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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Série Língua ©Yaw Tembe


Série Língua ©Yaw Tembe


Língua d'Aladino ©Yaw Tembe


Série Júlios, nº2 ©Yaw Tembe


Marcha de Surdina ©Yaw Tembe


Templo tosco ©Yaw Tembe


Peji ©Yaw Tembe


vista de exposição ©Yaw Tembe


Shiu não estragues a magia ©Yaw Tembe


vista de exposição ©Yaw Tembe


Templo Beliscu ©Yaw Tembe

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COLECTIVA

COLIBRI EM CHAMAS




ZARATAN - ARTE CONTEMPORÂNEA
Rua de São Bento, nº 432, Lisboa


05 JAN - 11 FEV 2024

O JARDIM DAS MARAVILHAS

 

 

 

Inventa. Não há festa perdida no fundo da memória

 

Robert Ganzo


 

Quando se sonha a fundo, nunca se pára de começar.
O começo está a brotar de tudo, em Colibri em Chamas, exposição de Norberto Lobo, Oro Íris (Laura dos Campos) e Yaw Tembe, patente na Zaratan até dia 11 de Fevereiro. A curadoria é de Maja Escher e o texto da folha de sala é da autoria de Helena Carneiro. Haverá ainda uma visita guiada dia 4 de Fevereiro, as 17h, e concertos no dia 11 do mesmo mês às 18h.

Neste lugar fragmentado parece que tudo se une. Emana no ar o pulsar desta matéria vibrante. 
O meu corpo entra no espaço e começa a viagem. Quero ver tudo, vejo tudo.

Os dedos comandam o material, que comanda a boca, que comanda a vida. Os frutos e os pêlos, sempre presentes, em cada trinca matinal, no banho, no começo do dia, na aurora das sensações a acordar — são a textura do começo, da refeição, do sexo. Piano constante, marca o ritmo da minha passagem, sente o meu vulto a passar por ele, quer falar comigo. Os dedos saem dos desenhos e tateam-me, seguem-me — não querem mostrar-me o caminho porque, como em tudo, sou eu que o escolho.

 

Desenhos de um caderno de passagem repousam, criando um subtil arco que me enlaça, que é colo arredondado e generoso. Integro-me nas suas formas, rectas ou circulares, vivas e extraterrestres — descubro-lhes os obstáculos afiados ou os cantares de amor. São como utensílios — para a casa, para a cozinha, para as subidas e descidas, para as junções enamoradas; e sempre — as facas, ou as patas, afiadas — apontadas.

Uma parede que olho ao alto. Parece um jardim — de muitos lugares do mundo. As montanhas, os rios e o sol. Um pássaro e uns pós de aladino. As flores crescem de dia e de noite, nunca param. Está sempre tudo a mexer, a mudar, a vibrar. Noutra parede experimentam-se as cores que, espalhadas, habitam os lugares que querem e não os que nós escolhemos. Aqui não temos escolha e sabemos de antemão que todos os "olhos são tortos". 

Os corpos dançam para fugir do real — precisam do fantástico — porque, para fazer os caminhos, qualquer caminho, é necessário (re)inventá-los com as nossas fantasias.
Sabem que são primordiais, na sua ondulação fervente e desejante. Sabem que tudo começa neles — na sua escolha (d)e movimento. estão todos juntos, são inseparáveis.

Na segunda sala, pequena e intimista, os olhos estão postos em nós e uns nos outros — somos seres videntes e visíveis. Um gato com oito olhos e um senhor de cabelos em pé dão-nos as boas vindas ao lugar de passagem para a sala interior. Abre-se um clarão. No escuro nasce a luz. A princípio parece densa, forma uma parede, parece cortar o espaço. Depois perdemos o medo — desvenda-se leve como uma pena, sem perder a força da sua própria reflexão. O espelho abre-a como a um portal, relembrando-nos que do pequeno nasce o grande e de que haverá sempre uma entrada de luz, refletida no mundo e devolvida à nossa própria vida. Tenho a sensação de entrar num universo de profundo silêncio, num lugar enigmático e até apocalíptico — mas que não nos deixa tirar os pés da terra — também é estrutura. 

Muito subtil, mais calado que uma pedra, olho para um pequeno garfo suspenso. Voltei a casa. 

Estou a viajar neste mundo mágico e tenho de continuar. Encontro as deusas, as mulheres de todos os sonhos, as rainhas do mundo. Relembro Camila Sosa Villada, em "As malditas" — todas íamos ser rainhas — elas já são. 

Nós, se quisermos, também somos.
Habito o seu reino, admiro o seu templo.

Neste mundo há espécies nunca antes vistas. Ao criarem o mundo, mesmo à nossa frente, ensinam-nos que não podemos abandoná-lo. Já é real.
Têm os braços e os olhos abertos. Dançam e cantam. Celebram a sua existência e companheirismo, convidando-nos à sua amizade. Brilham e misturam-se e integram-se e olham-se e admiram-se. E mais uma vez, dançam e cantam — que a alegria (mesmo com a tristeza) é mesmo a coisa mais séria da vida. 

Círculos que não se fecham, porque vivem o aberto. Não se completam a si próprios — precisamos uns dos outros — deixam a porta aberta. E mais olhos que nos fitam e cabelos que voam. Nas conchas quase consigo ouvir o rumor do mar. Num canto, parece passar despercebida uma planta. Nasceu daqui, dos outros — um ramo de algas/rosas/túlipas brotou da parede. Nunca estará atrasada, porque não há tempo — ela é o próprio tempo. Despojada de expectativas, floresceu.
As coisas que ficaram perdidas, que não tiveram lugar para a existência, estão aqui a ser resgatadas — o futuro do devaneio que se abre diante de todas as imagens redescobertas, destapadas, reecontradas. Os artistas desembrulharam-nas e ofereceram-nos este presente coletivo, numa exposição que parece devolver a vida à vida, na efervescência do inútil — que é tudo aquilo que sonhamos, que é o sopro das deusas dançantes.

Este tempo, neste lugar, nasce como uma fábula miraculosa, sempre a amanhecer, como umas cortinas convidativas e sedutoras — como espaços aberto ao inesperado — no fundo, ao nosso próprio habitar. Estas peças relembram-nos que nunca podemos abandonar, que temos de permanecer, desenhar, traçar e inventar a própria vida. São inocentes delícias de memórias irreais, de todos e de cada um. Não há orfãos — aqui somos todos familia — e é pela cosmicidade de cada imagem que recebemos uma experiência do mundo, que nos sentimos em casa nos universos imaginados, sempre a partir e a regressar, enquanto e entretanto habitamos algures....

A sombra da máscara é a própria máscara. A nossa sombra também somos nós...

Vejo-me atravessada  por isto —temos de ser permeáveis, entráveis, atravessáveis — para as coisas nos olharem por dentro; para que possam fazer parte daquilo que somos, para que possam viver em nós. Para nos reconstituirem, todos os dias. Para que, enfim, nos reconheçamos. Estes lugares antigos, mais contemporâneos do que nunca, com as ilusões e brincadeiras que nos iluminam, não pedem significados  acrescidos nem tentativas de compreensão — até porque, como nos ensinou Novalis, podemos fazer uns pelos outros muito mais do que compreender-nos. E agora digo eu: podemos reconhecer-nos. Abrir, receber, aceitar todo o inacabado e, por fim, saber que é isso que é amar. O colibri está em chamas, e mais vivo do que nunca; e na sombra, que é o inominável do dizível, podemos começar a ver nascer o jardim.

É necessário desembaraçar-nos da geometria, criar formas novas. Riscar a linha do limite ensina-nos a desenhar a expansão, em cada aurora que se rasga, livre, cheia de esperança.

Esta é uma exposição sobre o começo do mundo. Nesta "força activa e nocturna, obstinada criadora das coisas" [1] o coração palpita do centro da montanha, no peito do pássaro, na seiva das flores. Não é ilusão. Está tudo pronto.

 

 

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Maja Escher (Santiago do Cacém, 1990) Vive e trabalha entre Lisboa e Monte Novo da Horta dos Colmeeiros (Odemira). Completou a sua Licenciatura e Mestrado em Arte Multimedia na FBAUL. Bolseira da Ar.co em 2018/19. Participa regularmente em projetos e residências artísticas, nomeadamente nas Oficinas do Convento em Montemor-o-Novo. Destacam-se as exposições "Catharsis", Bienal de Design do Porto 2023, "Mater", com Virginia Frois e Marta Castelo, no Pavilhão Branco, Galerias Municipais de Lisboa, 2023, "So we ask you to sow us in the earth", com Sérgio Carronha, na Monitor Gallery Lisboa, 2022 e "Um dia choveu a terra" na Galeria Municipal de Almada.

 

Norberto Lobo nasceu em Lisboa em 1982. É uma figura de renome na música portuguesa. Construiu o seu caminho através de uma educação rica e independente. A sua música continua sempre a explorar e procurar novos caminhos e possibilidades. Ao longo dos anos colaborou com artistas como Munchen, Chullage e Lula Pena, além de ter sido co-fundador dos projectos Norman, Colectivo Páscoa e Tigrala. Partilhou palco com variados artistas internacionais como Lhasa de Sela, Devendra Banhart, Larkin Grimm, Naná Vasconcelos e Rhys Chatham.

 

Oro Íris (1994) é um dos pseudónimos de Laura dos Campos, artista multifacetada que cresceu em Lisboa. Em 2017 formou-se em Escultura na FBAUL. Teve variados trabalhos de todo o tipo como experimentadora do mundo. Participa regularmente em projetos artísticos e dedica-se à auto-edição. Destacam-se algumas exposições: "Entremãos", em Montemor-o-Novo, 2018, "Primavera Primitiva", em Lausane, 2018 e Oro n'a mata, em Lisboa, 2022.

 

Yaw Tembe nasceu em Essuatíni e vive em Portugal há vários anos. Formou-se na Escola Superior de Música de Lisboa, com o curso de Jazz, e na Faculdade de Belas Artes do Porto, em escultura.Multidisciplinar, trabalha e investiga sobre a fragilidade. O seu trabalho foi publicado em variadas editoras nacionais e internacionais incluindo Clean Feed, Creative Sources, Shhpuma, etc. Desde 2020 tem trabalhado como músico e sonoplasta, programando no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa.

 

Filipa Almeida nasceu em Lisboa, em 1996, cidade onde vive e trabalha. Licenciou-se em Ciências da Cultura e da Comunicação, na Faculdade de Letras. Realizou uma Pós- Gradução em Curadoria de Arte na Nova FCSH, um curso de Estética na SNBA e um Mestrado em Práticas Tipográficas e Editoriais Contemporâneas na FBAUL. É artista e curadora independente. 

 

 

Notas

[1] Rainer Maria Rilke em Cartas ao Mestre: Auguste Rodin, Lisboa, Sr Teste Edições, 2023, p.46

 

 


 



FILIPA ALMEIDA