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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição. Fotografia: Pedro Tudela


Vista da exposição. Fotografia: Pedro Tudela


Vista da exposição. Fotografia: Pedro Tudela


Vista da exposição. Fotografia: Pedro Tudela

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ARQUIVO:


PEDRO TUDELA E MIGUEL CARVALHAIS

ANOTAÇÕES SONORAS: ESPAÇO, PAUSA, REPETIÇÃO




FBAUP - FACULDADE DE BELAS ARTES DA UNIVERSIDADE DO PORTO
Av. Rodrigues de Freitas, 265
4049-021 Porto

24 MAR - 30 JUN 2018

O SOM DO VAZIO

 

Falar de liberdade é falar de linguagem. Diz-nos a evolução da vida que a palavra é parte da evolução da linguagem no decorrer dos milénios. Os nossos antepassados fizeram evoluir os sistemas de comunicação através de signos que se prolongaram até aos dias de hoje. Podermos comunicar como nenhum outro ser vivo, torna-nos no único animal com capacidade para alterar o seu próprio futuro. Conseguimos, ainda, registar os principais dados transmitidos pelas gerações passadas no sentido de nos orientar para o que será, tornando-nos melhores, mais produtivos, mais inteligentes, mas também mais perigosos.

O ser humano é ainda capaz de ser poeta. Falar do mundo sem o descrever através da ciência e do que o compõe ao nível da física e da química. Podemos criar discursos matemáticos que nos permitem responder a problemas do universo ou criar uma música que fala de realidades invisíveis como a dor ou o amor. A linguagem conceptual pode atravessar um poema, uma pintura, uma escultura ou uma composição sonora, criando novas narrativas para a cor, o espaço ou o tempo.

 

Anotações Sonoras: Espaço, Pausa, Repetição de Miguel Carvalhais no Vimeo.

 

Ao entrarmos na exposição que Pedro Tudela e Miguel Carvalhais criaram para a sala de exposições da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, percebemos a importância que os artistas dão ao espaço e ao vazio. Se na arte quem faz é que é olhado, aqui os artistas são ouvidos e sentidos. A exposição apresenta uma instalação com oito monitores áudio, com o pavimento revestido com alcatifa branca, luzes e uma estrutura metálica suspensa, fazendo lembrar algumas instalações minimalistas de Dan Flavin.

O ambiente sonoro é o corpo invisível que se suporta na estrutura de metal e de luz, três peças, apresentadas ao longo de um mês cada, que são alimentadas pelas contribuições de 54 compositores convidados, “articuladas em composições algorítmicas, não-lineares, generativas e abertas” (pode ler-se no texto sobre a exposição). No momento em que visito a exposição, assisto à Composição nº2, composta por sons projetados aleatoriamente, criados especificamente para esta exposição sonora pelos 54 compositores (todos eles pertencentes à editora Crónica fundada em 2003 por Tudela e Carvalhais). Estes sons não se repetem e são interrompidos ou sobrepostos por frases poéticas (Tudela fala em português, Carvalhais em inglês), onde os artistas descrevem o que veem no photobook do compositor francês Pierre Henry, falecido em 2017.

Podemos imaginar que o som preenche o vazio na ausência de imagens bidimensionais, compensadas pelas imagens algorítmicas, símbolos da poética do espaço imaginado no íntimo de cada pessoa. Os códigos de comunicação presentes na vasta obra de Pedro Tudela remetem sempre para uma imaginação mais próxima do território da poesia do que da música. As suas instalações provocam no público a necessidade de criação de imagens mentais sugeridas pelos diferentes desenhos sonoros que fazem eco na nossa consciência, remetendo para “Echo” (1973) de Dennis Oppenheim, onde não há imagens ou instruções para mover o corpo no espaço. Se pensarmos que, à luz da história e da crítica de arte, é a partir do olhar que tomamos consciência da obra de arte, na instalação “Anotações Sonoras: Espaço, Pausa, Repetição” é através de múltiplos sentidos que tomamos contacto com a obra, onde o som se apresenta como a linguagem entre o artista e o receptor, procurando tornar visível o invisível.

A estrutura suspensa é a réplica da parede permanente da sala de exposição, mas aqui leve e transparente, como um espírito que se coloca entre o som e o espetador numa espécie de arena de escuta sugerida pela alcatifa branca, que sugere uma torção da própria sala de exposição. Ao sentarmo-nos no meio deste ambiente, conseguimos ainda sentir uma fragrância metálica (provocando um efeito eletrizante) criada especificamente para esta exposição.

A sala de exposições é um corpo que pode ser habitado mas é, na mesma medida, um corpo vivido pela obra de arte e pelo público que a visita, transformando o vazio num corpo habitado e cheio de vida. Neste sentido, o corpo assume-se como potência que incorpora a obra de arte, passando a existir apenas no íntimo de cada ser que a visita.

 

 

 

Luís Ribeiro
Doutorando em Arte Contemporânea no Colégio das Artes na Universidade de Coimbra. É membro fundador do Laboratório das Artes tendo organizado diversas exposições entre 2003 e 2015. Desenvolve a sua atividade profissional como artista, curador, produtor artístico e como professor de artes visuais. www.luisribeiro.eu



LUÍS RIBEIRO