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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Fotografia: António Jorge Silva.


Fotografia: António Jorge Silva.


Fotografia: António Jorge Silva.


Fotografia: António Jorge Silva.


Vista da exposição. Fotografia: José Manuel Costa Alves


Vista da exposição. Fotografia cortesia Gabinete de Comunicação e Imagem da SNBA.


Vista da exposição. Fotografia cortesia Gabinete de Comunicação e Imagem da SNBA.


Vista da exposição. Fotografia cortesia Gabinete de Comunicação e Imagem da SNBA.

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ARQUIVO:


JOÃO JACINTO

A CHUVA CAI AO CONTRÁRIO




SOCIEDADE NACIONAL DE BELAS ARTES
Rua Barata Salgueiro, 36
1250-044 Lisboa

18 JUN - 20 JUL 2019


 

 

This is the act of painting, or the turning point of the painting. There are two ways in which the painting can fail once visually and once manually.
Deleuze (2003) p. 101

 

 

A chuva cai ao contrário, de João Jacinto, expressa um sentimento silencioso e desconcertante através da repetição de uma paisagem contemporânea cujo caminho nos é revelado pela fugacidade do gesto. Todavia, este percurso multiplica-se na ilusão que é desconstruída pelo movimento e pelas imagens análogas entre si, que nos lembram a «coisa-em-si» da natureza.

Esta obra de João Jacinto, que podemos ver na Sociedade Nacional de Belas-Artes, não é apenas uma sequência ou uma paisagem panorâmica onde o observador contempla, mas um movimento dado pela diferença que se exacerba pela matéria e pelo ímpeto do gesto.

Cor, movimento e repetição criam o assombro.

«Poço profundo, sombrio, insondável no seu fascínio», reforça Nuno Faria.

Provoca-nos uma sensação sombria e de inquietação no ser humano, que se desvela na condenação dela mesma. O artista projeta através da sensação operada nas cores escuras e húmidas da chuva, o movimento angustiante do traço, o que também é percetível na expressão «unlocks areas of sensation», de Bacon, em relação à sua pintura (Deleuze, 2003, p. 102).

Em João Jacinto, o ato de pintar expande-se para fora do campo de ação, como uma forma de colapsar as coordenadas visuais do espectador. Esta experiência visual que nos é incutida subtilmente influencia o sentimento estético. «Tudo é silêncio neste tempo que aqui repetidas vezes suspende o seu voo» confirma Jorge Silva Melo.

Assim, o pintor diferencia em cada imagem o «diagrama» da pintura, onde é exercida a intensidade da cor e sensação. Todavia, o espectador situa-se fora e dentro da ação do espaço, simultaneamente, numa ideia muito semelhante ao que afirma Merleau-Ponty (1992, p. 48): «Eu não vejo de acordo com o meu invólucro exterior, vivo-o de dentro, estou nele englobado. Seja como for, o mundo está à minha volta, não à minha frente.»

 

Fotografia: António Jorge Silva.

 

Jacinto cria uma relação de proximidade entre a mão e o olho, conseguida pela multiplicidade do gesto orgânico e dinâmico, originando tensões na pintura. Esta descentralização do campo de visão sugerida pela sequência serial das imagens pictóricas permite insinuar uma espécie de «espaço-ideal» de ação, onde ecoa o corpo através do movimento «mão-olho». Em contrapartida, o artista não consegue resistir a aniquilá-lo através do ato performativo repetitivo nas obras.

Entre o ritmo e a violência do gesto, abraçamos o caos e a tragédia. E, com a predominância da cor sombria, o autor enaltece uma dimensão catastrófica na sua pintura, no acidente e na falha do fluir:

 

Yet this same lack of time dictates a form of action that is not directed towards any particular goal and that can be interrupted at any moment. Such an action is conceived from the beginning as having no specific ending – unlike an action that ends when its goal is achieved. Thus artistic action becomes infinitely continuable and/or repeatable. (Groys, 2016, p. 57)

 

Esta falha apresentada no movimento interrompe o fluir, como se o acidente marcasse a presença da tragédia da obra.

Tudo se revela efémero e frágil.

Do gesto à cor. Do movimento ao acidente. Da chuva que cai à superfície da matéria.

O corpo ausente que avança inevitavelmente entre as obras.

Um espectador que contempla a experiência da sensação da falha. Sentimos a minúcia do detalhe que se solta livremente da pintura. Na ilusão de um caminho infinito e repetitivo. Numa melancolia permanente, vivenciamos a emoção e testemunhamos as palavras entoadas por Nietzsche (1996, p. 163):

 

No meio desta exuberância de vida, de sofrimento e de alegria, na plenitude de um êxtase sublime, a tragédia escuta um canto longínquo e melancólico.

 

 

 

 



JOANA CONSIGLIERI