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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da instalação Actos de Língua, de James Newitt e Carlos M. Oliveira. VAGA, Ponta Delgada, 2026. © Mariana Lopes


Vista da instalação Actos de Língua, de James Newitt e Carlos M. Oliveira. VAGA, Ponta Delgada, 2026. © Mariana Lopes


Vista da instalação Actos de Língua, de James Newitt e Carlos M. Oliveira. VAGA, Ponta Delgada, 2026. © Mariana Lopes


Vista da instalação Actos de Língua, de James Newitt e Carlos M. Oliveira. VAGA, Ponta Delgada, 2026. © Mariana Lopes


Video still, Actos de Língua. © James Newitt e Carlos M. Oliveira.


Video still, Actos de Língua. © James Newitt e Carlos M. Oliveira.


Video still, Actos de Língua. © James Newitt e Carlos M. Oliveira.


Video still, Actos de Língua. © James Newitt e Carlos M. Oliveira.

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JAMES NEWITT E CARLOS M. OLIVEIRA

ACTOS DE LÍNGUA




CARPINTARIAS DE SÃO LÁZARO
R. São Lázaro 72
1150-199

05 SET - 18 OUT 2026

Actos de Língua: Encontrar uma linguagem comum

 


[English version]
 


 

Numa altura em que os algoritmos das redes sociais nos dividem em tribos e o discurso político se torna cada vez mais polarizado, encontrar linguagens comuns que transcendam as diferenças adquiriu uma pertinência particular.

Esta necessidade de linguagens partilhadas está no cerne de Actos de Língua, uma ambiciosa instalação de vídeo e som com 44 minutos de duração, da autoria do coreógrafo Carlos M. Oliveira e do artista visual James Newitt, atualmente em exibição nas Carpintarias de São Lázaro, em Lisboa, até 18 de outubro de 2026.

Ao entrarmos no espaço de exposição escurecido, surgem à nossa volta várias configurações de seis pessoas, projetadas em tamanho real em seis ecrãs de grandes dimensões. Em vez de estarmos a ver filmes, temos a sensação desorientadora de termos entrado numa sala ocupada por pessoas.

Estas pessoas olham umas para as outras e emitem sons e gestos. Comunicam através da fala, da linguagem gestual, da leitura labial, do movimento e do toque. Por vezes, esta comunicação parece direta; noutros momentos, é difícil saber exatamente o que se passa entre elas.

O som em seis canais reforça a sensação do visitante de partilhar o espaço com elas. Um som provém de uma parte da sala, enquanto uma imagem responde a partir de outra. Os visitantes caminham entre os ecrãs para acompanhar o que está a acontecer. Como os projetores lançam as sombras dos visitantes nos ecrãs, os nossos corpos entram brevemente nas imagens.

Newitt e Oliveira coreografaram não só as pessoas que estamos a observar, mas também nós próprios.

 

Uma língua que não pertence a ninguém e a todos

A ideia para Actos de Língua surgiu depois de Newitt e Oliveira terem participado num workshop liderado pela bailarina e coreógrafa portuguesa Diana Niepce. Desde que um acidente em 2014 transformou a sua própria relação com o movimento, as performances e os projetos curatoriais de Niepce têm desafiado a ideia do corpo performativo normativo. O grupo era composto por pessoas com diferentes graus de capacidade e deficiência, relações físicas e sensoriais diversas com o ambiente que as rodeava e diferentes formas de comunicação.

Oliveira recorda um momento revelador em que os participantes pararam de se mover e se sentaram em círculo.

“Quando alguém falava, era necessário fazer três, quatro, cinco traduções simultâneas.”

As pessoas começaram a ajudar-se umas às outras. Uma afirmação podia ter de passar por várias pessoas e vários sistemas de comunicação para dar a volta ao círculo.

A conversa tinha começado a assemelhar-se a uma coreografia.

“Acho que o que estávamos a fazer”, diz Oliveira, “era criar coreografias de conversa.”

Posteriormente, Newitt e Oliveira reuniram o seu próprio grupo e passaram um mês a trabalhar com eles num estúdio. Não havia nenhum guião no sentido convencional. Em vez disso, conceberam exercícios a que Oliveira chama “proposições coreográficas”: situações regidas por certas regras, mas sem resultados predeterminados.

Newitt descreve estas “proposições” como tentativas de encontrar “coisas emergentes e, por isso, imprevisíveis que pudessem acontecer entre os participantes”.

Um encontro significativo envolveu Ana Ribeiro e Tony Weaver. Ana ficou surda já na idade adulta. Ela fala e lê os lábios, mas não usa a língua gestual. Tony é surdo desde o nascimento e usa a língua gestual. Considerados em conjunto, apresentavam um paradoxo intrigante: ambos conseguiam comunicar, mas não possuíam uma língua comum óbvia.

Começaram a criar uma.

“Trabalhámos com eles para construir uma linguagem comum que não fosse a linguagem específica de ninguém, mas que fosse criada coletivamente”, explica Oliveira.

Esta ‘proto-linguagem’ podia envolver gestos, expressões faciais, toque, movimento ou som. O seu vocabulário não pertencia a nenhum dos participantes e o significado tinha de ser negociado entre eles.

É difícil vivenciar Actos sem pensar no mundo fora do espaço expositivo. A grande promessa das redes sociais era que iriam ligar as pessoas. Em vez disso, contribuíram amplamente para a criação de comunidades fechadas, caracterizadas pelas suas próprias referências específicas, pressupostos e vocabulário. Podemos falar a mesma língua e usar exatamente as mesmas palavras, mas compreender essas palavras de formas fundamentalmente diferentes.

Actos oferece-nos uma contra-imagem: pessoas que partem de diferenças profundas e tentam construir uma linguagem que possam partilhar.

 

As distâncias entre nós

Para Newitt, o interesse pelos modos de comunicação tem sido parte integrante da sua prática artística há muitos anos.

Nascido na Austrália e radicado em Portugal desde 2013, Newitt realiza filmes e instalações que, frequentemente, partem de pessoas reais, locais, documentos ou acontecimentos, antes de se aventurar em território mais especulativo. A realidade e a ficção sobrepõem-se; a informação é incompleta; a experiência de uma pessoa nunca pode ser totalmente recuperada.

A memória e o esquecimento são temas recorrentes. O filme Fossil, por exemplo, teve origem, em parte, em fragmentos de textos escritos pela mãe do artista na sequência da perda de memória causada por um aneurisma cerebral. Em obras como Delay, I Go Further Under e Haven, o isolamento, o afastamento e as narrativas incertas tornam-se formas de explorar a dificuldade de aceder a outra realidade.

Um fio condutor que atravessa todas estas obras é a comunicação através de diferentes formas de afastamentos: entre uma pessoa e outra, entre a experiência e a representação, entre a memória e o presente, entre o facto documental e a especulação.

Actos leva esta preocupação a um novo território. Em vez de utilizar o cinema para reconstruir uma experiência ausente ou inacessível, Newitt encontra-se numa sala onde a própria comunicação está a ser construída diante da sua câmara.

Oliveira chega a esta sala por um caminho diferente.

Com formação em dança contemporânea e coreografia, tem trabalhado como coreógrafo, investigador e curador. A sua investigação de doutoramento analisou como as ideias coreográficas podem existir em diferentes meios de comunicação, tendo a investigação subsequente explorado a forma como o conhecimento coreográfico é transmitido entre corpos e meios de comunicação através de processos que ele descreve como “transduções”.

Para Oliveira, a coreografia vai, portanto, muito além da simples organização de passos de dança. Seja qual for o meio em que trabalha, a sua forma de pensar mantém-se coreográfica.

Em Actos, uma ideia transforma-se num gesto; um gesto é interpretado por outro corpo; o movimento transforma-se em imagem. O ato de comunicação passa de uma forma para outra e a ideia surge transformada.

O interesse de Newitt pelas lacunas através das quais o significado tem de percorrer cruza-se com o interesse de Oliveira pela transformação do significado enquanto este se desloca.

 

O leão de Wittgenstein

Em Investigações Filosóficas, publicado postumamente em 1953, Ludwig Wittgenstein apresentou uma das observações mais memoráveis da filosofia sobre a dificuldade de compreender outro ser:

“Se um leão pudesse falar, não o conseguiríamos compreender.”

O que Wittgenstein quer dizer não é simplesmente que não conseguiríamos traduzir uma hipotética língua de leões, mas que a compreensão depende de práticas partilhadas e de uma ‘forma de vida’ partilhada. A experiência que o leão tem do mundo seria tão diferente da nossa que dotá-lo de linguagem humana não iria necessariamente colmatar essa divisão.

Existe uma tensão fascinante entre o leão de Wittgenstein e Actos.

Ana e Tony não partem de um sistema linguístico suficientemente partilhado. Mas, em vez de aceitarem a incompreensão, tentam construir as condições sob as quais possam comunicar.

“Não se trata tanto de deficiência”, diz Oliveira, “trata-se das diferenças entre corpos e de como uma linguagem se constrói a partir das suas especificidades.”

Actos não defende que as diferenças possam ser abolidas. A comunicação surge precisamente porque as diferenças permanecem.

 

Coreografia expandida

A obra insere-se numa tendência mais ampla da arte contemporânea, geralmente designada por ‘coreografia expandida’: a coreografia pode organizar não só bailarinos, mas também objetos, imagens, arquitetura, tecnologias, espaços e espectadores.

Uma conferência realizada em 2012 em Barcelona, intitulada Coreografia Expandida: Situações, Movimentos, Objetos, colocou a coreografia em relação a estruturas e estratégias alheias à dança convencional.

A Retrospetiva do coreógrafo francês Xavier Le Roy, apresentada pela primeira vez na Fundació Antoni Tàpies, em Barcelona, em 2012, e posteriormente no MoMA PS1, foi um exemplo significativo disso. No interior da galeria, os intérpretes reciclavam e transformavam continuamente material proveniente de obras anteriores de Le Roy. O MoMA descreveu-a como um híbrido de coreografia e arte visual que transformou o próprio formato da exposição num meio criativo.

O Fausto de Anne Imhof, criado para o Pavilhão Alemão na Bienal de Veneza de 2017, constitui um exemplo ainda mais espetacular. A obra, com cinco horas de duração, combinava performance, escultura, pintura, música e arquitetura. A sua coreografia estendia-se por todo o pavilhão, com os intérpretes a ocuparem diferentes níveis e locais, enquanto os espectadores eram obrigados a deslocar-se e a alterar continuamente as suas linhas de visão.

Actos ocupa um território semelhante, embora as suas preocupações sejam muito diferentes.

A sua coreografia engloba os movimentos dos participantes, a câmara de Newitt, a montagem entre seis ecrãs, o som espacializado de Diogo Alvim e, por fim, os visitantes que se deslocam pela instalação.

Newitt filmou utilizando uma lente fixa, sem zoom. Para se aproximar de um rosto ou de uma mão, teve de aproximar o seu próprio corpo; para alargar a imagem, recuou. A câmara tornou-se, consequentemente, mais um corpo na coreografia.

 

Ouvir com o corpo

O design sonoro de Alvim segue o mesmo princípio.

Não há uma banda sonora musical convencional imposta às imagens. Grande parte do material provém de sons gerados durante as filmagens: estalidos de boca, a pele e os corpos a interagir com o espaço.

Distribuídos por seis canais, estes sons contribuem para transformar o espaço expositivo de um espaço de projeção num ambiente partilhado.

Cada participante descreve experiências sensoriais diferentes. Um deles fala sobre sentir sombras ao aproximar-se de uma parede; Ana descreve a sua perceção física individual do som. É dado o mesmo peso a cada relato.

A questão passa a ser menos “o que é que este corpo não consegue fazer?” e mais “como é que este corpo experimenta o mundo?”

 

Uma paisagem portuguesa em mudança

Há uma dimensão especificamente portuguesa em tudo isto.

Na opinião de Oliveira, Actos não poderia ter sido realizado exatamente da mesma forma há duas décadas. Em Portugal, os artistas não normativos têm vindo a tornar-se cada vez mais visíveis como profissionais das artes performativas, em vez de aparecerem simplesmente como sujeitos de projetos de caráter social. “Há 20 anos, não era assim”, afirma.

As instituições culturais também têm vindo a considerar cada vez mais a acessibilidade: quem pode entrar nos espaços culturais, quem pode vivenciar o que acontece no seu interior e qual o corpo que é inconscientemente tratado como a norma.

Actos reflete esta mudança sem fazer da deficiência o seu tema central. Em vez disso, as diferentes capacidades sensoriais e comunicativas tornam-se parte do material a partir do qual a obra é construída.

Newitt e Oliveira salientam que uma instalação com esta complexidade técnica seria, em Portugal, mais frequentemente associada a uma grande instituição. Em vez disso, exerceram a sua independência de produção e desenvolveram o seu próprio sistema de exposição transferível.

E que sistema! Por trás da aparente simplicidade de seis pessoas a ocupar uma sala, esconde-se uma rede elaborada de vídeo e som sincronizados, audiodescrição, legendas, ecrãs de dupla face e mais de um quilómetro de cablagem.

Mas quase deixamos de reparar na tecnologia. São as pessoas que permanecem visíveis.

 

Partilhar um espaço

Esta pode acabar por ser a conquista mais comovente de Actos de Língua.

Os seis ecrãs deixam de funcionar como seis canais de informação. Depois de passarmos algum tempo na instalação, os ecrãs assumem o caráter de seis pessoas com quem estamos, temporariamente, a partilhar um espaço.

A narrativa, no sentido convencional, é substituída por olhares, hesitações, repetições, tentativas falhadas, descobertas e momentos de compreensão. Passamos a estar atentos a pequenos atos de comunicação que, geralmente, passam despercebidos.

É aqui que Actos transmite uma mensagem que vai além das questões relacionadas com a coreografia ou a deficiência.

Vivemos em sociedades dotadas de tecnologias de comunicação que nunca foram tão sofisticadas, mas parecemos cada vez mais incapazes de chegar a um consenso sobre uma realidade comum. Perante a incompreensão, a tentação é refugiar-nos na companhia reconfortante de pessoas que falam como nós.

Os participantes de Actos fazem outra coisa.

Começam por reconhecer as suas diferenças, sem partir do princípio de que o significado passará intacto de uma pessoa para outra. Olham, ouvem, tocam, gesticulam, repetem, interpretam mal e, quando necessário, tentam novamente.

Por fim, entre eles, começa a emergir algo que se assemelha a uma língua. Uma forma de linguagem que não pertence a ninguém.

E é precisamente por isso que todos na sala podem começar a partilhá-la.

 

 

 


***

Um programa de intervenções públicas realizadas por artistas e investigadores abordará temas tão diversos como o corpo não normativo nas artes, a relação entre as imagens em movimento e o movimento dos corpos, bem como as ligações entre a coreografia expandida e o cinema expandido, durante a exposição, aos sábados, às 18h00. Entrada gratuita.

 

 

 

James Mayor

Nascido no Reino Unido, o escritor e jornalista James Mayor viveu e trabalhou em França, onde foi proprietário de uma galeria de arte contemporânea, atuou como consultor na indústria de artigos de luxo e traduziu catálogos para museus como o Louvre, o Musée des Arts Décoratifs e o Musée Guimet. James vive em Portugal desde 2014, onde escreve sobre cultura, causas sociais e vinhos.

 



JAMES MAYOR