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ANNETTE MESSAGERLes MessagersCENTRE POMPIDOU Place Georges Pompidou 75191 Paris 06 JUN - 17 SET 2007 Em 2005, Annette Messager obteve não só o Leão d’Ouro da Bienal Veneza, como o feito de ter sido a primeira mulher a aí representar a França (que este ano se faz novamente desempenhar por uma artista do sexo feminino, Sophie Calle). Figura de proa da cena contemporânea internacional, o Centre Pompidou dedica-lhe neste momento uma exposição de grande envergadura, concebida como um panorama e não como uma retrospectiva, e acompanhada por um magnífico catálogo, co-editado pelas edições Xavier Barral. Messager concebeu ainda uma instalação espectacular para o fórum do Centro Pompidou - bem como o novo cartão dos sócios da instituição, onde um holograma exibe alternadamente “Laissez Passer” e “Laissez Pisser”. Intitulada “La ballade de Pinocchio à Beaubourg”, a peça visível no Fórum constitui o primeiro contacto do espectador com o universo particular da artista: gigantescos fragmentos de corpos mutilados – entre os quais uma enorme mão, vários seios e uma orelha - oscilam numa espécie de delirante sobe e desce, suspensos por redes negras sobre um mar de almofadas, no meio das quais circula um comboio transportando um pequeno Pinóquio... Porque Annette Messager preferiu um “panorama” a uma “retrospectiva”, a organização da exposição não segue uma ordem cronológica, obedecendo antes a um diálogo criativo entre peças, algumas das quais expostas publicamente pela primeira vez. Antes de penetrarmos na Galeria Sul, somos novamente acolhidos por um estranho bailado, desta feita de bonecos suspensos a uma trilha e intitulado “La Ballade des pendus” (2002). O desfile atribulado de esqueletos desarticulados e, entre outros, peluches estropiados, evoca um poema de Rimbaud, “Le bal des pendus” (1871), glosado inúmeras vezes por poetas e escritores. Mas a instalação é também visível do exterior, nomeadamente a partir local onde, desde há vários meses, se encontram instaladas algumas tendas de sem abrigos. Nada foi deixado ao caso na instalação das instalações – nem na articulação do diálogo expositivo. O percurso constitui uma magnífica síntese de cerca de trinta anos de actividade. Todos, ou quase todos, os temas tratados por Messager se encontram ilustrados, sejam eles a questão da identidade feminina, característica dos seus trabalhos iniciais (perfeitamente exemplificados pela peça “Ma collection de proverbes” (1974), uma colecção de lenços bordados com provérbios misóginos), ou a dimensão coleccionista e taxinómica da actividade artística (na primeira sala, podemos aperceber “La chambre secrète de la collectioneuse”, uma instalação de vários dos seus “Albums-Collections”). Várias instalações recentes, entre as quais “Casino” (2005), apresentada há dois anos atrás em Veneza, vêm contribuir para a sensação de que esta exposição representa não só uma antologia bem conseguida, mas também – e sobretudo - uma verdadeira consagração, nos vários sentidos da palavra. “Casino” constitui, aliás, o ponto central do percurso expositivo, como se o momento alto de Veneza tivesse sido o ponto de partida para uma exposição que, na realidade, se encontrava já programada antes de 2005. De “Casino” emana, literalmente, o “sopro original”, através das ondulações rítmicas dum imenso lençol de seda vermelho-sangue, diante do qual se apinham os visitantes. O “sopro” parece ser, aliás, um dos mais recentes temas privilegiados pela artista, tal como o amontoado de órgãos ofegantes de “Gonflés-Dégonflés” (2006) sugere. “Les Messagers” permite-nos assim revisitar alguns dos trabalhos mais conhecidos de Annette Messager, como “Mes Trophées” (1986-1988), por exemplo. Mas, sobretudo, a mostra dá-nos acesso ao universo de uma artista singular, onde a diversidade das estratégias vem apenas acentuar a sensação de estarmos diante duma única personalidade criativa. O universo de Messager, onde bonecos de peluche mutilados e animais empalhados convivem com estranhas criaturas disformes e arquejantes ou com irreconhecíveis objectos recuperados, e onde materiais e técnicas “femininos” (os tecidos, a lã, o bordado, etc.) se associam a estratégias de manipulação textual ou de automatização das peças, é um universo profundamente ambíguo. Se é comum referir a crueldade, a ironia amarga e o lado macabro das peças de Messager, essa leitura não deixa de ser extremamente limitada, excluindo, por exemplo, o aspecto lúdico, quase animista, de algumas peças da artista. Profundamente inteligente e sensível, o trabalho de Annette Messager surge aqui como dificilmente reduzível aos chavões que tentam aprisioná-lo nos termos de uma “arte feminina” ou “feminista”, ou como uma prática fúnebre e sarcástica. E é exactamente isso que a exposição “Les Messagers” nos mostra, demonstrando ainda como um trabalho eminentemente pessoal pode integrar algumas das tendências contemporâneas mais gerais e heterogéneas, como o “impulso arquivístico”, por exemplo.
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