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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista parcial da exposição 'Um lugar sem país no mundo', 2021.


Vista parcial da exposição 'Um lugar sem país no mundo', 2021.


alheava_Primeiro, conheci o desconhecido; depois, desconheci o que conhecera; mais tarde, abordei o que conheço como quem desconhece.. © Manuela Matos Monteiro / Espaço Mira.


Um lugar sem país no mundo, 2018-2022.


Um lugar sem país no mundo, 2018-2022.


alheava_configura-se em função da origem, não da memória, mas daquilo que não aconteceu ainda (ucronia) III, 2021.


alheava_configura-se em função da origem, não da memória, mas daquilo que não aconteceu ainda (ucronia) II, 2020.


alheava_configura-se em função da origem, não da memória, mas daquilo que não aconteceu ainda (ucronia) II, 2020.


alheava_Primeiro, conheci o desconhecido; depois, desconheci o que conhecera; mais tarde, abordei o que conheço como quem desconhece, 2020.


alheava_Primeiro, conheci o desconhecido; depois, desconheci o que conhecera; mais tarde, abordei o que conheço como quem desconhece, 2020.


alheava_o lugar dos afectos, 2017 (vista geral). © Rui Apolinário


alheava_ a distância que principiou a encurtar-se, 2017. © Rui Apolinário


alheava_a criação do mar, 2017.


alheava_filme, 2007 (Still).


alheava_filme, 2007 (Still).

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MANUEL SANTOS MAIA

UM LUGAR SEM PAÍS NO MUNDO




ESPAÇO MIRA
Rua de Miraflor n.º 159
4300-334, Campanhã, Porto

17 DEZ - 22 JAN 2022

O regresso a um lugar

 

 

Alheava é um projecto multifacetado que Manuel Santos Maia iniciou enquanto estudante da FBAUP, em 1999.

Num sentido amplo pensa-se o outro, o colonizador, o colonizado e as suas repercussões. Num sentido não menos abrangente temos a experiência pessoal, que se aproximará à vivência de tantas outras pessoas, filhos de colonizadores, ou netos de colonizadores, neste caso; e, também, filhos de colonizados que vieram adoptados por desconhecidos para Portugal depois de verem as suas famílias destroçadas e novamente colonizados, aculturados num país igualmente estranho. A criança, o Manuel de 6 anos, trouxe memórias que foi alimentando e recriando com a ajuda dos familiares, da mãe, do pai, dos avós, dos irmãos, dos tios e também dos objectos - alguns dos quais se mantiveram guardados até Santos Maia decidir abrir arcas e móveis onde se mantinham guardados e expô-los [1] - os filmes e fotografias do pai, que retratam o seu mundo, a família, a casa construída pelo avô, a fazenda, os trabalhadores, os monumentos, a paisagem. Diz-se que a infância é das fases mais importantes da vida, porque nos marca para sempre, talvez por tudo ser novo, desproporcional e sentirmos mais profundamente. A descoberta tem sido constante, neste reavivar de lembranças, da realidade atroz, dos relatos e leituras sobre o que aconteceu em Moçambique, durante a colonização, a guerra e pós-colonização que não se podem esquecer, para percebermos o que somos hoje.

 

alheava_Nampula, 2012.

 

Rever o passado também transforma as memórias que muitas vezes não têm uma correspondência real, há algo que não foi dito, algo que não foi lido e que é percebido mais tarde, como na ampliação das fotografias do pai, António Machado Maia, apresentadas na exposição individual alheava_Nampula na galeria Quadrado Azul em 2012. Esta permitiu ao artista questionar e reflectir a condição dos autóctones e de si e dos seus familiares descendentes de portugueses na machamba (fazenda), onde aqueles trabalhavam. Afinal não viviam nas mesmas condições, apesar da boa relação que mantinham com os trabalhadores. Em alheava_filme, de 2007, o artista recupera os filmes super 8 do pai e coloca-o enquanto narrador de um discurso recolhido em diversas vezes, ao longo de três anos. Aqui desvela-se mais uma vez, através da vivência pessoal de alguém nascido em território colonizado, o seio familiar e a complexa realidade que foi, de parte a parte, a guerra e descolonização e a barbárie, a crueldade e a miséria por elas provocada.  

Mas voltemos à criança que regressa ao lugar de origem dos seus avós, que na realidade não é um regresso porque vem para o desconhecido: é agora estrangeira, alheada, num universo com uma língua outra, que tem de aprender para passado um ano entrar na primeira classe. Faltam-lhe as cores vibrantes, os cheiros, a paisagem, os sons da mestiçagem singular de Nampula. Existe uma ruptura com o seu país, os amigos, a natureza, a liberdade e descontração que o calor permite. É essa não pertença e o que ficou para trás, que a leva, em adulto, a desenhar este projecto que se desdobra numa série de trabalhos entre a performance, o teatro, a instalação, a fotografia, a imagem-movimento, o som e a pintura apresentados em mostras colectivas e individuais.

O título da presente exposição, Um lugar sem país no mundo, patente no espaço Mira, revela a criação de um outro lugar, um lugar inexistente enquanto espaço físico. Um lugar que se estabelece pelo fazer, pelo vínculo e afeição, por um fazer de mãos dadas. Pela devolução de um tempo ao tempo. Cria-se um novo lugar de reflexão, de idealizações, de aprendizagem; um lugar que também pertence a quem vê e que surge dessa sinergia entre o artista, o colaborador, o espectador e a obra. Santos Maia recorre novamente à família e aos amigos para esta construção; são as mãos da mãe Albertina que bordam a toalha e guardanapos com os signos retirados da bandeira de Moçambique (o fuzil, a enxada, o livro aberto, a estrela) e desenhos da cestaria daquele país. Padrões que se re-apresentam em alheava_configura-se em função da origem, não da memória, mas daquilo que não aconteceu ainda (ucronia)_III, realizado pela amiga Maria José Correia. Esta fita de missangas que envolve o recanto da mesa como que tornando visível o que os conecta, o imaginário. O sobrinho Afonso Alexandre, que o ajuda na recolha do barro em Quiaios (a localidade onde cresceu), para juntos moldarem as rudimentares taças-almofariz que contêm as diversas especiarias e sementes trazidas da sua viagem-regresso a Moçambique em 2014. E o último trabalho que dá título à exposição, no qual colabora mais uma vez a mãe Albertina e a irmã Anabela Maia, que remete a outras intervenções e exposições anteriores.

 

alheava_um lugar sem país no mundo.
© Paulo Ansiães Monteiro

 

Algo terá ficado em reminiscência da exposição individual de 2017 também no espaço Mira alheava_o lugar dos afectos. Contudo, aí encontrávamos um espaço mais preenchido, com vídeo, instalação e um trabalho de luz minucioso, onde as sombras dos próprios espectadores contaminavam a obra. Essa ocupação do espaço talvez surja não só pela grande produção do artista, como da necessidade de mostrar a intensidade da vida em Nampula na actualidade. Existe um antes e um depois no projecto Alheava que altera significativamente a obra e o modo de a dar a ver após a viagem-regresso, com uma abertura que apela a todo o corpo, à vibração das cores, ao cheiro e a uma certa sensualidade. Um trabalho de luz e sombra, o contraste entre o brilho, o pôr-do-sol e o lusco-fusco. Vêem-se fotografias recortadas como fios que por vezes se tornam tridimensionais, que relembram alguns retratos de Esther Ferrer, como um alongamento do próprio corpo para além do limite fotográfico, criando uma nova totalidade, onde os interstícios sejam ausências, invisibilidades ou algo ainda por acontecer. O ano de 2017, no qual apresenta mais duas exposições individuais, que são exemplos do trabalho que deixa de ser tão hermético e abraça a organicidade, como a exposição alheava_a criação do mar, na Escola das Artes da Universidade Católica. Novamente os círculos de luz que não iluminam apenas, mas focam o nosso olhar em partes das instalações que por vezes se estendem para além dos mesmos - uma lua, um sol, um monóculo, alguém que espreita e recorta a realidade.

 

alheava_Primeiro, conheci o desconhecido; depois, desconheci o que conhecera; mais tarde, abordei o que conheço como quem desconhece.
© Manuela Matos Monteiro.

 

alheava_Primeiro, conheci o desconhecido; depois, desconheci o que conhecera; mais tarde, abordei o que conheço como quem desconhece, é o título do trabalho central que reflecte bem o que acima expusemos. O barro volteado parece pão, o pão que se partilha à mesa, a mesa que será a reconstrução de algo que também não existiu ou que existe apenas na imaginação. O ritual e o performativo em potência tomam lugar de anteriores projectos a solo mais coloridos e cinematográficos. Mesmo assim, temos um quase país desenhado a açafrão - a mãe assim o interpretou! - com especiarias que se podem moer, para condimentar essa comida que chegarà à mesa, por onde os corpos comungaram; os doze guardanapos usados, a remeterem para o cerimonial da refeição, onde se deixa o rasto das bocas falantes e comentes, da comunhão, onde se deixa um rasto da desejada união entre povos, etnias, simplesmente pessoas.

A ucronia é quase inevitável quando se tenta uma reconstrução do passado. E o artista, agora adulto, aproxima-se da etnografia construindo um imaginário num regresso às tradições, à manualidade onde a mão activamente prepara, molda, borda, actua e torna possível um sentido de comunidade e de um tempo interior, um tempo do pensar, um tempo para o silêncio, um tempo que se sobreponha às ruínas, aos fragmentos e aos medos e que permita a existência viva e o reencontro em diálogo com o lugar.

 

 

Susana Chiocca
Artista e doutorada em arte contemporânea pela Facultad de Bellas Artes de la Universidad de Castilla-La Mancha (SP). Professora convidada na Universidade Lusófona do Porto e no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra.

 

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Notas

[1] Os objectos e móveis da família foram apresentados em diversas exposições, alguns dos quais fazem parte do quotidiano, outros são utilizados apenas em celebrações familiares específicas e outros ainda revelados pela primeira vez, pela necessidade de os expor. São exemplos as exposição individuais alheava, projecto In.transit #3 no Artes em Partes no Porto (2002); alheava – a casa onde às vezes regresso, na Galeria Museu Nogueira da Silva, Braga (2003). E nas exposições colectivas I like it here, can I stay?, Galeria Zé dos Bois, Lisboa (2002); Coleções de África -Etnografia/Arte Contemporânea, Centro Cultural Lagos, Lagos (2004); Discurso do Excesso – Projeto terminal, Hangar K7, Fundição de Oeiras, Oeiras (2005); Depósito, Reitoria da Universidade, Porto (2007); Constructing history: the future life of the past, Convento de Cristo, Tomar (2010); Retornar - Traços da Memória, em Lisboa (2016).



SUSANA CHIOCCA