|
|
AGNES ESSONTI LUQUEHOTEL DEL ARTEFACTO EXPOLIADOMUSEO NACIONAL DE ANTROPOLOGÃA - MADRID C. de Alfonso XII, 68, Retiro 28014 Madrid, Espanha 06 FEV - 24 MAI 2026
Questionada Agnes Essonti Luque sobre se foi um pedido feito pela artista, na sua primeira exposição individual, “Hotel Del Artefacto Expoliado”, constar o subtítulo “Un proyeto de Agnes Essonti Luque”. Ao entrar no Museu Nacional de Antropologia de Madrid, a exposição de Essonti Luque é uma abertura – dentro das diversas ações e posicionamentos do museu – para se refletir em conjunto novas dinâmicas, através das perspectivas de existência e pesquisa da identidade afrodescendente. Não se trata de uma construção completamente fora dos mecanismos do museu, configura-se como um nicho do cérebro. Nesse diálogo, há paredes e chão pretos, assim como paredes de um avermelhado, alaranjado, de tons terra. Essa cor faz lembrar a areia vermelha característica de muitos países africanos, o óleo de palma e o tom do crustáceo camarão. Nome dado pelo explorador português Fernando Pó, no século XV, ao chegar à foz do rio Wouri e observar muitos crustáceos, chamando a região de Rio dos Camarões. Com o tempo, passou a designar todo o território, e hoje o país é conhecido como Camarões. A artista tem consciência do seu pensamento com fortes influências europeias, por ter nascido e crescido em Espanha, mas também das experiências quotidianas de vida transmitida pela família da África Central no continente europeu e nas viagens que faz aos Camarões, o país a que também pertence. Na mostra de Agnes, o museu é um hotel: lugar de habitação temporária, espaço de transição e reconfiguração, onde o artefacto deixa de ser objeto fixo e passa a ocupar um lugar instável, habitado – entre memória, deslocação e restituição. Esta atmosfera expográfica incorpora qualquer pessoa que visite a exposição. No ambiente criado pelas cores das paredes e chão, as luzes fundem-se com o letreiro roxo, com a frase:
What I was craving was
Com esta frase ou estas frases que formam um texto, um poema, sem pontos finais, Essonti Luque parece trazer à verdade do seu pensamento a cor roxa que romantiza o sentido das palavras, permitindo uma interpretação que acarreta todo o peso da exotização sobre o continente africano. Desde o “calor dos trópicos” ao “cheiro” de tudo o que compõe a ideia lusotropicalista. Ao longo da exposição é possível verificar o reflexo das obras umas nas outras, compondo a estrutura como elemento artístico presente. São três salas. O letreiro está refletido sobre as vitrines com artefactos do arquivo do museu, a que a artista teve acesso. Agnes Essonti Luque intensifica essa reflexão ao expor artefactos do arquivo escolhidos tendo como ponto crucial a memória do seu corpo. Apresenta estas peças distanciando-se das descrições formais existentes nos museus de antropologia e compreendendo que a pós-memória também a retira da possibilidade de dar continuidade a lógicas coloniais. Questionando a musealização, os artefactos vêm acompanhados com placas que explicam mais do que a utilidade do objeto, como o seu simbolismo, de que forma chegaram ao território espanhol e todas as vidas que interagiram com os mesmos. A pós-memória aqui aparece como responsabilidade ética, mas também como criatividade: a artista recria a história, não apenas a observa. Entre as peças ativadas, há uma coroa da etnia Iorubá, proveniente de uma coleção privada francesa que foi para o museu; e um sino denominado bi-leebo, da ilha de Biko, no Golfo da Guiné, usado em rituais para combater o mal e a dor. Entendendo as várias dimensões políticas e sociais que abordam o tema da restituição, Agnes contribui colocando a população em contacto ativo com a sensibilidade dos objetos, partilhando toda a informação que recebeu das conversas que teve com a equipa do museu sobre os caminhos feitos para cada uma daquelas peças estarem ali, neste momento. Porque é que aquelas peças desenvolvidas e utilizadas por povos africanos estão no Museu de Antropologia de Madrid? Como essas peças chegaram a este continente? Foram antropólogos que doaram, exploradores e coleções privadas de pessoas que viviam em África ou foram para África à procura de adornos para as suas casas, que Agnes Essonti identifica como diferentes questões que movem dinâmicas coloniais. Noutra vitrine com fotografias dos quitutes da terra como beignets, o safou e o óleo de palma, por exemplo, está refletida a fogueira e as palavras do filme Si te lo cuento, dirás que es mentira. A artista, ao ler as resenhas no Google feitas à Embaixada dos Camarões, depara-se com a frase que intitula o vídeo projetado na mostra. O filme constitui-se pelas respostas dadas pelos habitantes dos Camarões relativamente à ideia que Agnes Essonti Luque leu de um antropólogo espanhol de que os africanos são canibais. Muitas pessoas respondiam que era verdade e acrescentavam que eram sempre pessoas de outros países e/ou que o canibalismo era espiritual. A conversa passa-se numa cozinha com uma fogueira e o filme está projetado numa instalação que imprime a energia das interações que acontecem nas cozinhas de famílias africanas. O ato de nutrição surge não só do gesto de preparar os alimentos e comer, mas também, da comunicação entre todos no espaço. Do momento contemplativo e de descanso, descrito também pela presença de uma cama, em frente à projeção, forrada com o material dos sacos de plástico para uso comercial, doméstico e em viagens, típicos em vários países africanos. Estas materialidades e gestos tornam-se lugar de pertencimento e casa. Observando a pesquisa de Agnés Essonti Luque sobre a comida, percebemos como pensa as simbioses características da identidade e da memória. Num espaço com o tamanho perfeito, as obras estão perto umas das outras e, simultaneamente, com o distanciamento necessário para que seja possível entender o que liga e separa as obras de arte. Numa das performances em registo fotográfico, a artista pensa no colonialismo mental, através da reflexão sobre a importância do Orí na cultura Yorubá. Veste-se de exploradora, coloca um casque colonial e caminha pela cidade de Limbe, mais especificamente em Down Beach. A artista assume o cargo, a responsabilidade, coloca em debate que apesar de ser uma mulher negra, como pessoa nascida e criada na diáspora e sobretudo como fotógrafa, também reproduz dinâmicas coloniais na imagem e na antropologia. Na fotografia, Agnes Essonti Luque aparece desfocada dentro da paisagem da Down Beach, evocando uma presença espiritual e retirando o foco da sua forma. Usa um casque colonial - chapéu de proteção solar usado sobretudo pelos colonizadores do século XIX à primeira metade do século XX, e reitera a pertinência do seu trabalho, tanto no sarcasmo como na urgência de questionar o sistema e os papéis que nele se exercem. A paisagem de Down Beach atualmente é um espaço de lazer e turismo atravessado por marcas gritantes do colonialismo. A exploração permanece com a presença de uma empresa petrolífera, espaço de extração, poluição e interesses económicos globais. Estas tensões políticas envolveram disputas territoriais, obrigou o deslocamento e a marginalização das populações locais, aumentando a pobreza e a instabilidade. Curioso é pensar que muitas das tensões não aconteceram diretamente em Limbe porque há uma necessidade de proteção dos recursos naturais que são extraídos. A população sofre com as consequências das tensões, num local que parece calmo. A reflexão estende-se para as imagens desta performance transferidas sobre tecidos rendados da avó da artista, contrapondo o casque colonial usado pelos colonos também para evitar enfermidades e as bruxarias de que tinham receio. As obras de arte rodeiam-se de nzimbo.
Vista da exposição, Agnes Essonti Hotel Del Artefacto Expoliado, Museo Nacional de Antropología, Madrid. © Filipa Bossuet
Agnes Essonti Luque cria um tapete de entrada de casa, uma peça de arte com a frase VOLVER A CASA. Um exercício contínuo e quotidiano de constatar a crise de habitação na Europa. O ato de regressar para compreender o passado e restituir o presente, continuar, através da arte. Escutar o seu corpo, a terra. Mergulha-se no olhar da artista em interação com o espaço geográfico em que, antes de registar, primeiro viveu. Hotel Del Artefacto Expoliado trata-se definitivamente de um projeto, é uma construção que acompanha os movimentos da ancestralidade, sendo a criação fotográfica e têxtil da artista – a participação da irmã nos desenhos que acompanham os textos das curadoras Awa Konaté e Rosa Lleó – a própria continuidade. E que bom que o Museu de Antropologia de Madrid teve abertura para entender os caminhos que lhe foram apresentados.
Filipa Bossuet

|



























