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EXPOSIÇÕES ATUAIS


João Queiroz, S/título, 2005/06. Óleo s/tela, 190x250 cm

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ARQUIVO:


JOÃO QUEIROZ

Paisagens




CAM - CENTRO DE ARTE MODERNA
Rua Dr. Nicolau de Bettencourt
1050-078 Lisboa

12 ABR - 18 JUN 2006

As pinturas de João Queiroz no Centro de Arte Moderna

Paisagens sedutoras, melancólicas e nostálgicas são adjectivos com que se poderia caracterizar as paisagens que João Queiroz pinta. Mas tratam-se de pinturas que não servem de lamento por um mundo que já todos sabemos perdido, e a que só se tem acesso através de subtis e suaves evocações. Se a princípio a dimensão das telas (190X250cm) parece fazer-nos sentir uma espécie de grandeza inalcançável pela visão, descobre-se depois que só assim é possível a essas pinturas assumir o controlo das faculdades daqueles que nelas se perdem. Perder-se nessa espécie de monumentalidade pictórica é a condição de poder ver as pinturas de João Queiroz: só assim a plenitude de cores e movimentos pode ser tornada visível.

O olhar que está na origem destas telas é um olhar atento e exige, a quem com ele se confronta, a mesma atenção e concentração. No limite pode dizer-se que, no caso de Queiroz, temos de tomar o tempo da pintura e de a acompanhar durante todos os andamentos, como se faz com um tema musical: temos de o ouvir até ao fim. Chegar lá significa ter estado atento a uma sucessão de movimentos. Exigências estas devidas à natureza dos próprios trabalhos: simultaneamente são mancha e cor, estáticas e em movimento, representações e abstracções. A natureza surge como entidade dinâmica e variegada e não um pressuposto intelectual ou uma nostalgia sem sentido. Trata-se em cada um destes trabalhos de ver a natureza, e de transformar essa visão em imagem e em superfície. Tudo se passa como se a tela fosse pele: ao mesmo tempo que cobre e protege os corpos, deixa que se inscrevam na sua superfície as marcas do tempo que passa.

O olhar de João Queiroz é um olhar determinado. Como ele afirma em entrevista a Doris von Drathen: “Com o meu olhar não quero compreender nada, organizar nada, dispor de nada, catalogar nada. Eu não vejo uma árvore. Árvore é uma palavra. Eu vejo o movimento das folhas, vejo a relação de tamanho com uma pedra, a sombra. Procuro sempre deixar a relação com as palavras para entrar directamente em relação com as coisas. Não quero dar um nome a nada, enumerar nada. Só me interessam as relações, o peso entre as coisas…” Abandonar as palavras significa aqui dispensar ou, pelo menos, diminuir até onde lhe for possível as mediações que se tendem a erguer entre a visão e aquilo que se quer ver. Na mesma entrevista, o pintor tira mais consequências desta sua relação com a natureza: “Eu vejo na natureza um imenso campo de possibilidades de me pôr em causa, de me construir de novo e, a partir daí, viver de novo o outro como outro e reconstruir a minha relação com os meus semelhantes…”
Ou seja, está em causa não só a escolha de um tema artístico, mas um compromisso ético e moral que o artista impõe a si próprio. Kant diria que a possibilidade da constituição de uma comunidade humana é a de se poder reconhecer a humanidade fora de si. E este movimento, não de derramamento no exterior, mas de estabelecimento de pontes e criação de elementos comuns partilháveis é central na pintura de João Queiroz. O que não faz dos seus trabalhos armas ou ferramentas políticas. São antes modos humanos de mostrar uma possibilidade, quase esquecida, de ver o mundo.



Nuno Crespo