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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição


Instalação ALMA HEIKKILÄ's, 2017. Photo Credit: Bruno Lopes


Detalhe da instalação ALMA HEIKKILÄ's, 2017. Photo Credit: Bruno Lopes


Instalação MUMTAZZ's, obras em papel. Photo Credit: Bruno Lopes


Instalação PETER ZIN's, obra gráfica. Photo Credit: Bruno Lopes

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COLECTIVA

A TALE OF INGESTION




MONITOR
Rua D. João V, 17 A, Campo de Ourique
1250-089

21 JUN - 25 AGO 2018


 “Remove the stalks from the ceps and chop them. Soak the brains in salted water for an hour, remove the fine skin with the blood vessels, and parboil the brains in milk.”

 

É uma receita de boletos estufados com mioleira que introduz a leitura cantada que David Horvitz propôs para a exposição “Tales of Ingestion”, organizada por Margarida Mendes na galeria Monitor. O público reunido numa das salas canta as três receitas, numa primeira leitura improvisada, as vozes a dispersarem e reunirem-se acidentalmente, o significado a surgir primeiro de tudo como som. Esta exposição reúne trabalhos de 6 artistas em volta da ingestão enquanto modo particular de relação, que transforma as partes desde dentro e as move num ciclo, engolir e digerir, ser engolida e digerida, sem fim.

Começamos pelos miolos e pelos cogumelos. Misturados num refogado, a matéria onde a neurociência durante décadas procurou fixar a individualidade, a expressão física da “personalidade”, e o “fruto” rizomático, a expressão reprodutiva do organismo-rede, um micélio no cio. Esta mioleira migada e temperada, refogada com os boletos, não trás somente o ser a que deu corpo para o prato, mas o nosso sujeito indivisível. Mas no ingerir imaginário deste refogado de mioleira e boletos é o movimento entrópico da vida que fica, o fazer-se corpo comendo, desorganizando e absorvendo outros corpos. Mas sobretudo uma relação inevitável, que nos estrutura a partir da fragilidade, e a possibilidade simbiótica, como nas descrições que Lynn Margulis faz da evolução das células eucariontes a partir de bactérias que ingeriram outras e se reproduziram em conjunto.

 

Na sala onde se fez a leitura o chão está coberto de formas serpenteantes, os moldes de Lupo Borgonovo podem bem ser o interior preenchido de canais digestivos, tendo a sua superfície sido moldada a partir de peles de diferentes animais, por vezes interna, outras externa. Perto deles, numa esquina do chão, pequenos objetos ovais de vidro, feitos de uma exalação só, destinados a serem jogados ao mar e preenchidos da vida que neles encontrar refúgio, potenciais microcosmos respirados. É um mundo preenchido de vida que abre a exposição na peça de Alma Heikkilä, que parte das pequenas partículas orgânicas e seres vivos que circulam no ar, que nos atravessam pela respiração. Esporos de fungos e algas, pólen, líquenes e microorganismos, o ar já não um substrato inerte, o quase vazio, mas um campo saturado de comunicação e um território reprodutivo. Peter Zinn é um poeta e um mestre plantador de árvores, numa das paredes da exposição pende uma série de bandeiras produzidas por ele, trocadilhos, paradoxos, ditados indígenas ou simplesmente seres enunciados. Noutra das paredes, os desenhos de Mumtazz trazem-nos de novo para a fragilidade do corpo, continuada pela escultura cerâmica de Carlos Monléon, uma maquete de um forno a lenha desenhado como um sistema digestivo.

Num primeiro impulso, pensar um ser relacional trata das extremidades, do contacto com o outro, da extensão de um corpo individual a partir da sua rede de relações, dos acessórios que o expandem em funções. Talvez seja esse o limite do ciborgue, a entidade-extensão, que a ingestão vem transformar por dentro.



BRUNO CARACOL