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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Sobretudo, Nuno Félix da Costa @MIRA Galerias


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Sobretudo, Nuno Félix da Costa @MIRA Galerias


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ARQUIVO:


NUNO FÉLIX DA COSTA

SOBRETUDO




MIRA FORUM
Rua de Miraflor nº 155 - Campanhã
4300-334 Porto

12 SET - 31 OUT 2026


 

 

Sobre tudo o que se deve guardar, guarda teu coração, porque dele procedem as saídas da vida.

Provérbios: 4:23

 

 

Não quero escrever sobre fotografia — Não saberei fazê-lo. 

Não saberei fazê-lo com o mesmo rigor com que o que me afeta me permite ver — Desde já uma advertência aos que procuram neste texto um olhar esterilizado; um afeto não é uma experiência isolada da consciência de um sujeito. Mas já das imagens que procedem as saídas da vida… Arrisco um voo a partir dos cinzas, que guardam de cor a própria Vida, como os grifos com que me encontro tantas vezes em viagem, na passagem de combóio pelas Portas de Rodão; fénices do Possível. Trata-se porém ainda de um corpo de imagens por remembrar: sobre si mesmo, um relance necrófrago; autofágico. Estamos em Sobretudo, a exposição de Nuno Félix da Costa, no MIRA FÓRUM, em Campanhã, no Porto. 

Sobretudo é sobre o nada que é tudo; não sobre o mito do pássaro de fogo, antes sobre o seu voo em pairo sobre todos os mitos, que são, sobretudo, nada. Talvez apenas — e apenas como tudo — fragmentos atravessados por aquilo que neles se revela e portanto que os anima, que na Galeria não se faz presente se não pelo pulsar da nossa breve passagem — nela, o vento da ninfa [1] reacende as paredes vulcânicas do MIRA FÓRUM. Note-se o suporte expositivo das imagens: Duas alas de painéis suspensos compostos por duas a três imagens, rematados por um último, móvel mas pousado no chão. No mesmo, a imagem de um pé juvenil sobre o teclado de um piano — Pede-nos delicadeza na travessia, tato no pouso em terra firme e a escuta da “melodia de fundo” [2] — acolher o e-vento...E o advento.

A espectral estrutura suspensa das imagens está então preparada para as núpcias com o sólido aparelho de granito — a Galeria. A saber, ninfa significa jovem preparada para as núpcias e fonte das imagens. A ninfa é essa figura mitológica que tanto assombrou Aby Warburg, autor do paradigmático Atlas de Imagens (Mnemosyne Atlas), objeto de reflexão de Georges Didi-Huberman, Giorgio Agamben, Roberto Calasso ou mesmo Vladimir Nabokov; objeto, porque duplamente de posse e possessão. A sua condição espectral seria fatal; apenas a cópula com um humano lhe garantiria a continuidade sólida da sua prole — a carne encarnada. É essa espacialidade que as imagens do Nuno tornam específica no MIRA FÓRUM. Em nós, inextricável fusão. 

Os cinzas — ou as muitas tonalidades do preto e branco possíveis ao olho humano — deste corpo de imagens por remembrar — and about to remember — parecem surgir por detrás das imagens; como o tecido fotossensível da córnea que se estende para lá da parte frontal do olho, captamos algo anterior à linguagem; primitivo — belo de tão cruel. No chão, o inevitável reflexo da sua sombra luminosa. Contornamos os painéis e mais uma imagem que era a cicatriz de outra imagem, parafraseando um verso do Herberto Helder. A soma das partes é sempre maior que o todo. 

A textura do tronco prevê o corte preciso; braços são ramos, gestos por podar. Nada tão animal como comer de faca e garfo ao som da sombra de um piano longínquo, com vista para um porco faminto perdido nos escombros de um baldio, expectante de uma paz esquecida. No enquadramento agudo do silêncio semeiam-se batatas com batatas cortadas, empilham-se corpos entre sacas de ração para alimentar os poetas da violência do quotidiano —  Haverão outros? Procuram-se rostos em anjos de jazigos e encontram-se as cabeças do monstro que é as massas (Chaplin ainda a preto e branco) — monstro esse que se autoregenera, como um sorridente axolote em formol. Precisamos de mais hospitais para bonecas, menos crianças amputadas nos hospitais. A cicatriz de um espelho reflete infinitamente a dor. Tanta dor, tanto amor. Tanta dor, tanto amor. Tanta dor, tanto Amor…Sobretudo.

Pode um corpo ser remembrado com lucidez? 

Constelações, anacronismos, acontecimentos figurativos do Ser — toda uma linguagem sofisticada, demasiado académica para a velocidade do seu aconte-ser — a da luz.  E com ela a lucidez pontual diante do mistério, impossível de dirigir: Eis a nossa abertura à imensidão do Cosmos. Essa experiência que a dor torna precisa, no limiar da loucura, tão cara a alguns de nós: Do erudito Aby Warburg ao lavador de louça de cantina Henry Darger, Phillip K. Dick ou até mesmo Arthur Bispo do Rosário — sobre eles, o lucro por acumulo da moeda cunhada pelo capitalismo neoliberal; do New Age à arte que se ensina, ao nada onde aquilo que revela fica velado; i.e., o objeto do desejo identificado com a sua circulação no mercado artístico. 

Montar e remontar imagens é tantas vezes uma tarefa anti-apocalíptica; a arte é pulsão de Vida e a loucura o que cura (A.Jodorowsky): Só o Amor e a melodia de fundo são reais. É preciso com precisão cirúrgica atualizar esta certeza. Entre re cordis e a remembrança, as imagens do Nuno quebram a porcelana do relicário para revelar a relíquia; a fractura exposta e a fatura, de modo a constelar um corpo de relíquias. Os ossos em urnas equivalem-se ao santo (Régis Debray) — espera-se, que apenas quando dada à santidade a possiblidade de se revelar. O perigo são as imagens que aprisionam se tornarem ex-votos, se fechadas no negro tácito das urnas de eleição. 

Uma vez mais: Uma imagem é sempre a garantia do inacabado desse mesmo corpo — o seu Aberto. Quando não há acumulo, a soma das partes é maior que o todo. Como nos é dado a ver nesta exposicão, há imagens dentro de imagens, como um cem-número de microrganismos, invisíveis a olho nu, coexistem em relação cósmica em cada imagem do nosso corpo, sem que seja preciso consultar um tratado de imagiologia. Até aqui, nada de misterioso. 

Um outro mito: Isis remembrou o corpo desmembrado de Osíris em pranto; isto é, afetada — sabe-se hoje que há vários tipos de lágrimas, entre elas, um tipo mais espesso que decorre da libertação de substâncias analgésicas. To mourn (prantear) e memory (memória) têm ainda uma relação estreita na língua inglesa; o novo (corpo) — a montagem enquanto criação que é sempre o Aberto — emerge desse atravessamento; dessa soma que não é mecânico acumulo, disponível no disparar da inteligência artificial de uma qualquer câmera, ou de filtros em pós-produção. É outra a inteligência e o Nuno tem-na. 

Antes ainda da pele dos nossos olhos tocar a imagem do pé sobre o piano, num painel anterior, o Nuno tornou possível a suspensão de uma gadanha em pleno ninfal; esse campo, que é fonte para beber o futuro. Crop não é apenas cortar é também colher. Porventura, como o/a dono/a do pé cair em Si.  

Tanta dor, tanto Amor...

 

 

 

 

 

  

 

Madalena Folgado

É formada em arquitetura, mas a sua abordagem de investigação fenomenólogica  — o contrário do controlar e prever da prática de projeto em arquitetura — fê-la organicamente deslocar-se para contextos artísticos passíveis de acolher processualidades híbridas, constelares/ anacrónicas. Neste sentido, interessa-lhe a construção pela montagem — e também montagem em tempo real —, de espaços para reme-morar e re-membrar Corpos de Imagens enquanto Corpos de Afetos, na charneira entre o individual e o coletivo, de modo íntegro e intrincado — Do com-texto ao espaço físico; o Lugar enquanto combinação de memória e espaço, com potencial performativo emergente. O acaso como elemento por excelência da arte é o grande catalisador da sua prática híbrida. 

 

 

 

 

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Notas

[1] Referência ao Mnemosyne Atlas ou Bilderatlas. A ninfa torna-se não apenas um dos temas dos painéis que o compõem, como um referente imagético que atravessa a experiência da “sobredeterminação” das imagens (expressão encontrada por G. Didi-Huberman). Em A. Warburg, a ninfa começa por ser a figura extática do afresco de Domenico Ghirlandaio “La nascita di San Giovanni Battista” (1485-90), de panejamento esvoaçante, por oposição às demais figuras retratadas. Ela é a arauta do novo, inesperado; a provedora da abundância. 
[2] Referência a Notas sobre a Melodia das Coisas, de Rainer Maria Rilke. 

 

 

 

 



MADALENA FOLGADO