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©Vasco Stocker de Vilhena


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© Filipa Almeida


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RIALTO6
Rua Conde Redondo 6, 1 andar
1150-105 Lisboa

16 SET - 16 DEZ 2022

Coreografia da Lentidão



"Tenho mãos para te colher, timo minúsculo dos meus sonhos, alecrim de minha extrema palidez"

 André Breton

 

 

A nossa cultura, que mitifica a eficácia e o utilitarismo, cancelou há muito o valor da espera. Mas é nessa espera que, possivelmente, emerge em nós algo que, na pressa e na emergência, não tinha podido despontar. Abre-se um espaço para o que nasce de novo, para o que demora. E demorar é morar mais. Abre-se um espaço para a verdadeira escuta. Em “TheTale”, de Tiago Baptista, há uma expansão do universo da espera e da desaceleração do tempo. Há quase uma suspensão —  para a podermos olhar. O artista propõe-se a abordar esse mundo demorado, ampliador e pulsante na sua lentidão.

Lembro-me de ler em “A Lentidão” de Milan Kundera, que o grau de lentidão é proporcional à intensidade da memória, enquanto o grau de velocidade é proporcional à do esquecimento. Na folha de sala, escrita pela curadora da exposição, Susana Ventura, está escrito: “É necessário resistir ao tempo que tudo devora e evitar o esquecimento”. [1]

A primeira coisa que vejo, da curva da entrada, é um sol / medusa que me acena. Parece estar debaixo de água a nadar. Tem muitos raios / braços que reverberam pela parede, alongando-se e murmurando, não palavras mas vibrações, em pequenas oscilações talvez imaginárias, num estremecimento subtil, ondulante e sensual. Esqueço a realidade geométrica das formas e, sob a pequena luz azulada que incide sobre este desenho na parede, sou transportada para um lugar navegante, marinho.
Além desta luz azul, o espaço está quase escuro.

Ao fundo da parede, delicadamente iluminadas, encontro-me com duas pinturas que criam um ângulo recto entre si. Acolhem-se e falam-se, em silêncio. Uns pêlos que sobem, a quererem crescer, olham para umas estalactites que descem, sem nunca cair. Uma caverna luminosa. A ver tudo está um pirilampo humano a descer em loop de um céu de estrelas. Uma luz que cai à terra —  adivinho-lhe o voo vertiginoso e anunciador. 
Decidida a descer, ainda vejo, sob este véu de mansa luz, uma pintura em que uma grande silhueta olha com atenção para algo muito pequeno. De costas para mim, com os ombros em cima e os braços abertos, percebo uma certa admiração ou surpresa. Um alguém grande em espanto com uma simples pedra. Começo a descer as escadas e já se adivinham alguns reflexos. A exposição abre-se como uma câmara do tempo. A arquitectura deste espaço, pela sua especificidade, faz-nos sentir que há algo por vir, sem nos dar imediato acesso. Vejo ainda um búzio / fóssil desenhado na parede, cheio de vazios e respirações, que ainda se está a tecer. 
Se antes assisti à vivacidade poética e sensual de um lago, agora sou levada a baixar-me à terra: 

“Melusinas românticas saídas das águas do lago, Melusinas símbolos de alquimia que ajudam a formular os sonhos da pedra de que devem sair os princípios da vida." [2]

Agora, a grande admiradora da pequena pedra sou eu. Somos todos. Aqui está uma pintura que nos transporta para o universo do pequeno, do silêncio, do respeito, da vénia, da atenção. Temos de nos curvar para a observar porque está colocada ao nível dos nossos joelhos. Tudo está minuciosamente montado para nos levar a fazer estes movimentos, para também nós sermos uma coreografia. Um dedo humano aponta, como quem quer chamar-nos à atenção, para uns pequenos fósseis. Uma pedra. Um osso. Um vestígio. O mistério da formação lenta e contínua. Porque o pequeno é o centro da força primitiva, o minúsculo é a morada da grandeza. Estou a testemunhar a sabedoria das pedras. Seres que vivem, adormecidos na sua forma, que são as lembranças imóveis do mundo. Temos mesmo de olhar para baixo se quisermos ver esta pintura —  aprender a olhar a terra. 

Passeio e contorno as sombras e silhuetas das esculturas de metal que estão no meio da sala. Os espaços entre si, os interstícios abertos e desimpedidos, têm uma cumplicidade e uma correspondência delicadas.
Dois cogumelos que se transformam em quatro, um embrulho de palha a desaparecer, duas pequenas lesmas a passear. 
Este jogo de visão é uma respiração entre o que vem e o que vai, a aceitação do acesso momentâneo e efémero que temos às coisas, sabendo que nem tudo está sempre à vista.

Para o artista foi interessante trabalhar com outros medias que não apenas a pintura bidimensional, na exploração de imagens e situações pendentes, que encontraram, neste convite à exposição e neste espaço, uma casa para poderem estar e existir em conjunto. A profundidade do espaço e o jogo de luz, nesta performatividade em potência, neste cenário que também é casa e conforto silencioso, oferece-me, generosamente, uma dimensão sensorial e imersiva. Estou a entrar num plano maior do que aquele que vejo. Liberto-me do peso das coisas e pressinto um horizonte mais amplo, mais vasto, que se alarga e se estende para fora destas paredes —  porque não estou só a assistir. Sou parte. Entro na pele das coisas, percorro a pele das coisas. Esta exposição é epidérmica. É pele com pele. 

Estalactites que emergem ou que derretem, nessa tensão de sombras  — nunca saberemos se estão a cair ou a voar.  Numa delas, um pequeno círculo pintado olha para uma outra escultura na parede, esse “círculo mágico, olho de todo o ser; surgindo na calma de um sonho”. [3]

Ao pêndulo hirto e liso, agarram-se os caracóis ondulantes. Começam a acumular-se na parte de baixo, como se a gravidade os trouxesse de volta à terra, embora estejam parados no tempo. No trabalho de vídeo, “dois corpos inventam um outro tempo ainda, ínfimas variações de velocidade contrariam e baralham os ponteiros do relógio - tic tac tic tac - e os braços soltam-se como asas e rodopiam” [4] —  numa espiral viva de continuidade e retrocesso. O eterno retorno, o cíclico perpétuo.

 

           

           

        

 

Ao fundo, mas não longe, ouço o eco de um uivo. 

Só agora me sento, calmamente, a assistir ao bailado dos caracóis. Os caracóis, que sabem que é preciso viver para construir a sua casa e não construir a sua casa para viver nela; os caracóis que também sabem que a casa cresce na mesma medida em que cresce o corpo que a habita. Vão entrando e saindo, ao sabor da luz que vai mudando, numa dança lenta de recolhimento e expansão. Revelam-se numa sensualidade escondida e envolvente que me surpreendeu. 

Tiago percorre o poema da lentidão, percorre a espera do espectáculo - porque “o único espectáculo é o da espera” [5] . Sabe que não se deve explicar demasiado cedo, sabe que quem aceita os pequenos espantos prepara-se para imaginar os grandes, e que, atrás das coisas o seu brilho cresce, sem rumor.

Esta exposição é a possibilidade de começo desse espectáculo de nada, que é tudo, desse espectáculo do pequeno —  que não é um engano, não é um detalhe —  é a descoberta do mundo. É a celebração da espiral — da hélice que somos — e de tudo o que deixamos entrar. Ou sair. É um convite à desaceleração do coração, ao abrandamento do ser. Um convite a compreendermos finalmente o murmúrio que não diz nada; a descobrirmos que o movimento lento é curativo. 

Esta exposição é, no seu ritmo particular e irradiante, uma lenta flecha de beleza. 

Relembro um texto de José Tolentino Mendonça, do qual não me recordo o nome, em que ele contava uma história sobre a lentidão. Nos dias mais atarefados, quando o telefone tocava alto e vezes demais e havia inumeráveis coisas para fazer, Lourdes Castro e o seu marido, Manuel Zimbro, começavam a andar teatralmente em câmara lenta pela casa. Esse gesto reconciliava-os com o tempo. Essa imagem ressoou em mim durante muito tempo e voltou ao meu encontro com esta exposição.

Nas curvas que a lentidão nos proporciona (a velocidade segue sempre em linha recta) podemos ousar caminhos que, de outra forma, não conseguiríamos avistar. Podemos desenhar um andar diferente, um outro movimento — e é nessas pausas, nesses hiatos calados, que talvez possamos ouvir a nossa própria voz: 

“(...) e eu estou aqui junto às águas porque, nesse espaço entre espaços, onde nenhuma coisa fala, eu sou o que essa coisa diz.” [6]  

Reaprender o desvio como passagem —  e deixar o corpo malear-se, aceitando uma geometria curva, não como rodeio, mas num pacto com o tempo. Com o corpo convidado a abrir(-se) para dentro, podemos vislumbrar o interior das coisas, o seu murmúrio, e viajar até ao outro lado da noite.

 

 

Filipa Almeida

Nasceu em Lisboa, em 1996, cidade onde vive e trabalha. Licenciou-se em Ciências da Cultura e da Comunicação, na Faculdade de Letras. Realizou uma Pós- Gradução em Curadoria de Arte na Nova FCSH, um curso de Estética na SNBA, e está neste momento a realizar o Mestrado em Práticas Tipográficas e Editoriais Contemporâneas na FBAUL. 

 

 

 :::

 

 

Notas:

[1] Citação de Susana Ventura, retirada da folha de sala da exposição.

 [2] Gaston Bachelard in A Poética do Espaço, São Paulo, Brasil: Martins Fontes, 1996 ,p. 268

 [3] Gaston Bachelard in A Poética do Devaneio, São Paulo, Brasil: Martins Fontes, 1996, p. 177

 [4]  Citação de Susana Ventura, retirada da folha de sala da exposição.

 [5]  Título da exposição de Tiago Baptista patente na Galeria 3+1 Arte Contemporânea de 14 de Janeiro a 5 de Março de 2022

 [6]  Denis Johnson in Haverá sempre um lento alfabeto de chuva, Cutelo, 2022, p. 50



FILIPA ALMEIDA