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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição "Por Entre As Linhas" no Museu das Telecomunicações


Fernanda Fragateiro, "Não Ligar #1", 2007


Fernanda Fragateiro, "Não Ligar #2", 2007


Ana Jotta, "Madame De", 2007


Ana Jotta, "The Master´s View", 2006


Miguel Palma, "80 000 Volts para Leonardo da Vinci", 2007


António Olaio, série "Dial", 2007


Luísa Cunha, "The Red Phone", 2007

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ARQUIVO:


COLECTIVA

Por Entre As Linhas




MUSEU DAS COMUNICAÇÕES
Rua do Instituto Industrial, 16
1200-225 Lisboa

02 OUT - 30 ABR 2008


Por Entre As Linhas
Museu das Comunicações, Lisboa

É raro encontrar em Portugal intervenções contemporâneas que irrompam por entre colecções permanentes de museus de arte antiga, moderna, etnográficos ou mesmo regionais. Excepção seja feita aos museus dos transportes e das comunicações, instituições ainda jovens como é o caso do Museu do Carro Eléctrico no Porto (1992) ou do Museu das Comunicações (1997) em Lisboa, que abriu as suas portas a esta experiência museológica.


O Museu do Louvre, a grande instituição histórica e financeira de Paris, promove desde 2006 estes encontros “face a face” entre a obra clássica e a criação contemporânea, lançando este repto a artistas e a escritores como Tony Morrison (“L’étranger chez soi” 2006). O público pode, deste modo, redescobrir a colecção permanente através de intrusões contemporâneas. A exposição “Por Entre As Linhas”, comissariada por Isabel Carlos faz parte destes desafios.


A arte contemporânea vive e deve a sua existência ao contexto onde se encontra exposta. Este é um legado inultrapassável de Marcel Duchamp. E as obras dos 10 artistas expostos no Museu das Comunicações em Lisboa tentam ter isso em conta de uma forma mais ou menos surpreendente. No top ten dos 10 artistas que comemoram os dez anos da Fundação Portuguesa das Comunicações, está Fernanda Fragateiro que desenrola a teia de Ariana que nos permite entrar na exposição. A instalação “Não ligar#1”, utiliza todo um espólio de linhas de costura da casa Tavares e Tavares e liga dez metros de comprimento total de cada rolo à parede numa escultura minimalista, onde o néon é em fios de seda Guttermann… Esta obra encontra-se acompanhada por “Não ligar#2”, que liga duas mesas iguais com linhas cinzentas. Porém a conversa faz-se por trás das linhas, como no tempo em que Fernanda Fragateiro ouvia as conversas proibidas pelo regime, enquanto as suas tias costuravam… ela não ligava… A memória política perpassa quase sempre pelas costuras da arte e nem tudo em Portugal era o:“- ai! chega! chega! chega ó minha agulha!” da Beatriz Costa.

Este início do percurso expositivo situa-se no rés-do-chão do Museu, numa sala white cube vazia, muito diferente da atmosfera que encontramos ao entrar no espaço da colecção permanente. No primeiro andar para além das inúmeras intervenções da artista Ana Jotta, surge uma outra obra que confunde o tempo da realidade: “Aprender de Cor”, um trabalho vídeo de Pedro Barateiro. As memórias, o querer ultrapassar a velocidade das linhas que transportam a mensagem, simplificada num código, traduzida num manual escolar, a vontade de quebrar o que se aprende de cor para voltar a página, para uma folha em branco que quebre a linha da memória.

Continuando a deambular pela colecção do Museu deparo-me com uma passagem de modelos “plus vrais que nature” vestidos com o magnífico espólio de fardas dos correios nacionais, vídeo mis-en-scène por Vasco Araújo, ou “O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes”. E chegamos ao artista que melhor consegue jogar as regras deste jogo entre colecção e inclusão contemporânea: Miguel Palma, l’enfant terriblissime da arte contemporânea portuguesa. Este artista criou para “Por Entre As Linhas” duas obras que surpreendem o visitante quer pelo efeito de trompe-l-‘oeil da sua “Transbox”, uma mala-carrinha dos correios do futuro, exposta numa vitrine ao lado dos modelos de veículos vermelhos, quer pela surpresa provocada pela obra, que pela sua assimilação centrípeta junta as linhas dos discos em vinil ao irónico toque com o divino: “80.000 Volts para Leonardo da Vinci”.

André Guedes continua a agir invisivelmente criando um arquivo real onde “Pessoas, Grupos, Lugares, Valores e Datas” estão à disposição do visitante mas continuam tão anónimos que os imaginamos inventados: a mesa é em fórmica, as bolachas compradas no Lidl, os dossiers no Continente e no entanto os funcionários reais desapareceram.

Um facto curioso deste tipo de intervenção expositiva é que sentimos que a nossa atenção deve ser mais aguda ao percorrer o Museu para encontrar a pista que nos leva à criação contemporânea.
- Mas eles tocam, Senhor!
Os telefones!
Pretos, pretos, pretos como os da nossa avó.
Mas afinal só toca o vermelho… trrimm!
“The Red Phone” de Luísa Cunha precisa de ser atendido (mas não posso contar a conversa). E depois podemos encontrar as ligações musicais de António Olaio, “Dial, o Tempo Suspenso” que é também um tempo sem território marcado por linhas de fronteira(s) de Fernando José Pereira e as cartas de amor, “Letters” de Filipa César

Visitar esta exposição, dentro de um museu temático e com alguns acenos kitsch inevitáveis é perturbante porque ao lado de magníficos artefactos históricos encontramos obras que transformam radicalmente os conteúdos do Museu. A arte é contemporânea porque nos faz pensar. Compete-lhe desconstruir um elenco tradicional de objectos intimamente ligados à nossa história política e social permitindo uma nova leitura crítica dos mesmos. Por outro lado, alguns dos trabalhos são iminentemente lúdicos, talvez pela proximidade à colecção permanente. Vamos talvez deixar de saber algumas coisas de cor para as pensar diferentemente.


Sílvia Guerra