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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição. Fotografia: cortesia da artista e Galeria Municipal de Arte de Almada.


Vista da exposição. Fotografia: cortesia da artista e Galeria Municipal de Arte de Almada.


Vista da exposição. Fotografia: cortesia da artista e Galeria Municipal de Arte de Almada.


Vista da exposição. Fotografia: cortesia da artista e Galeria Municipal de Arte de Almada.


Vista da exposição. Fotografia: cortesia da artista e Galeria Municipal de Arte de Almada.


Vista da exposição. Fotografia: cortesia da artista e Galeria Municipal de Arte de Almada.

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MAJA ESCHER

UM DIA CHOVEU TERRA




GALERIA MUNICIPAL DE ARTE DE ALMADA
Av. D. Nuno Álvares Pereira, 74 - A
2800-177 Almada

11 JUL - 17 OUT 2020


 

Maja Escher (Alentejo, 1990) apresenta na Galeria Municipal de Arte, em Almada, com curadoria de Filipa Oliveira, a exposição “Um dia choveu terra”, patente até 17 de Outubro de 2020.

É a curadora que nos relata, no texto disponível na folha de sala virtual, que foi com a adivinha “Qual é a coisa qual é ela que quanto mais alto está melhor se lhe chega” que a investigação de Maja sobre a água e sobre a chuva começou. E com ela, também esta exposição. Diz-nos também que toda a poética de Maja se alicerça na relação com as pessoas, em particular com aquelas que trabalham na e com a terra. São “adivinhas, ditados populares, canções, trava-línguas e histórias que pertencem a uma tradição oral” que se constituem como as bases do trabalho que desenvolve e depois apresenta em formato de instalações, tais como a que agora apresenta. Esta exposição, diz-nos ainda, centra-se na figura do Vedor, e apresenta-nos um “conjunto de ferramentas inventadas, mas baseadas numa longa pesquisa que se apropria de métodos do trabalho de campo etnográfico”. É com uma vara em forma de V que, segundo a sabedoria popular, se pode descobrir o lugar perfeito para o lugar de um poço. Vedor é o descobridor de veias de água. “A verga tem de virar sempre na vertical, esteja a gente na posição em que estiver.” - é assim que o coloca Amílcar Ferreira (vedor em entrevista na SIC). A profundidade da água descoberta fica, por norma, por fora dos saberes do vedor, o que inviabiliza por vezes a construção de poços: a água poderá existir em lençóis a uma distância impraticável. O torcer da vara acontece pela presença da água no solo, ou assim se acredita - e a crença, o acreditar na perspectiva ou na imagem do horizonte, é fundamental a esta exposição, mesmo considerando a escassez ou desaparição das águas que o título nos impõe. “A água do poço é a resposta à adivinha do Sr. Luís”, revela Filipa Oliveira.

Nesta exposição há grupos de funis de várias tonalidades, que formam comunidades arredondadas; uma espécie de pequena força musculada que afunila; um garrafão-peso que suspende folhagem; pequenas formas a que nos poderíamos suspender são distribuídas pelas paredes, quase como um convite a que entremos no sistema de circulação que Maja nos apresenta.

A foice, descansada numa outra peça que dá lugar à suspensão, brota flores secas, e tem duas funções - talvez - semear enquanto corta. Os funis deixam de encaminhar a água para encaminharem pó, terra, grão, partículas castanhas com um movimento menos sedutor do que o que o seria o da água: pesam o tempo, neste dia em que choveu terra e em que todo o espaço se tornou uma grande ampulheta e os tic-tacs dos relógios, e os tic-tics da chuva molhada, substituíram-se a um contínuo shhhhhhhh que aboliu todas as referências espaciais: o som subordinou-se à continuidade da queda. Assim o suporia.

Gosto dos desenhos que regem estas fabulações, entre a magia dos aconteceres - da água, da terra, do fogo - e a factualidade das renovações, dos ciclos, da existência; há um espantalho que recolhe a água da chuva e a direcciona para a “mutter regen”, mãe chuva, que pode tomar várias formas - todas elas combináveis na quadrícula do caderno - torna-se assim um decantador de chuva. O que antes levantava os braços para cantar a celebração, agora dirige-se à terra e volta a alimentá-la. E também as formas, que aliciam as descrições. É primeiro sonho, para depois pôr as mãos na terra: “ gigantesco buraco para criar lagoa de retenção da qual saem canais”.

Estações meteorológico-mágicas (foi assim que se descobriu que choveria terra) ligam-se pelas linhas do desenho - que nos dirige o ver e o caminhar pelo espaço - são formas arredondadas pelas mãos que nos dizem que a assertividade da ciência fugiu deste espaço para abrir espaço ao calor da humanidade, digo às mãos que se ligam às coisas, onde os instrumentos há muito foram desinventados para poder criar maravilha, as coisas de “desutilidade poética”, como sonharia Manoel de Barros.
E assim, vão os objectos ligando-se a cima e a baixo, entre setas horizontais que nos fazem percorrer em espaço e tempo lugares apáticos à terra - como é a galeria - aparecem, como amuletos- ferramenta, com os seus desusos que poderemos supor - ou, mais importante, inventar -, mãos, folhas, dentes agrícolas. Se viesse o vento, o que toda a organização parece supor, para que se inunde de vida, de som, para que o vento empurre água, terra e pessoas que ponham a funcionar estes ciclos, círculos, formas e instrumentos inventados por Maja imagina-se a possibilidade de uma comunidade muito bem articulada, na felicidade de inventar o inútil.

O que não funciona, ou melhor, não adere a um modelo de funcionamento, e por isso se livra das capas que nos cobrem, das ansiedades, dos desamores. Ao contrário do vento que soprava em Pessoa, dos “ramos que ali caíram” não “há mágoas e dores/ Destinadas a não ser / Mais que um desfolhar de flores.”; há a força de um trabalho suposto, do trabalho que não é emprego mas actividade, que é força e cânticos e a ancestralidade (ainda que inventada de novo) que evoca, que celebra Maja.

Há no meio deste circuito de objectos - um circuito que quase podemos também percorrer como uma actividade, com uma certa pujança física que se pressupõe no tom, peças que se destacam pelas suposições (tortas, sempre tortas) que a partir delas podem ser feitas. Um desinventado pêndulo de Foucault, sobre o qual se poderia mesmo falar de inspiração: ar levado para dentro do organismo iniciando um ciclo respiratório. Também duas mãos, representações de mãos-luva, se colocam nas extremidades de uma vara, medindo distâncias de segurança para o bom funcionamento destes ciclos que aqui se inventam, repletos de funcionalidades apreendidas de outros lugares, ressignificadas com ênfase na magia.

Um dia choveu terra, e no dia a seguir a esse?



CATARINA REAL