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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição: RISE, de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca. Fotografia: José Frade. Cortesia Galerias Municipais.


Vista da exposição: RISE, de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca. Fotografia: José Frade. Cortesia Galerias Municipais.


Vista da exposição: RISE, de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca. Fotografia: José Frade. Cortesia Galerias Municipais.


Still de ESTÁS VENDO COISAS, de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, 2016.


Still de ESTÁS VENDO COISAS, de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, 2016.


Still de ESTÁS VENDO COISAS, de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, 2016.


Still de ESTÁS VENDO COISAS, de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, 2016.


Still de ESTÁS VENDO COISAS, de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, 2016.


Still de ESTÁS VENDO COISAS, de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, 2016.

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ARQUIVO:


BÁRBARA WAGNER & BENJAMIN DE BURCA 

ESTÁS VENDO COISAS




GALERIA BOAVISTA
Rua da Boavista, 50
1200 Lisboa

16 JAN - 12 ABR 2020


 

 

Num momento de conturbada polarização política no Brasil, crítica a nível educativo e artístico, Bárbara Wagner & Benjamin de Burca procuram desmistificar e desvendar a renovada cultura popular, exaltando-a como impulsão à hegemonia económica, ao mesmo tempo que procuram descodificar, transtornar e refundar clichés, como extinguir e romper com noções tidas como dispares e incompatíveis - bom e mau gosto, alta e baixa cultura, cultura popular e erudita.

Wagner & de Burca desenvolvem uma prática centrada na estrita colaboração com grupos de artistas envolvidos em diferentes géneros performativos. Em projetos anteriores, colaboraram prolificamente com dançarinos de Swingueira (curta-metragem Swinguerra), cantores evangélicos (curta-metragem Terramoto Santo) ou cantores schlager na Alemanha (curta-metragem Bye Bye Deutschand).

Interessados em investigar comunidades e grupos de artistas jovens, normalmente marginalizados ou excluídos da sociedade, a prática artística da dupla é multidisciplinar e incorpora cinema, antropologia, performance, música e dança. As suas obras, matéria representativa de um género cultural e dos elementos que a constituem, situam-se na intersecção entre as belas-artes e a cultura popular, o documentário e a ficção. O objectivo de Wagner & de Burca não é tanto para dar visibilidade a um grupo particular de indivíduos, mas trabalhar com as ideias desses grupos, numa prática artística que anda de mãos dadas com artistas que fazem uso do corpo ou da palavra para subverter determinada situação socioeconómica. O seu trabalho, pretende firmar-se criativamente no ponto exato que cruza o desejo e anseio da dupla (em observar, compreender e questionar) com as vontades artísticas dos artistas com quem colaboram. O que resulta dessa junção é, portanto, a ânsia por cria algo novo a partir de um fazer que é partilhado.

«Estás vendo coisas» é a mais recente exposição da dupla em Portugal patente na Galeria da Boavista, até dia 12 de abril de 2020. Nesta exposição, a dupla apresenta duas instalações fílmicas que exploram o modo como expressões da cultura popular respondem a condições socioeconómicas desafiantes, envolvendo a colaboração de grupos de performers e artistas provenientes de duas origens distintas.

«Estás vendo coisas», sugestivamente, parece antever uma embrionária significação acerca do conteúdo que será apresentado nesta exposição. Usualmente, empregada aquando da descredibilização de algo, esta expressão é tanto questionável quanto reveladora. “Estás vendo coisas” é um “não-acredito”, mas um “conta-me-mais”, dito entre dentes - que se descredibiliza, mas, que se procura, se anseia. Mas, o desconhecido é tentador e tantas vezes denunciador.

É, exatamente, neste território instável da incerteza e da dúvida, entre o real e o fantasiado, do popular e do marginalizado, entre o documental e o encenado, que a prática artística da dupla se insere. Nesta exposição que agora se apresenta na Galeria da Boavista, as obras focam-se na música brega do norte do Brasil (Estás Vendo Coisas, 16’, Brasil, 2016) e na poesia spoken word em Toronto, Canadá (RISE, 21’, Canadá/EUA/Brasil, 2018).

É, então, em estado duvidoso, incerto, de importância apenas limitada, presa em relação à compreensão que temos dela, que entramos transviados à procura do desconhecido, das obras e das «coisas», que Wagner e De Burca têm para nos mostrar.

No piso térreo da Galeria da Boavista, apresenta-se o primeiro dos dois filmes, RISE. Tendo como pano de fundo os espaços subterrâneos da cidade de Toronto; uma recente extensão de metro torna-se palco de encontros artísticos, onde um grupo de jovens rappers, poetas e cantores exibem a sua poesia, spoken word e música para exprimirem os seus sentimentos em relação ao contexto social em que habitam.

Os protagonistas do filme, para quem o ritmo e a poesia são um acto de empoderamento e auto-expressão, são membros do grupo R.I.S.E., um anacronismo para «Reaching Intelligent Souls Everywhere», um movimento liderado por jovens que organiza sessões de poesia em centros comunitários nos arredores da cidade, de forma a partilharem histórias e experiências pessoais. O movimento é formado por parcelas historicamente marginalizadas da população da cidade, composta principalmente por jovens de primeira e segunda geração descendentes de africanos e caribenhos nascidos no Canadá.

RISE tornou-se uma plataforma de arte expandida que incentiva a população da cidade para a inclusão no campo das artes do espetáculo através do conceito de edutainment - uma junção entre educação e entretenimento, popularizado pelo rapper KRS - One, uma figura fundamental no entendimento do papel do hip-hop na formação de comunidades. (Edutainment dá nome ao álbum de 1990 do rapper norte-americano e foi um dos primeiros exemplos onde o hip-hop incorpora comentários políticos e sociais de forma a refletir e consciencializar através da música).

Nesta curta, que venceu o Audi Short Film Award no Festival de Cinema de Berlim de 2019, os performers têm controlo total sobre a forma como são apresentados e a dupla dirige o olhar para essa nova geração de artistas que usa a palavra de diferentes modos e mediante distintas abordagens. Desde o canto, a leitura, o recital, ou até da cypher (batalhas de rimas entre rappers), a curta reúne os interesses e as perspetivas dos protagonistas de forma plural e multifacetada. De facto, a sua colaboração não visa gerar consenso ou enviar uma mensagem unânime, antes, almeja tornar claro pontos de vista diversificados provenientes de um mesmo esforço coletivo. Cada uma das vozes, que se ouvem na curta-metragem, tem o seu próprio peso, nenhuma intervenção é mais importante que outra e juntas representam uma comunidade feita de singularidades, onde afinidades e divergências se tornam parte de um diálogo cultural partilhado.

A escolha da recente extensão de metro como cenário, que liga as periferias ao centro da cidade, não acontece por acaso. Para além destas novas galerias subterrâneas simbolizarem uma nova forma destes protagonistas chegarem ao centro da cidade diariamente, também têm outras implicações mais profundas, nomeadamente uma que a relaciona com o território que ocupam. Nestes túneis de metro, os performers atuam e expressam a sua arte, não importando o seu ponto de partida ou o seu destino, apenas o seu caracter transitório - uma intenção que remete para uma continuidade e passagem.

O metro é aqui signo do contraponto entre o dia a dia citadino e os pensamentos que se constroem diariamente, sobretudo em «não-lugares» (estações de comboio ou metro, paragens de autocarro, aeroportos ou salas de espera) enquanto esperamos. De facto, estes locais de fluxo social intermitente, difusos e indiferentes, são locais propícios para a abstração do pensamento, como se o vazio que nos envolve revelasse afinal aquilo que realmente somos. Nesse sentido, o metro pode ser lido como espaço indeterminado e indefinido, mas onde se pode refletir sobre questões mais profundas, como a complexa natureza da identidade. Sendo descendentes de emigrantes africanos e caribenhos, os protagonistas sentem-se alienados na busca de encontrar o seu verdadeiro território – não se sentem exatamente canadianos nem possuem muitas ligações ao seu país de origem - , fazendo parte de uma nova geração que está a tentar redefinir o seu lugar no país, negociando diferentes maneiras de se influir neste. Através do poder das palavras e da linguagem, estes jovens artistas encontram um território comum, para lidar com as complexidades da identidade, reconhecendo na cultura e na música um modo de explorar as suas crenças, sentimentos, personalidades e aspirações.

Nesse contexto, a palavra falada torna-se uma plataforma, um estágio e meio de resistência para eles. Através das suas palavras poéticas, instrutivas e poderosas, onde se destacam valores como o amor, o trabalho e a justiça, os jovens tentam afastar-se de noções redutoras em relação às suas origens - estigmatizados pela criminalidade e violência -, antes tornar a poesia mesclada com o hip-hop, num elemento de integração social (numa vizinhança anteriormente em conflito). Tecendo uma narrativa assente na subserviência e na resistência, as suas palavras e música, que abordam a pertença, identidade, liberdade, amor e esperança-, misturam-se com os tuneis do metro, e são ainda capazes de revoltar os comuns códigos e símbolos da indústria americana do rap e hip-hop, como a glorificação do crime e a objetificação do corpo feminino.

A óbvia tensão, entre o aspeto documental do filme e a maneira cuidadosamente encenada como os performers se apresentam e expressam, adensa-se à medida que Wagner & de Burca misturam a banalidade das rotinas quotidianas com a densidade dos seus significados. Graças à sua rigorosa composição visual, a curta-metragem chama à atenção, talvez mais preeminentemente que nunca, para o extremo cuidado técnico e estético que percorre a produção da dupla. O rigor do cinema e a grande qualidade de som e imagem de Wagner & de Burca constituem-se como matéria legitimadora de um esforço que promove uma relação empática com o conteúdo do trabalho.

Este documentário experimental, que aborda o hip-hop como filosofia e centrado no ritmo e na harmonia coletiva, expõe o modo como as palavras podem ser impulsionadoras de reflecções mais profundas, que desmistificam estereótipos e categorizações fáceis, dando lugar ao ressurgimento e à resistência cultural e social fundada na autoexpressão de uma nova geração que se quer relacionar de forma distinta com as normas que querem contestar, a identidade que querem construir e desconstruir e as feridas que se desejam curar.

No primeiro piso da galeria, apresenta-se o segundo filme, Estás Vendo Coisas, obra que dá o nome à exposição.

Fortemente associado ao mau gosto, o brega é um termo informal para definir várias formas de música popular de massa produzidas no Brasil desde os anos 70 do século XX. Em duas linhagens, funk e romântico, o brega é música, dança, cena cultural e economia criativa na periferia do Recife. Uma mistura entre estilos musicais diversificados – Hip-Hop Americano, Techno Brasileiro e Reggaeton Caribenho – o brega surgiu como resposta à bossa nova e os seus hits eróticos, ostensivos e amorosos extrapolam os limites socioeconómicos dos bairros nos quais foram produzidos e integram um panorama musical urbano provocador por todo o país.

Embora à margem do mainstream, este estilo musical é um fenómeno popular no seio da sua comunidade e os seus artistas têm milhões de ouvintes. O género musical, originário da região Pernambucana, tem crescido exponencialmente em admiradores, favorecendo a indústria dos videoclips que é catalisadora de uma evolução que se faz notar a nível económico, profissional e cultural, de olhos postos no sucesso e voltada na direção da fama, como tanto promete o capitalismo.

Revelando de que forma um estilo de música pode ser sinónimo evolutivo de uma região, esta curta-metragem acompanha os dois protagonistas principais - Dayana Paixão, bombeira e cantora romântica; MC Pork, cabeleireiro e rapper brega-funk – pelos seus distintos estágios diários, ora como personalidade ora como personagem, intercalando o seu percurso entre trabalho, estúdio e palco. Escrita e encenada por estes protagonistas, a obra revela o inevitável aspeto comercial deste estilo e investiga os bastidores de vídeoclips da música brega onde cantores, MC’s, DJ’s, bailarinos, produtores, empresários e publico confluem.

Em Estás Vendo Coisas, o clube noturno Planeta Show transforma-se num cenário idílico para a contaminação da música brega. No local, todo o aparato de artificialidade, parece assemelhar-se a um cenário de ficção-científica futurista, embrenhado entre letreiros néon, luzes estroboscópicas e telas omnipresentes, onde até os protagonistas parecem pertencer a um mundo fantasiado e futurista, tal a teatralidade dos seus gestos, a saturada cor das suas roupas e a sobrecarga dos seus acessórios.

Num esforço para não retratar unilateralmente este estilo musical e rejeitando as perspetivas simplistas e redutoras sobre este, a dupla é capaz de recriar e encenar uma identidade diversificada do brega, revelando a escolha de figurinos e maquilhagem, a gravação dos clips, a apresentação em clubes noturnos e as entrevistas na rádio ou a sua ida a programas de televisão.

A enigmática e misteriosa curta-metragem deixa pontas soltas, vestígios dúbios e incertos, acerca da sua natureza autoral - deambulando entre o documentário e a construção de uma fábula. A ficcionalidade esbarra contra a verossimilhança. A artificialidade postiça, as corres berrantes e a realidade-plástico-de-bolha do clube noturno, contrastam com um cenário do nordeste brasileiro, que nada tem de idílico ou paradisíaco. Os artistas recorrem a um grande rigor técnico e composicional, situando estas imagens num espaço ambíguo, entre a aparência de um testemunho e a artificialidade inerente ao seu jogo de encenação.

Porém, por detrás de todo um mise-en-scène artificial, os protagonistas parecem, por vezes, de certa forma desfasados daquele contexto (vibrante e estridente dos videoclips), percetível não pela forma que se apresentam, mas pela alienante expressão facial que denotam. Wagner e de Burca não deixam ainda de mostrar as montanhas de lixo ao lado de carros desportivos –sem perder de vista questões sociais e económicas, mas esse não é o seu foco central. O filme adota um certo tom psicológico e melancólico – muitas vezes a música acaba demasiado cedo e observa-se os dançarinos a mover-se estranhamente ao som de um nada -, normalmente nunca retratado ou associado ao brega, de forma a refletir como uma expressão cultural responde a uma questão económica.

De facto, esta dicotomia criada, entre o real e o artificial, é o que a afasta a obra de tornar-se exageradamente excessiva visualmente (abordagem fácil dada a exuberância visualmente forte). As reentrâncias visuais do cenário conturbado socialmente da zona, bem como o tom psicológico que a curta é capaz de atingir, é o que a torna deveras humana.

O olhar de Wagner & de Burca em relação a estes protagonistas e ao género musical que representam e sob o qual se regem, nem é satírico nem misericordioso, moralista ou censurador - Dayana e MC Porck são-nos apresentados como qualquer outro artista emergente, em busca pela realização profissional. O que os move é a transversalidade da diversidade cultural brasileira, expondo a representatividade cultural que assume vários protagonistas que emergem dos mais diversos cenários.
 

 

Francisca Correia
Aluna de Programação e Produção Cultural na ESAD.CR. Encontra-se neste momento a realizar um estágio curricular na Artecapital, na área de produção e divulgação de conteúdos.



FRANCISCA CORREIA