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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Isaac Julien, “Western Union: Small Boats”, 2007. 5 projecçÔes vĂ­deo, filme 35 mm, cor, som surround, 18', transferido para DVD/HD, 5.1.


Isaac Julien, “Western Union: Small Boats”, 2007. 5 projecçÔes vĂ­deo, filme 35 mm, cor, som surround, 18', transferido para DVD/HD, 5.1.


Isaac Julien, “Western Union: Small Boats”, 2007. 5 projecçÔes vĂ­deo, filme 35 mm, cor, som surround, 18', transferido para DVD/HD, 5.1.


Isaac Julien, “Western Union: Small Boats”, 2007. Vista geral da instalação. 5 projecçÔes vĂ­deo, filme 35 mm, cor, som surround, 18', transferido para DVD/HD, 5.1.

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ARQUIVO:


ISAAC JULIEN

WESTERN UNION: Small Boats




MNAC - MUSEU DO CHIADO
Rua Serpa Pinto, 4
1200-444 Lisboa

30 OUT - 18 JAN 2009


A apresentação de “WESTERN UNION: Small Boats” de Isaac Julien (Londres, 1960) no MNAC – Museu do Chiado, integrada no Festival Temps d’ Images deste ano, nĂŁo deixa de ter um significado particular, apesar de casuĂ­stico, para o contexto nacional. Se, por um lado, corresponde Ă  estreia internacional do Ășltimo capĂ­tulo de uma trilogia de vĂ­deo-instalaçÔes iniciada em 2004, por outro, faz com que Portugal seja o primeiro paĂ­s a exibi-la integralmente.

No conjunto, “True North” de 2004 (apresentada no Centro Cultural de BelĂ©m em 2006, aquando da exposição “Helga de Alvear – Conceitos para uma colecção”), “FantĂŽme Afrique” de 2005 (integrada na exposição “Ida e Volta: Ficção e Realidade”, apresentada pelo CAM-Fundação Calouste Gulbenkian em 2007) e “WESTERN UNION: Small Boats” de 2007 (agora em exposição no MNAC – Museu do Chiado), perfazem uma sĂ©rie de trabalhos que analisam diferentes paradigmas que atravessaram e continuam a assombrar a histĂłria e cultura africanas, nomeadamente as expediçÔes modernas e suas narrativas ideolĂłgicas, o colonialismo ou o fenĂłmeno da migração a par do da exclusĂŁo social. Mas ao invĂ©s de reportar aqueles factos num registo meramente documental, Isaac Julien opta por baralhĂĄ-los com referĂȘncias literĂĄrias e cinematogrĂĄficas ou ainda elementos performativos, para entĂŁo construir jogos de significação abertos. Assim, Ă© o prĂłprio mundo que retorna mas sempre ficcionado.

É neste sentido que podemos tambĂ©m olhar para a sua obra mais recente como uma ficção. Ao reconfigurar a temĂĄtica da viagem, que se estende a toda a trilogia, Julien faz de “WESTERN UNION: Small Boats” uma reconstituição imaginĂĄria do drama que actualmente assola milhares de imigrantes provenientes do norte de África e que tentam chegar Ă  Europa atravĂ©s do mar MediterrĂąneo e, em particular, da SicĂ­lia em busca de uma vida melhor. De facto, e dada Ă  sua privilegiada localização geogrĂĄfica, esta ilha tornou-se desde cedo um posto de intersecção de muitas civilizaçÔes, tendo sido ao longo dos sĂ©culos sequencialmente dominada por diversas culturas, chegando apenas a ser integrada no reino de ItĂĄlia, em 1860, por Garibaldi. Contudo, a narrativa em causa Ă© outra, se bem que nos trabalhos de Isaac Julien o presente se organize a partir de uma arqueologia. Ela chega-nos, entĂŁo, atravĂ©s do olhar de uma mulher crioula que regressa dos dois vĂ­deos anteriores para agora testemunhar a viagem de um pequeno grupo de imigrantes que parte da LĂ­bia e da TunĂ­sia, acedendo Ă  ilha siciliana por via do magnĂ­fico rochedo branco Scala dei Turchi, cena esta que, aliĂĄs, repete um mito local (*). E tal como em “True North” ou “FantĂŽme Afrique”, aquela mulher assume aqui o papel enigmĂĄtico de anjo espectral que transporta todo um passado, participando igualmente na contemporaneidade, mas da qual apenas nos devolve pequenos traços - destroços de barcos, corpos em movimento, sonhos, memĂłrias, desejos, roupas, lugares e paisagens - que convergem num encontro de imagens de extrema beleza e violĂȘncia. No entanto, e apesar de promoverem um forte efeito de sedução no espectador, estas mesmas imagens actuam criticamente, ao lembrarem, por um lado, as promessas da modernidade, vejam-se as cenas filmadas no PalĂĄcio Gangi, as quais revisitam o filme “O Leopardo” de Visconti, bem como a queda da aristocracia e a vinda de um mundo novo, e, por outro, os fracassos daquele amplo projecto representados pelos corpos mortos dos imigrantes que, esquecidos na praia de La Tonara, entram em confronto com os dos banhistas.

“WESTERN UNION: Small Boats” desenvolve-se, assim, indistintamente entre o sensĂ­vel e o inteligĂ­vel numa contĂ­nua deslocação espĂĄcio-temporal, que extravasa qualquer modelo narrativo fundado numa unidade de causa-efeito, ao mesmo tempo que fragmenta o trabalho em segmentos e repetiçÔes que, por sua vez, vĂŁo preenchendo os cinco ecrĂŁs da instalação, ao longo de quase vinte minutos. De facto, desde meados da dĂ©cada de 1990, que Isaac Julien nos tem habituado a complexas e estimulantes instalaçÔes ĂĄudio-visuais, mas que nem por isso deixam de ser pertinentes no contexto da sua obra. Um olhar mais atento perceberĂĄ, entĂŁo, que a utilização de um aparato tecnolĂłgico diversificado, como Ă© o caso, nĂŁo constitui um fim em si, mas antes um territĂłrio perceptivo descentrado, sobre o qual o sentido deste vĂ­deo se vai tambĂ©m produzindo.

No ano em que a Carta dos Direitos Humanos atinge o sexagĂ©simo aniversĂĄrio e em que o nĂșmero de imigrantes desaparecidos alcança os milhares, “WESTERN UNION: Small Boats” adquire uma relevĂąncia particular no actual debate sobre a migração, sobre quem pode ou nĂŁo entrar na Europa ou a discrepĂąncia das polĂ­ticas de imigração, ao mesmo tempo que interroga poeticamente a validade de uma globalização que despe os sujeitos de direitos e singularidades.



NOTA
(*) A lenda conta-nos que em tempos um grupo de piratas muçulmanos escalou o rochedo da província de Agrigento invadindo a ilha.




Sofia Nunes