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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Elisa Pone, Falso sol, falsos olhos. Galeria Quadrum, © Guillaume Vieira.


Elisa Pone, Falso sol, falsos olhos. Galeria Quadrum, © Guillaume Vieira.


Elisa Pone, Falso sol, falsos olhos. Galeria Quadrum, © Guillaume Vieira.


Elisa Pone, Falso sol, falsos olhos. Galeria Quadrum, © Guillaume Vieira.


Elisa Pone, Falso sol, falsos olhos. Galeria Quadrum, © Guillaume Vieira.


Elisa Pone, Falso sol, falsos olhos. Galeria Quadrum, © Guillaume Vieira.


Elisa Pone, Falso sol, falsos olhos. Galeria Quadrum, © Guillaume Vieira.


Elisa Pone, Falso sol, falsos olhos. Galeria Quadrum, © Guillaume Vieira.


Elisa Pone, Falso sol, falsos olhos. Galeria Quadrum, © Guillaume Vieira.


Elisa Pone, Falso sol, falsos olhos. Galeria Quadrum, © Guillaume Vieira.


Elisa Pone, Falso sol, falsos olhos. Galeria Quadrum, © Guillaume Vieira.


Elisa Pone, Falso sol, falsos olhos. Galeria Quadrum, © Guillaume Vieira.


Elisa Pone, Falso sol, falsos olhos. Galeria Quadrum, © Guillaume Vieira.


Elisa Pone, Falso sol, falsos olhos. Galeria Quadrum, © Guillaume Vieira.


Elisa Pone, Falso sol, falsos olhos. Galeria Quadrum, © Guillaume Vieira.


Elisa Pone, Falso sol, falsos olhos. Galeria Quadrum, © Guillaume Vieira.

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ARQUIVO:


ELISA PÔNE

FALSO SOL, FALSOS OLHOS | 'COMO UMA LUVA'




GALERIAS MUNICIPAIS - GALERIA QUADRUM
Palácio dos Coruchéus, Rua Alberto Oliveira nº 52
1700-019 Lisboa

21 NOV - 31 JAN 2021


Curadoria: Estelle Nabeyrat 

 

 

 

[Todos os itálicos se referem a citações da conversa entre Catarina Real e Elisa Pône, enquadradas ao longo do texto que se segue.]

 

 

Elisa Pône apresentou, de 21 de Novembro de 2020 a 31 de Janeiro de 2021, a exposição “Falso Sol, Falsos Olhos” na Galeria Quadrum em Lisboa. Apesar do encerramento progressivo das galerias e espaços expositivos devido ao estado de emergência, a exposição de Elisa continuou, sozinha mas não abandonada, com espectadores mais participantes do que a norma das exposições. O espaço da galeria Quadrum, a sua história e a sua fisicalidade, são o mote projectual de Elisa. Esta dimensão é extrapolada também para o espaço digital, trazendo uma outra camada de leitura do espaço e da presença. Apesar de o contexto pandémico não o evidenciar, e esta ser agora uma estratégia contemplada na adaptação do universo artístico que vivia da presença, a mostra do vídeo num espaço desfasado da exposição in loco não é resultado de uma adaptação, mas de uma vontade.

Comecei a trabalhar neste projecto de exposição há mais de dois anos... o sítio estava já carregado por aquele potencial de ter coisas dentro e fora do espaço... A direcção do projecto coincidiu com uma certa “compatibilidade pandémica”.

Conversei com a Elisa sobre esta peça, a única que tive oportunidade de visitar, e que suscitou uma possibilidade particular de leitura da exposição e dos seus propósitos.
Elisa, artista francesa sediada há sete anos em Lisboa, escolheu para o título desta peça vídeo de 2020 (que pode ser consultada no site da artista) uma expressão utilizada em ambas as línguas: Como uma Luva. Utilizou-a porque o fumo entra e ocupa o espaço, faz uma moldagem imaterial do sítio. Esta peça é de pendor escultórico.

 

Como uma luva, video still. Vídeo 4:3, preto e branco, 10’27’’, 2020.
Com Mário Afonso. Vídeo Droid-Id. Produção Galerias Municipais Lisboa

 

Apesar do francês e do português terem uma grande semelhança estrutural, os jogos de linguagem exigem-nos uma certa subtileza que Elisa sente que vai conseguindo acompanhar embora às vezes tenha de verificar. É também na subtileza de um certo jogo paradoxal que a minha leitura sobre esta peça se deu, o que se confirmou com toda a direcção e programa artístico de Elisa que, como diz, gosta dos objectos ambíguos e com duas potencialidades de leitura. Este vídeo centra-se no sistema de segurança que Elisa primeiro julgou ser apenas um sistema de som.

Trabalho com frequência com objectos que têm uma certa ambiguidade, que trazem problemas com eles... como a pirotecnia. O objeto pirotécnico tem ambas as leituras; é um símbolo de celebração, mas também belicoso. Pode passar facilmente de um registo para outro.
A galeria Quadrum não pode ser abordada com indiferença pelo espaço. É um espaço muito invulgar para cumprir propósitos expositivos — quase não tem paredes, é tudo envidraçado. Foi concebido para ser o snack bar dos artistas dos ateliês do complexo dos Coruchéus, mas nunca chegou a sê-lo. Foi a Dulce d’Agro que alugou logo o espaço para torná-lo numa galeria de arte em 1973. A galeria sempre teve um lado muito experimental, o que marcou a sua história. Vejo aqui uma adequação muito relevante entre a visão da galerista, dos artistas e um espaço expositivo muito desafiante.
Achava fascinante a fricção que o espaço trazia em si. Outra coisa que me interessava era o facto de trabalhar dentro de um sítio onde o olhar se distrai. É convidado a entrar e focar-se nas obras e, simultaneamente, é estimulado a sair do espaço pelas janelas.
A primeira vez que visitei o espaço havia, instalados nos pilares da galeria, uns objectos que para mim eram, sem dúvida, colunas de som dos anos 70. Tive logo vontade de desenvolver uma peça sonora e de utilizá-las. O Tobi Maier, director das Galerias Municipais, mandou fazer uma revisão do equipamento e os técnicos acabaram por descobrir que eram detectores de presença. Faziam parte dum sistema de segurança de marca norte americana dos anos 70 que a Dulce D'Agro tinha instalado. Na altura era muito invulgar encontrá-lo.
O vídeo, disponibilizado online, desenvolveu-se a partir desta experiência e desta história. De um modo mais geral, a exposição trabalha conceptualmente e fisicamente as entradas e saídas do espaço. Temos este vídeo, filmado na galeria, e focado nas questões da segurança. Resolvi utilizar um sistema de segurança um pouco particular, que produz fumo. Cria um fumo tão denso e opaco que as pessoas — por norma ladrões — ficam desorientadas, perdem a noção do espaço e dos objetos à sua volta. Ao mesmo tempo, há um nível de leitura que evidencia um sentido de tranquilização – ainda que por absurdo - por se ver literalmente desaparecer o corpo dum malandro. Há ali uma dupla lógica.
É um sistema totalmente ligado ao sentido da visão, um sistema escópico.

 

Como uma luva, video still. Vídeo 4:3, preto e branco, 10’27’’, 2020.
Com Mário Afonso. Vídeo Droid-Id. Produção Galerias Municipais Lisboa

 

E porquê a opção do espaço virtual para o mostrar?

Queria que as pessoas que não conhecem o sítio pudessem refletir sobre o vídeo sem perceber que era um espaço de exposição. Filmámos de maneira específica: câmara no ombro, muito móvel e perto do actor, o que dá poucas perspectivas alargadas do espaço. A rodagem aconteceu entre duas exposições, com o espaço vazio. São momentos de ultra-potencialidade. Considerei-o quase como um espaço mental. Nesta óptica, fazia todo o sentido a difusão online.
Tenho interesse nos efeitos de duplicação e repetição, mas aqui era claro para mim que a difusão do vídeo no espaço onde foi filmado seria estéril. Queria exportá-lo para um sítio com novas potencialidades.


O fumo tem uma dimensão de protesto, mas também de magia... Associado sempre a uma certa desaparição. A dimensão política do fumo aplica-se às duas leituras?

Acho que as raízes do meu trabalho se encontram precisamente aqui: na colisão das potencialidades de leitura. Que também se revela aqui na escolha do actor... Neste caso, eu própria tinha um preconceito sobre quem deveria ser o “especialista em segurança”. Procurava uma pessoa mais provocante. A final, achei mais interessante escolher alguém como o Mário Afonso. É coreógrafo e bailarino. Ele tem uma certa delicadeza fora do padrão esperado, o que cria confusão neste contexto e abre espaço para dúvidas e gera complexidade.

Eu fiquei presa no limbo entre uma espécie de incitamento e dissuasão de um roubo e também na compreensão do valor da presença pela ausência. E, na mesma linha, a forma como o texto foi preparado e a sua articulação com o actor; há um espaço de silêncios em que se compreende a não verdade, mas ainda podemos hesitar ... Quando ele começa a falar, mas deixa em suspenso a frase, como se [nós que o ouvimos] já soubéssemos, como se só pudéssemos saber.
Fica mais ambíguo e questionador dessa não comunicação. O texto não é só um exercício de linguagem. É também uma defesa de posições ligada à afecção.
Interessam-te as várias dimensões dos limbos?

Sim. Uma das minhas primeiras exposições tinha o título “Fecha os olhos, salva a tua pele” [1]. É uma coisa recorrente, a de trabalhar as contradições. Mesmo as de linguagem.
O título desta exposição ”Falso Sol, Falsos Olhos” resulta duma ligeira alteração de um verso de Georges Bataille em “La haine de la poésie” no capítulo “L’Orestie”. Queria apontar a impossibilidade do olhar neutro. Ou seja o facto de que, quando olhamos para uma coisa, vemos essa coisa através da “luz” que a mostra e, simultaneamente, com a nossa “luz” própria. Uma luz pode acentuar, perturbar ou apagar a outra. Quem vê, quem mostra, em quais circunstâncias?

 

Como uma luva, video still. Vídeo 4:3, preto e branco, 10’27’’, 2020.
Com Mário Afonso. Vídeo Droid-Id. Produção Galerias Municipais Lisboa

 


Há uma insistência no mesmo jogo de tensões?

E também há a relação com o robô da exposição [referindo-se a Memory Flood, 2020], que literalmente produz uma luz, mas que tem uma vida própria. “Vida própria” face à interpretação de uma série de factores, mas que não são legíveis para nós. O robô é programado para se movimentar em função de dados ambientais (temperatura, humidade e luminosidade); cada variação dos dados inicia uma mudança no comportamento do robô. É um objecto industrial que, supomos, terá por função a de iluminar determinados objectos. Neste caso não cumpre essa função, não está a iluminar nada, está a compor o seu próprio caminho.

Essa peça, juntamente com Composição de Teresa Quirino (1920-2013) e a iluminação que lhe atribuíste, dá-nos uma exposição não acessível e ainda acessível [considerando o confinamento, mas mesmo antes dele, a autonomia perante os horários da galeria Quadrum], parece uma continuidade do desdobramento de pensar o espaço.

Exactamente. Queria que pudesse estender-se, e duma certa maneira, entrar nas rotinas da vizinhança ou no caminho dum público indirecto. Daí o funcionamento das luzes e do robô fora dos horários de funcionamento da galeria ou o comprimento da escultura de pladur que atravessa totalmente a galeria até sobressair do edifício pelas janelas. Articula a ligação entre os dois jardins e a galeria, cria uma interface. Fiquei contente por ver que foi aproveitada pelas pessoas que lá iam passear. Serviu como banco, mesa, elemento de jogo...
No caso do robô de luz e da escultura da Teresa Quirino - que eu deslizei de fora para dentro da galeria para que fosse restaurada, integrando duas iluminações, que assinalam a posição anterior e a actual - as luzes ligam e desligam de maneira autónoma antes e após a abertura ao público, todos os dias.
Assim, a exposição continuou, até no período de confinamento total, ligada e a funcionar autonomamente.

 

 

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Elisa Pône (n.1979), estudou história da arte (Universidade de Paris-Nanterre) e artes visuais (École Nationale Supérieure d'Arts de Paris-Cergy, Master 2005; e Maumaus Lisboa, Independent Study Programme 2015). Vive e trabalha em Lisboa. A sua prática implementa um trabalho proteiforme. Interessa-se pelas ambiguidades e paradoxos dos nossos comportamentos, pelos efeitos da velocidade e dos objetos equívocos. É representada pela galeria Michel Rein em Paris e Bruxelas.

 

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Notas

[1] ”Fermer les yeux, Sauver sa peau” titúlo do meu primeiro solo na galeria Michel Rein Paris, em 2008. O título vem da novela de Thibault Lang-Willar, Chlore, 2003.



CATARINA REAL