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HUGO LEITE, ED FREITAS E THALES LUZEU SOU AQUELE QUE ESTÁ LONGEESPAÇO MIRA Rua de Miraflor n.º 159 4300-334, Campanhã, Porto 10 JAN - 21 FEV 2026
Em vez de uma única projeção, três vídeos dessincronizados instauram um ritmo próprio, sublinhando a efemeridade dos encontros entre a obra e o espectador, cada visualização é necessariamente distinta da anterior. Um corpo masculino, anónimo e sem rosto, movimenta-se em frente à câmara. Está despido, coberto apenas por um material invulgar e difícil de decifrar, qualquer como coisa como umas “cuecas”. À medida que o corpo se contorce e se move pelo quadro, essa pequena veste, maleável e porosa, vai cedendo, criando aberturas e tornando-se cada vez mais flácida. Poderemos concluir que é feita de massa de pão, pela associação a uma outra imagem em movimento que surge ao lado: um rolo de massa. Esta ferramenta, típica do espaço doméstico, é massajada por duas mãos num movimento repetido e sexualmente alusivo.
Hugo Leite, From the flesh door tenderness pays attention (2026). Vídeo instalação (vista parcial). © Susana Chiocca
Se, por um lado, existe uma ideia de casa, através da utilização de elementos presentes num quotidiano que nos é familiar, por outro, o observador é invadido por uma sensação simultânea de curiosidade e desconforto ao observar a obra de Hugo Leite. O impulso imediato e quase instintivo que liga a visão, o cheiro e a matéria da comida à boca de um animal, seja ele humano ou não, torna-se contrastante ou até ampliado, quando essa massa comestível, finalmente, cede e cai, expondo aquilo a que o rolo fazia alusão. Num outro plano, por entre frutas caídas no chão, aquilo que parecem ser laranjas ou maçãs, surgem dois pés, que por ali deambulam. Estabelece-se uma conexão com o simbolismo da relação entre o humano e o fruto proibido. A sua multiplicação amplia a sensação de perigo, quando o corpo por ali passa, sem pisar nenhum dos frutos, até desaparecer do espaço da tela, e expandir-se para a parede de pedra. A natureza privada e íntima inerente ao espaço de casa é transgredida, quando atravessamos esta primeira parte da exposição até ao centro da sala. Mas só quando voltamos costas às telas projetadas de Hugo Leite, é que somos surpreendidos pela força da imagem em movimento, quando nos deparamos com esse corpo que trespassou a materialidade da tela até ao outro lado. Deste lado, uma luz mais quente acolhe a nossa presença.
Ed Freitas, My heritage dna ethnicity estimate (2017). Instalação (pormenor). © Manuela Matos Monteiro
No chão, um tecido estendido descreve parte duma investigação que Ed Freitas tem vindo a desenvolver desde 2017, em torno da múmia. De aspeto pesado, quase real, observam-se, novamente, uns pés, feitos de gesso; os quais, apenas com uma luz mais direta e incidente, se poderiam compreender na sua totalidade, observando o padrão geométrico e floral que ornamentam aquela pele branca polida. Os pés que caminham e desbravam o território, representados aqui sem fronteiras, procurando estabelecer ligações entre as várias culturas que outrora se dedicavam à preservação incorrupta de um corpo, para garantir a sua transição/passagem. Ou, como o título indica, a busca pela compreensão da história hereditária do próprio artista. O que é uma múmia senão a produção duma máscara, dum artifício, para conservar a essência de um corpo?
Ed Freitas, Na pele da Múmia (2021-2026). Instalação, materiais diversos (pormenor). Espaço MIRA, 2026. © Manuela Matos Monteiro
Multiplicam-se e ganham tridimensionalidade quando saem do vídeo e se materializam em objetos, de caráter escultórico e teatral. A múmia mais antiga é feita com o próprio cabelo negro do artista, a que se somam madeixas brancas com o tempo. As demais evoluem em ornamentação, evocando uma estética próxima do drag pela sobreposição de autocolantes, joias, tecidos, crochet e bordado, transformando o rosto em espaço performativo. “As mortes do criador”, como refere a curadora Susana Chiocca, funcionam como um género de ressurreição, ganham vida quando vestidas, mas as máscaras existem por si só. Muitas vezes, mais do que uma ferramenta para esconder algo, a máscara atua como meio de revelação. Encontra-se constantemente em potência, por coexistir com a condição de infinitude – a múmia abre espaço para as várias representações do eu.
Thales Luz, Cavalgada Selvagem (2021). Vídeo instalação, © Susana Chiocca
Ao fundo da sala, duas grandes projeções de vídeo, da autoria de Thales Luz, completam o fim dum percurso. Do lado direito, sobre uma parede lisa branca, é projetada a imagem de uma figueira em movimento. Despida de folhas, apenas com os seus numerosos embaraços de galhos e ramos à vista, parada no tempo, é o local de abrigo e relação de um corpo masculino que por ela sobe e desce. Ambos nus, expostos ao mundo exterior, remontam ao início da história. Parece quase inevitável a associação à história do Génesis - quando, após terem sucumbido ao pecado, Adão e Eva, agora desprovidos de graça, se cobrem com folhas de figueira, em vergonha. A “figueira do inferno” expõe essa condição de fragilidade e vulnerabilidade do corpo em relação com o mundo. Já o vídeo adjacente, projetado sobre uma parede enviesada, revela o paradoxo do ser humano na relação consigo próprio e com a natureza – a procura por conexão e o medo de a alcançar. Desenvolvido em colaboração com o coreógrafo Diogo Braga, este segundo vídeo apresenta-nos a passagem por uma floresta tropical densa e verdejante, que acolhe um corpo em sofrimento. Torce-se e mexe-se por entre as árvores como um “BITCHO” [1]. Quererá ele expelir algo que lhe atormenta a existência? O movimento conturbado e dinâmico de câmara da “Cavalgada Selvagem”, parece influenciar o espaço envolvente. A imagem que escapa para as paredes de pedra e para o teto, contribui para essa sensação de andamento, todo o espaço se mexe a dado momento. A porta entreaberta, um “acaso feliz”, segundo Susana Chiocca, funciona como uma passagem e convida o espectador a entrar no próprio vídeo, ou passar para lá dele. “Quanto mais nos aproximamos, quanto mais perto parecemos estar, novos eus se revelam.” [2] E então, lá vai ele, para longe...
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Notas [1] Referência à obra performática de Susana Chiocca, intitulada “BITCHO”.
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