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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Artur Loureiro, “Descanso da Artista” 1882, MNAC-Museu do Chiado, depósito Museu José Malhoa. Direita: Pedro Calapez, “Um Corpo Entre Outros” #23, #21, 2020.


“Seja dia ou seja noite pouco importa”.


André Gomes, “Amor sacro”, 2020. André Gomes, “Amor profano”, 2020.


Pedro Calapez, “Um Corpo Entre Outros” #09,#14,#41, 2020.


André Gomes, “Ainda aí estás?”, 2020. Pedro Calapez, “Um Corpo Entre Outros #12”, 2020.


“Seja dia ou seja noite pouco importa”. Vista geral da sala dedicada a Artur Loureiro.


Artur Loureiro


Artur Loureiro, “Paisagem no Alfeite – Ribatejo”.


Pedro Calapez, “Um Corpo Entre Outros” #09,#14,#41, 2020.


Pedro Calapez, “Um Corpo Entre Outros #20”, 2020. André Gomes, Yokannam, “Au clair de la lune” 2020. Pedro Calapez, “Um Corpo Entre Outros” #15,#02, 2020. André Gomes, “Furtiva Lágrima”, 2020


“Seja dia ou seja noite pouco importa”.


Pedro Calapez, “Um Corpo Entre Outros” #38,#43,#45, 2020


Pedro Calapez,“Um Corpo Entre Outros #23”, 2020


André Gomes, “In hoc tempore”, 2020


André Gomes, “Incidente no museu” #01,#02,#03, 2020.


André Gomes, “A rapariga do vestido azul” #01,#05,#02,#03,#04, 2020


André Gomes, “Brisa e névoas”, 2020


Pedro Calapez, “Um Corpo Entre Outros #50”, 2020. André Gomes, “As fúrias”, 2020. Pedro Calapez, “Um Corpo Entre Outros #49”, 2020. André Gomes, “As nossas feridas”,2020.

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ARQUIVO:


ARTUR LOUREIRO, ANDRÉ GOMES E PEDRO CALAPEZ

SEJA DIA OU SEJA NOITE POUCO IMPORTA




MUSEU NACIONAL SOARES DOS REIS
R. de Dom Manuel II 44
4050-342

03 FEV - 05 JUN 2022


 


A exposição Seja dia ou seja noite pouco importa, em exibição no Museu Nacional Soares dos Reis, com obras e curadoria de André Gomes (1951) e Pedro Calapez (1953), mergulha-nos num diálogo singular entre os dois artistas contemporâneos, cruzando perspetivas de fotografia e pintura num encontro de diferenças e afinidades, aos quais se acresce o naturalismo de Artur Loureiro (1853-1932), pintor do século XIX representado na coleção do museu. O título, referência a uma frase do poema épico do século XVII Paraíso Perdido de John Milton, é revelador da essência da dualidade do eu, confirmando-nos a autonomia da criatividade na contradição de diferentes modos de expressão, numa mostra em que diferentes tempos artísticos se unem e conjugam mutuamente.

A exposição anteriormente exibida no Museu Berardo (2021), apresentasse-nos agora com uma nova leitura e um outro olhar, uma mostra completamente distinta da antecedente, que se iniciou em dupla e que agora se estende a um terceiro elemento - Artur Loureiro – seguindo-se a linha que tem feito parte da programação do Museu Nacional de Soares dos Reis: a criação de diálogos com peças do acervo do espaço. A propósito do encontro entre os três artistas importa mencionarmos que este remonta ao ano de 2016, quando durante uma visita ao MNSR André Gomes descobre afinidades entre a obra O repouso da artista de Artur Loureiro e as pinturas de Pedro Calapez em exibição na exposição Configurações, na Galeria Fernando Santos (Porto). Um outro momento preconiza o encontro entre os artistas, quando Rita Lougares – diretora artística do Museu Berardo – em visita à exposição Casa da Estrada de André Gomes, na Galeria Diferença (Lisboa), vê representada numa das fotografias a mão de Pedro Calapez a pintar, lançando a ambos o desafio de fazerem pela primeira vez uma exposição conjunta. Se no primeiro momento de Seja dia ou seja noite em Lisboa, já havia sido pensada a inclusão de Artur Loureiro, tal encontro acabaria por suceder na exposição atual no Porto, cidade de onde é natural o pintor. A sala onde se exibem os trabalhos de Artur Loureiro, cuja seleção, curadoria e disposição das obras – na sua maioria paisagens - coube a Pedro Calapez e André Gomes, abre-se para o espaço onde se exibem as pinturas e imagens-fotografias de ambos, num surpreendente diálogo a três, numa narrativa com três visões e caminhos singulares que se fundem num percurso único por paisagens, histórias e corpos, segundo Ana Anjos Mântua. Diferentes tempos artísticos que se entrecruzam numa mostra que olha simultaneamente para o passado e para o futuro, e em que o presente surge como tempo suspenso onde as duas salas se refletem como dois espelhos.

A propósito das relações formais, conceptuais e visuais que se estabelecem entre os trabalhos de Calapez e André Gomes, resultantes da montagem da exposição, importa mencionar que embora se trate de uma exposição de uma dupla de artistas, cada um trabalhou paralelamente e de modo independente, não havendo uma combinação prévia entre pintura e fotografia. O encontro final a que assistimos é resultado da liberdade combinatória de imagens e personagens plásticas, que se encontrando num mesmo palco, atraem-se ou afastam-se, conversando entre si, num diálogo cuja tradução dependerá da interpretação e olhar do espectador. Manchas de cores variadas, jogos de luz e texturas percorrem as duas salas da exposição, revelando-nos linguagens e práticas artísticas distintas cujas poéticas se complementam. A horizontalidade das imagens de André Gomes enquadradas por molduras negras, contrasta com a verticalidade das pinturas de pedro Calapez e as suas molduras brancas, pinturas cuja proporção - quase sem nos apercebermos - se altera a determinado momento, tornando-se mais pequenas como as imagens fotográficas, mergulhando o visitante num jogo de metamorfoses. As obras de André Gomes, com títulos diversos, e impressas com tinta pigmentada sobre papel de algodão, revelam-se-nos composições oníricas, fotografias que não sendo realistas são palcos para as histórias das figuras que nelas atuam. A subjetividade do artista perpassa a sua obra em imagens cuja qualidade narrativa se ancora na teatralidade e na literatura, expondo-se emocionalmente em autorretratos confessionais através dos quais propõem uma reflexão sobre o castigo da condição humana em Sísifo e a fragilidade e frivolidade da (sua) vida em Vanitas. Pedro Calapez apresenta-nos a série Um corpo entre outros, obras produzidas em técnica mista sobre papel, pinturas de registo abstrato que desafiam o espaço, manchas de cor impulsivas que cobrem as superfícies através de sobreposição de várias camadas. Trabalhos que não sendo gestuais têm a dimensão do corpo e do gesto do artista na sua construção e através dos quais evocam paisagens e formas antropomórficas, num jogo de relações de fragmentos/corpos com as imagens de André Gomes, numa organicidade e diálogo perfeito, resultado da cuidadosa montagem e instalação das obras. A fluidez do discurso e sintonia entre ambos os artistas são notórios ao longo dos diversos núcleos da exposição e a este propósito destaquemos o feliz e não planeado encontro entre Um corpo entre outros #02 e Furtiva Lágrima. À medida que observamos as obras surpreendemo-nos pela aproximação formal e cromática de ambas, pelas formas gestuais e manchas de cor da pintura de Calapez que como que se transferindo para a imagem de André Gomes, adquirem uma nova materialidade e um outro olhar, mas mantendo a mesma expressão de sentimentos. Como uma cortina que se abre e revela, desvendando o espaço, observamos nesta obra de Calapez a mancha que simultaneamente esconde e desvela camadas de cores, camadas de significação que procuramos descobrir. Em furtiva lágrima a gota solidificada – lágrima – que escorre pela madeira, mancha laranja que se abre como cortina sobre a realidade, revelando-nos a paisagem de céu e mar. No mesmo painel outras duas imagens de André Gomes, ladeadas cada uma por pinturas de Calapez, revelam as formas que na noite luminosa: a argila/lama de onde somos formados; a pequena janela que ilumina; o fogo - talvez o do inferno -; o luar sobre as tábuas de um palco e por fim a água. No seu conjunto percecionamos a origem e crescimento do mundo – da terra à água - como se estivéssemos perante um painel pré-socrático: a lama, o fogo, a pureza da pintura e da santidade e a abertura sobre a realidade.

Se as fotografias de André Gomes são metáforas da sua noite subjetiva, que o artista procura desmascarar e revelar-nos mediante uma relação narrativa com a fotografia, em que cada composição nos conta uma história, histórias que são a sua própria urgência de falar, as pinturas de Pedro Calapez escondem e adensam sinais num jogo de camuflagem e de sobreposições, de camadas de uma pintura que se basta a si própria, silenciosa, mas que desperta os nossos sentidos. A propósito dessa urgência de André Gomes em falar-nos, destaquemos a ironia e o humor presentes em Belle de jour cuja mão que afasta o cortinado vermelho revela-nos um confessionário impossível com a presença de um objeto enigmático, um búzio, caixa de ressonância do desespero interior daquele que se confessa. Ao lado, uma outra imagem relaciona-se não apenas cromaticamente com a anterior, mas também com a aura de solidão e de vazio que acarreta. Intitulada A túnica #01, #2, a obra desperta de modo imediato a nossa atenção pela expressividade e força dramática das imagens e pelos contrastes entre os tons vermelhos habilmente iluminados sobre o fundo negro. Observamos o corpo de um sem abrigo deitado num banco e coberto por um manto vermelho, e logo nos surpreendemos pela associação que André Gomes estabelece entre o manto e a túnica de Cristo. Repartiram entre si as minhas vestes e sobre a minha túnica deitaram sortes, analisamos o jogo de disputa dos soldados romanos, os dados que rolam e que dão a sorte ou o azar; o dado que na última imagem cai incessantemente sobre o vazio, não sabendo se o vamos receber enquanto inspiração ou símbolo de uma tragédia. Novamente nos deixamos seduzir por quatro pinturas de Pedro Calapez que, de frente para as composições fotográficas de André Gomes, estabelecem com elas uma ligação cromática. As telas de grande formato mergulham-nos num universo de cor simultaneamente explosivo e imersivo, através das quais nos deixamos envolver pelos variados cromatismos, reflexos, contrastes e saturações, pelas transparências e acumulações no modo de aplicar as tintas modeladas pela espátula, sobreposições de camadas que nos evocam nas cores e nas texturas a pintura naturalista de Artur Loureiro.

 

Artur Loureiro, Paisagem. Óleo sobre tela.

 

Seguindo o nosso percurso pela exposição, deparamo-nos num outro núcleo com a composição fotográfica de André Gomes in hoc tempore – no nosso tempo. Mediante um processo de desconstrução e reconstrução de imagens, como uma colagem resultante de processos digitais, a marcada expressividade da obra e a violência que traduz não poderia ser mais atual, não obstante a clivagem temporal das figuras que a compõe: duas esculturas em barro da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro, do séc. XIX, dialogam com uma gravura do século XVI de dois homens a lutar e o cenário de confronto e discussão que o artista compõe com figuras de Hergé. No seu conjunto a fotografia condensa o estado de violência e de choque que vivemos, apresentando-nos o artista a obra enquanto metáfora do nosso tempo. De um lado e de outro as cores fortes das pinturas de Calapez - quase monocromáticas - reforçam a ideia de violência: o azul, o vermelho o amarelo e o verde. Nelas observamos o caminho das espátulas e os efeitos orgânicos resultantes da técnica mista aplicada sobre o papel, suporte do artista que é cada vez mais delicado em contraponto com outros mais pesados que utilizou no passado como o alumínio, o tijolo e a madeira.

Mais à frente a ironia e comicidade de André Gomes na obra Incidente no museu #01, #02, #03, em que o grupo escultórico italiano Eneias transportando seu pai Anquises, é transportado da Antiguidade e mitologia para a atualidade. A fuga de Eneia de uma Tróia em chamas, carregando às costas o velho pai, ocorre agora num incêndio no museu Gulbenkian, fuga infrutífera que desemboca numa parede de pedra de quem no momento de aflição não soube ler os sinais. Situação paradoxal, labirinto onde as figuras se movem, o mesmo que surge em Um corpo entre outro #10, caminho sem saída e corpo em movimento que tão bem dialoga com os corpos em fuga das esculturas.

Do vão que se rasga na parede O repouso da artista de Artur Loureiro tem vista privilegiada para a exposição onde as obras de Calapez e Gomes se conjugam. À beleza, serenidade e naturalismo da obra que deu o mote a Seja dia seja noite pouco importa, acresce-se a importância do olhar, o olhar da pintora, figura central na composição, e o olhar de Artur Loureiro que retrata a cena. Chamam a atenção as transparências e texturas, os jogos de sombra e luz da composição, a presença forte da cor e registo realista do ambiente envolvente. O muro de tijolos do jardim, as suas texturas e múltiplas camadas evocam-nos a fisicalidade e sobreposições das pinturas de Calapez. A Natureza como tema pictórico e a representação do jardim de dia na obra de Artur Loureiro, estabelecem um diálogo curioso com a fotografia Casa da estrada de André Gomes – obra proveniente de uma anterior exposição do artista – cujas sombras nos revelam a imagem de um jardim à noite. Destaquemos ainda na obra do pintor naturalista a representação de um momento de suspensão, um momento de pausa e reflexão, mas não de descanso para a artista, que olhando para a tábua que pinta medita sobre as imagens que quer criar e cujas cores nos revela na palete que segura. A representação da paisagem enquanto experiência percetual, lumínica e cromática fiel à matriz Naturalista acompanha-nos por entres obras de Artur Loureiro selecionadas pelos artistas contemporâneos. Predominam as paisagens de praia, as cenas bucólicas, a expressão livre dos elementos da Natureza, o caratér rural e portugalidade. Seduzem-nos os céus e a curiosidade das suas cores, entre os rosas e os lilases que se misturam no horizonte, será o amanhecer ou entardecer? Seja dia ou seja noite pouco importa.

 


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Mafalda Teixeira

Mestre em História de Arte, Património e Cultura Visual pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, estagiou e trabalhou no departamento de Exposições Temporárias do Museu d’Art Contemporani de Barcelona. Durante o mestrado realiza um estágio curricular na área de produção da Galeria Municipal do Porto. Atualmente dedica-se à investigação no âmbito da História da Arte Moderna e Contemporânea, e à publicação de artigos científicos.
 

 

[Fotografias: Mafalda Teixeira]



MAFALDA TEIXEIRA