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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição, Agnes Essonti Hotel Del Artefacto Expoliado, Museo Nacional de Antropología, Madrid. © Filipa Bossuet


Vista da exposição, Agnes Essonti Hotel Del Artefacto Expoliado, Museo Nacional de Antropología, Madrid. © Filipa Bossuet


Vista da exposição, Agnes Essonti Hotel Del Artefacto Expoliado, Museo Nacional de Antropología, Madrid. © Filipa Bossuet


Vista da exposição, Agnes Essonti Hotel Del Artefacto Expoliado, Museo Nacional de Antropología, Madrid. © Filipa Bossuet


Vista da exposição, Agnes Essonti Hotel Del Artefacto Expoliado, Museo Nacional de Antropología, Madrid. © Filipa Bossuet


Vista da exposição, Agnes Essonti Hotel Del Artefacto Expoliado, Museo Nacional de Antropología, Madrid. © Filipa Bossuet


Vista da exposição, Agnes Essonti Hotel Del Artefacto Expoliado, Museo Nacional de Antropología, Madrid. © Filipa Bossuet


Vista da exposição, Agnes Essonti Hotel Del Artefacto Expoliado, Museo Nacional de Antropología, Madrid. © Filipa Bossuet


Vista da exposição, Agnes Essonti Hotel Del Artefacto Expoliado, Museo Nacional de Antropología, Madrid. © Filipa Bossuet


Vista da exposição, Agnes Essonti Hotel Del Artefacto Expoliado, Museo Nacional de Antropología, Madrid. © Filipa Bossuet


Vista da exposição, Agnes Essonti Hotel Del Artefacto Expoliado, Museo Nacional de Antropología, Madrid. © Filipa Bossuet


Vista da exposição, Agnes Essonti Hotel Del Artefacto Expoliado, Museo Nacional de Antropología, Madrid. © Filipa Bossuet


Vista da exposição, Agnes Essonti Hotel Del Artefacto Expoliado, Museo Nacional de Antropología, Madrid. © Filipa Bossuet

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ARQUIVO:


AGNES ESSONTI LUQUE

HOTEL DEL ARTEFACTO EXPOLIADO




MUSEO NACIONAL DE ANTROPOLOGÃA - MADRID
C. de Alfonso XII, 68, Retiro
28014 Madrid, Espanha

06 FEV - 24 MAI 2026


 

Questionada Agnes Essonti Luque sobre se foi um pedido feito pela artista, na sua primeira exposição individual, “Hotel Del Artefacto Expoliado”, constar o subtítulo “Un proyeto de Agnes Essonti Luque”.
Respondeu que não, que o próprio museu definiu assim e ela aceitou.

Ao entrar no Museu Nacional de Antropologia de Madrid, a exposição de Essonti Luque é uma abertura – dentro das diversas ações e posicionamentos do museu – para se refletir em conjunto novas dinâmicas, através das perspectivas de existência e pesquisa da identidade afrodescendente.

Não se trata de uma construção completamente fora dos mecanismos do museu, configura-se como um nicho do cérebro.

Nesse diálogo, há paredes e chão pretos, assim como paredes de um avermelhado, alaranjado, de tons terra. Essa cor faz lembrar a areia vermelha característica de muitos países africanos, o óleo de palma e o tom do crustáceo camarão. Nome dado pelo explorador português Fernando Pó, no século XV, ao chegar à foz do rio Wouri e observar muitos crustáceos, chamando a região de Rio dos Camarões. Com o tempo, passou a designar todo o território, e hoje o país é conhecido como Camarões.
Estes tons evocam trajetórias geográficas e históricas, da exploração portuguesa à vivência contemporânea da diáspora.

A artista tem consciência do seu pensamento com fortes influências europeias, por ter nascido e crescido em Espanha, mas também das experiências quotidianas de vida transmitida pela família da África Central no continente europeu e nas viagens que faz aos Camarões, o país a que também pertence.

Na mostra de Agnes, o museu é um hotel: lugar de habitação temporária, espaço de transição e reconfiguração, onde o artefacto deixa de ser objeto fixo e passa a ocupar um lugar instável, habitado – entre memória, deslocação e restituição.

Esta atmosfera expográfica incorpora qualquer pessoa que visite a exposição.

No ambiente criado pelas cores das paredes e chão, as luzes fundem-se com o letreiro roxo, com a frase:

 

What I was craving was
The smell of the land,
Fresh water,
The sun shining bright

 

Com esta frase ou estas frases que formam um texto, um poema, sem pontos finais, Essonti Luque parece trazer à verdade do seu pensamento a cor roxa que romantiza o sentido das palavras, permitindo uma interpretação que acarreta todo o peso da exotização sobre o continente africano. Desde o “calor dos trópicos” ao “cheiro” de tudo o que compõe a ideia lusotropicalista.
O letreiro néon muito utilizado para publicitar o comércio de produtos demonstra a complexidade da exotização, ao se pensar na instrumentalização e depredação dos recursos naturais e culturais do continente africano.
Ao mesmo tempo, reflete sobre a imaginação da diáspora negra – antes da vivência direta – sobre o que poderá ser o continente.
Todas estas camadas, expressas com sarcasmo, trazem uma noção baseada por experiências de contacto impostas, desejadas e requalificadas.

Ao longo da exposição é possível verificar o reflexo das obras umas nas outras, compondo a estrutura como elemento artístico presente. São três salas. O letreiro está refletido sobre as vitrines com artefactos do arquivo do museu, a que a artista teve acesso.

Agnes Essonti Luque intensifica essa reflexão ao expor artefactos do arquivo escolhidos tendo como ponto crucial a memória do seu corpo. Apresenta estas peças distanciando-se das descrições formais existentes nos museus de antropologia e compreendendo que a pós-memória também a retira da possibilidade de dar continuidade a lógicas coloniais.

Questionando a musealização, os artefactos vêm acompanhados com placas que explicam mais do que a utilidade do objeto, como o seu simbolismo, de que forma chegaram ao território espanhol e todas as vidas que interagiram com os mesmos. A pós-memória aqui aparece como responsabilidade ética, mas também como criatividade: a artista recria a história, não apenas a observa.

Entre as peças ativadas, há uma coroa da etnia Iorubá, proveniente de uma coleção privada francesa que foi para o museu; e um sino denominado bi-leebo, da ilha de Biko, no Golfo da Guiné, usado em rituais para combater o mal e a dor.

Entendendo as várias dimensões políticas e sociais que abordam o tema da restituição, Agnes contribui colocando a população em contacto ativo com a sensibilidade dos objetos, partilhando toda a informação que recebeu das conversas que teve com a equipa do museu sobre os caminhos feitos para cada uma daquelas peças estarem ali, neste momento.

Porque é que aquelas peças desenvolvidas e utilizadas por povos africanos estão no Museu de Antropologia de Madrid? Como essas peças chegaram a este continente?

Foram antropólogos que doaram, exploradores e coleções privadas de pessoas que viviam em África ou foram para África à procura de adornos para as suas casas, que Agnes Essonti identifica como diferentes questões que movem dinâmicas coloniais.
A importância deste contacto traz a possibilidade de compreensão e direcionamento da dor, crítica e memória.

Noutra vitrine com fotografias dos quitutes da terra como beignets, o safou e o óleo de palma, por exemplo, está refletida a fogueira e as palavras do filme Si te lo cuento, dirás que es mentira. A artista, ao ler as resenhas no Google feitas à Embaixada dos Camarões, depara-se com a frase que intitula o vídeo projetado na mostra. O filme constitui-se pelas respostas dadas pelos habitantes dos Camarões relativamente à ideia que Agnes Essonti Luque leu de um antropólogo espanhol de que os africanos são canibais. Muitas pessoas respondiam que era verdade e acrescentavam que eram sempre pessoas de outros países e/ou que o canibalismo era espiritual.

A conversa passa-se numa cozinha com uma fogueira e o filme está projetado numa instalação que imprime a energia das interações que acontecem nas cozinhas de famílias africanas.

O ato de nutrição surge não só do gesto de preparar os alimentos e comer, mas também, da comunicação entre todos no espaço. Do momento contemplativo e de descanso, descrito também pela presença de uma cama, em frente à projeção, forrada com o material dos sacos de plástico para uso comercial, doméstico e em viagens, típicos em vários países africanos.

Estas materialidades e gestos tornam-se lugar de pertencimento e casa. Observando a pesquisa de Agnés Essonti Luque sobre a comida, percebemos como pensa as simbioses características da identidade e da memória.

Num espaço com o tamanho perfeito, as obras estão perto umas das outras e, simultaneamente, com o distanciamento necessário para que seja possível entender o que liga e separa as obras de arte. Numa das performances em registo fotográfico, a artista pensa no colonialismo mental, através da reflexão sobre a importância do Orí na cultura Yorubá. Veste-se de exploradora, coloca um casque colonial e caminha pela cidade de Limbe, mais especificamente em Down Beach.
Haciéndome cargo é como Essonti Luque intitula este movimento exposto num primeiro olhar a preto e branco, mas que com um olhar atento às cores dos elementos presentes na fotografia, como por exemplo, as árvores, que parecem revelar as suas tonalidades. Não pela associação da convencionalidade da cor verde à natureza, mas talvez pela câmara fotográfica, a impressão e/ou os reflexos da estrutura expositiva. Neste movimento, os elementos presentes na fotografia são ativados.

A artista assume o cargo, a responsabilidade, coloca em debate que apesar de ser uma mulher negra, como pessoa nascida e criada na diáspora e sobretudo como fotógrafa, também reproduz dinâmicas coloniais na imagem e na antropologia.

Na fotografia, Agnes Essonti Luque aparece desfocada dentro da paisagem da Down Beach, evocando uma presença espiritual e retirando o foco da sua forma. Usa um casque colonial - chapéu de proteção solar usado sobretudo pelos colonizadores do século XIX à primeira metade do século XX, e reitera a pertinência do seu trabalho, tanto no sarcasmo como na urgência de questionar o sistema e os papéis que nele se exercem.
Nestes gestos, ecoam Carrie Mae Weems e Samuel Fosso.

A paisagem de Down Beach atualmente é um espaço de lazer e turismo atravessado por marcas gritantes do colonialismo. A exploração permanece com a presença de uma empresa petrolífera, espaço de extração, poluição e interesses económicos globais. Estas tensões políticas envolveram disputas territoriais, obrigou o deslocamento e a marginalização das populações locais, aumentando a pobreza e a instabilidade. Curioso é pensar que muitas das tensões não aconteceram diretamente em Limbe porque há uma necessidade de proteção dos recursos naturais que são extraídos. A população sofre com as consequências das tensões, num local que parece calmo.

A reflexão estende-se para as imagens desta performance transferidas sobre tecidos rendados da avó da artista, contrapondo o casque colonial usado pelos colonos também para evitar enfermidades e as bruxarias de que tinham receio. As obras de arte rodeiam-se de nzimbo.

 

Vista da exposição, Agnes Essonti Hotel Del Artefacto Expoliado, Museo Nacional de Antropología, Madrid. © Filipa Bossuet

 

Agnes Essonti Luque cria um tapete de entrada de casa, uma peça de arte com a frase VOLVER A CASA. Um exercício contínuo e quotidiano de constatar a crise de habitação na Europa. O ato de regressar para compreender o passado e restituir o presente, continuar, através da arte. Escutar o seu corpo, a terra.

Mergulha-se no olhar da artista em interação com o espaço geográfico em que, antes de registar, primeiro viveu.

Hotel Del Artefacto Expoliado trata-se definitivamente de um projeto, é uma construção que acompanha os movimentos da ancestralidade, sendo a criação fotográfica e têxtil da artista – a participação da irmã nos desenhos que acompanham os textos das curadoras Awa Konaté e Rosa Lleó – a própria continuidade.

E que bom que o Museu de Antropologia de Madrid teve abertura para entender os caminhos que lhe foram apresentados.

 

 

 

 

Filipa Bossuet

É o culminar do interesse pelas artes, jornalismo e tudo o que me faz sentir viva. Nasci em 1998, sou uma mulher do norte com memórias do tempo em Lisboa. Guiada pela sede de informação e pesquisa autónoma licenciei-me em Ciências da Comunicação e penso também sobre as influências dos estudos de mestrado em Migrações, Inter-Etnicidades e Transnacionalismo, criando um diálogo e questionamento entre os campos do saber. Colaborei como jornalista estagiária no Gerador, uma plataforma independente de jornalismo, cultura e educação, e no Afrolink, uma rede online que junta profissionais africanos e afrodescendentes residentes em Portugal. Utilizo performance, pintura, fotografia e vídeo experimental para retratar processos identitários, negritude, memória e cura. O meu trabalho transdisciplinar tem sido apresentado em espaços como a Bienal de Cerveira, Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), Teatro do Bairro Alto, Festival Iminente e o Festival Alkantara.

 



FILIPA BOSSUET