espaço da cave do Arquipélago.

No primeiro espaço, a atenção é absorvida num primeiro tempo pelos volumes de José Pedro Croft e, ocupando um quarto da sala, as construções em madeira de Rui Sanches que, em Sagrada família nos degraus (1982), procede a uma decomposição geométrico-afectiva do quadro com o mesmo título de Poussin (1648). Visto de uma determinada posição, as várias estruturas de madeira, pontuadas por conjuntos de elástico e contraplacado, assumem a forma das figuras da tela a partir da qual o artista se inspirou. A disposição da obra e a sua tridimensionalidade permitem ao espectador assumir outras posições, na qual as figuras se dispõem como “distorções” desse quadro primeiro, conferindo tantas leituras sensíveis quantas as posições possíveis de um corpo.

No espaço dedicado a processos de subjectivização, somos confrontados à uma série de provas de gelatina e prata de Jorge Molder, num conjunto justaposto de vinte e uma fotografias a preto e branco. Uma vez mais, as leituras são múltiplas, dependendo se o sentido da leitura é feito horizontalmente, verticalmente, diagonalmente ou segundo uma lógica própria, deixada aos olhos de quem vê. Anatomia Boxe (1996,1997) é contudo uma série inquietante, já que o objecto representado é sempre o próprio artista, interpelando o espectador, simulando o seu próprio afogamento, rodeando-se por fumo, estabelecendo cada espaço pictural como uma unidade de leitura ambígua, passando do ameaçador ao nostálgico, desesperado ou derrotista consoante a orientação de leitura e o momento irrepetível da contemplação de cada um. Na mesma sala, João Leonardo propõe-nos uma actividade artística no sentido mais literal do termo, ao emoldurar uma enumeração das palavras que designam acções na língua portuguesa. Lista dos verbos (2006) remete para o primeiro significado de ars, um fazer, arriscando neste caso uma simulação de todos os gestos possíveis da nossa língua, ao longo de páginas de papel cuidadosamente escritas com tinta permanente, apaziguando as diferenças das coisas pela homogeneidade gráfica das palavras.

As paisagens, feéricas ou indexadas ao real pela fotografia são o tema do terceiro espaço, onde encontramos o desejo de conter o infinito que caracteriza este motivo pictográfico na obra de Pedro Calapez, Contentor da paisagem (2004). No interior de um volume cúbico aberto, o artista pinta elementos paisagísticos, colocando a perspectiva de quem contempla na posição impossível de horizonte: uma tentativa poética e, enquanto tal, nunca falhada, de albergar uma imensidão visual num espaço quase portátil, permitindo invocar a gosto o esplendor longo que é o tema da paisagem. Quase metade das paredes do mesmo espaço são ocupadas por onze provas cromogéneas de Augusto Alves da Silva, constituindo uma série intitulada 3.16 (2003). As onze fotografias obedecem aos critérios do imaginário paisagístico açoriano: declinações de verde em prados, linhas divisórias negras, a tensão dos azuis do céu e do mar. Apenas um olho mais treinado, ou auxiliado pelo texto do artista que acompanha a obra compreenderá as diferenças que se estabelecem na repetição dessa mesma paisagem. Tratam-se de vários momentos do dia da Conferencia que juntou Durão Barroso, José Maria Aznar, George Bush e Tony Blair, que viajaram em aviões cuja chegada pontua as fotografias, manchas quase insignificantes na imensidão da tinta. Entre a primeira fotografia e a última existe uma diferença que a paisagem não denuncia: uma tomada de decisão militar cujas consequências se fazem hoje sentir, com maior intensidade que nunca, em todos os países que ela implicou. Ao registar a insensibilidade magnânime de uma paisagem de cartão postal, Augusto Alves da Silva oferece um testemunho inesperado e propositadamente politico.

A cave do Centro de Artes acusa as especificidades climáticas da ilha de São Miguel, numa atmosfera húmida, pesada, enegrecida por muros de basalto e inexoravelmente fria que diverge dos espaços assépticos tão desejados por uma certa cultura expositiva moderna. Sérgio Mah beneficiou destas características para dispor peças com um carácter escultural abstracto, como é exemplo o esplêndido das esculturas Febre I (1997) e Um corpo nu coberto de flores II (1997) de Rui Chafes.

Cada visita a uma parte tão importante de um espólio português, constituído a partir da década de 90 do século passado, apresenta-se assim como um desafio semiótico que compromete o espectador com novas questões, novas respostas e um diálogo potencialmente interminável.

 

Jorge Vieira Rodrigues

 

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Notas

[1] Obras: 

Bruno Pacheco, Happy Hour, 2005. Óleo sobre tela.

José Pedro Croft, Sem título,1995. Madeira e gesso.

Jorge Molder, Anatomia e boxe, 1996/1997. Provas de gelatina e prata.

[2] Obras:

Pedro Calapez, Submerso, 2001. Grafite e tinta-da-china sobre papel.

Pedro Calapez, Contentor de paisagem, 2004. Acrílico sobre alumínio

Augusto Alves da Silva, 3.16, 2003. Provas cromogéneas, diasec.

João Queiroz, Sem título, 2012-2013. Óleo sobre tela.

[3] Obras:

Pedro Cabrita Reis, Ala Norte, 2000. Alumínio, acrílico s/ madeira e lâmpadas fluorescentes.

Inês Botelho, Casas Rasas, 2008. Madeira, corda, roldanas, tinta esmalte.

Pedro Calapez, Sem título, série Invenções, Caprichos, Arquiteturas, 1994. Alkid e óleo sobre madeira.

José Pedro Croft, Sem Título, 2001. Gravura

[4] Obras: 

Pedro Casqueiro, Emerge, 2003. Papel serigrafado e acrílico sobre tela.

Carla Filipe, A Paródia, 2012. Tinta da china, acrílico e colagem sobre papel.
 

 


 



JORGE VIEIRA RODRIGUES