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ARQUIVO:


AMELIA TOLEDO

LEMBREI QUE ESQUECI




CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL SÃO PAULO
Rua Álvares Penteado, 112 - Centro CEP: 01012-000 | São Paulo (SP) (11) 3113-3651 ccbbsp@bb.com.br
CEP: 01012-000 | São Paulo (SP)

12 OUT - 08 JAN 2018

A triunfal saída de Amelia Toledo

 

O final da vida da artista plástica Amelia Toledo teve um desfecho triunfal. Um mês depois de inaugurar sua grandiosa individual no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), a artista de 90 anos faleceu enquanto dormia, no dia 7 de novembro. A exposição no centro histórico de São Paulo celebrava seis décadas de carreira da artista, que completaria 91 anos no mês de dezembro.

A mostra Lembrei que Esqueci logo virou uma retrospectiva ainda mais emblemática depois do falecimento de sua homenageada. De repente, as pessoas envolvidas na sua produção passaram a empregar os verbos no passado – e não mais no presente – quando se referiam à Amelia. Com mais de 60 trabalhos, a exposição com curadoria de Marcus de Lontra Costa fazia um percurso pelo processo criativo da artista paulistana, cuja pesquisa principal era muito mais plástica do que conceitual: o comportamento dos materiais, o toque dos diferentes tecidos, as formas e o estudos das cores marcam toda sua obra. O título da mostra remete à condição da velhice da própria Amelia: em uma de suas obras, Poço da Memória – Dedicado a meu pai, um cilindro espelhado reflete diversas vezes a frase “Lembrei que esqueci”.

Aluna de pintura de Anita Malfatti na década de 30 e do japonês Yoshiya Takaoka, com quem estudou nos anos 1940, Amelia também enveredou como desenhista de projetos no escritório do arquiteto Vilanova Artigas, além de desenvolver livros de artista, padronagens de tecidos e trabalhos em joia. Entre a psicodelia formada por reflexos e projeções que requerem a participação do espectador, e obras táteis e públicas presentes em museus como o MAM (Museu de Arte Moderna) e a estação Brás de Metrô, em São Paulo, Amelia tinha como grande objetivo facilitar a aproximação entre a sua obra e o público.

A instalação Praça das cores do escuro, por exemplo, estava na entrada do prédio de arquitetura neoclássica do CCBB que, datado de 1901, foi reformado em 1927 para ser a sede do Banco do Brasil, e virou uma instituição cultural nos anos 90. A obra é formada por uma bobina gigante de aço inox espelhado e blocos de pedras quartzo rosa, azul e verde que ficavam espalhadas pelo espaço. Trazidas de pontos isolados do Brasil, as pedras tinham sua imagem transfigurada pela bobina, assim como o reflexo do próprio visitante que passeava por entre as curvas da instalação. Para Amelia, a arte era uma maneira de aproximar o homem e a natureza – ou, pelo menos, questionar a sua ambígua relação.

Grande destaque da exposição em cartaz até o começo de janeiro também era a sala localizada no subsolo do edifício onde, antigamente, era guardado o cofre do banco. Escura e iluminada apenas por pontos de luz, ela foi ocupada por grossos totens de concreto que sustentavam cristais parcialmente polidos para encaixar perfeitamente nas colunas. Intituladas Dragões Cantores e Impulsos, as séries podiam ser tocadas: em diversos locais do Brasil, acredita-se que as pedras têm um grande poder energético.

A harmonização com a natureza também estava presente em obras como Fatias de Horizonte, em que longas chapas de aço oxidadas têm uma faixa superior espelhada, com o propósito de refletir as cores do céu. Em Penetrável de Terras, obra semelhante àquela apresentada na 29a Bienal de São Paulo, em 2010, a artista construiu um ambiente de tecidos em que o visitante era convidado a passear por suas cores terrosas.

Além das conchas, areia e formas orgânicas, Amelia também escolhia trabalhar com materiais ordinários como tubos de PVC preenchidos por água e corantes e vidros soprados que guardavam bolhas de sabão. A ideia era que o público manuseasse Medusa e Glu-Glu como pinturas objetificadas e mutáveis.

Se hoje se fala tanto em arte interativa, pode-se considerar que Amelia é uma das precursoras deste tipo de arte no Brasil. Por isso, o respeito com seu legado é simples: que sua arte experimental continue à disposição da interação com seu espectador. E assim, se manterá vivo o pacto que a artista tão brilhantemente construiu entre sua obra e o público durante seus 60 anos de carreira.



JULIA FLAMINGO