Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição. Fotografia: Constança Babo.


Vista da exposição. Fotografia: Constança Babo.


Vista da exposição. Fotografia: Constança Babo.


Vista da exposição. Fotografia: Constança Babo.


Vista da exposição. Fotografia: Constança Babo.


Vista da exposição. Fotografia: Constança Babo.


Vista da exposição. Fotografia: Constança Babo.

Outras exposições actuais:

TÂNIA CARVALHO

COMO SE UMA CAMADA DE ESCAMAS BEM FECHADA


PLATAFORMAS ONLINE,
CATARINA REAL

FRANCISCO VIDAL

OFICINA TROPICAL


Zet Gallery, Braga
FRANCISCA CORREIA

MIGUEL CHETA

TODOS NÓS NASCEMOS ORIGINAIS E MORREMOS CÓPIA


CECAL – Centro de Experimentação e Criação Artística de Loulé, Loulé
MIRIAN TAVARES

ÁLVARO LAPA

LENDO RESOLVE-SE: ÁLVARO LAPA E A LITERATURA


Culturgest, Lisboa
JOANA CONSIGLIERI

JOANA ESCOVAL

MUTAÇÕES. THE LAST POET


Museu Coleção Berardo, Lisboa
FRANCISCA CORREIA

SALVADOR DALÍ

VISITA VIRTUAL


Teatro-Museu Dalí, Figueres
NUNO LOURENÇO

BÁRBARA WAGNER & BENJAMIN DE BURCA 

ESTÁS VENDO COISAS


Galeria Boavista, Lisboa
FRANCISCA CORREIA

ANDREAS H. BITESNICH

DEEPER SHADES: LISBOA E OUTRAS CIDADES


Museu Coleção Berardo, Lisboa
JULIA FLAMINGO

MANON DE BOER

DOWNTIME / TEMPO DE RESPIRAÇÃO


Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
MARC LENOT

CLAUDIA ANDUJAR

LA LUTTE YANOMAMI


Fondation Cartier pour l’art contemporain, Paris
MARC LENOT

ARQUIVO:


COLECTIVA

DELLA MATERIA SPIRITUALE DELL’ARTE




MAXXI – MUSEO DELLE ARTI DEL XXI SECOLO
Via Guido Reni, 6
00196 Roma

17 OUT - 08 MAR 2020


 

 

 


Art is, in fact, a necessity to and a product of the spiritual life.
Clive Bell, Art, 1913

 


Na atualidade, a informação, a tecnologia e o digital, áreas em velozes desenvolvimentos, invadem e dominam as várias esferas da vida do homem. Este tem vindo a contribuir para a supremacia da máquina, dando-lhe cada vez mais espaço e chegando, inclusivamente, a incorporar a mesma nos seus próprios comportamentos e modos de ação.

É este contexto elétrico, cada vez mais acelerado e hegemónico que propicia o abandono de conceitos outrora habituais e consagrados, caso dos mitos e enigmas, de metáforas e símbolos, de o espírito e alma, do ritual e sagrado. Estes, conjunta ou separadamente, constituíram inúmeros costumes, tradições e crenças e instituíram bases da fé e da cultura fundamentais e estruturais da sociedade. Face ao seu progressivo esquecimento, principalmente por parte das gerações mais jovens, começam a manifestar-se reações por parte de filósofos, pensadores e artistas que aí encontram o seu objeto de reflexão e de estudo.

Relativamente às práticas artísticas, sabe-se que são fortes ferramentas de problematização daquilo que as antecede, rodeia e se avizinha, bem como formas de comunicação particularmente eficazes não só entre produtores e receptores, mas também entre povos e em diferentes áreas, práticas ou científicas. A arte manifesta-se por meio de expressões que, independentemente da sua natureza formal, imagética e discursiva, podem orientar-se numa mesma rota e com um comum objetivo. Com efeito, foi precisamente com grande heterogeneidade, também característica da contemporaneidade, que se definiu e projetou a exposição no MAXXI - Museo Nazionale delle arti del XXI secolo, em Roma, inaugurada a 17 de outubro de 2019 e passível de visitar até 8 de março de 2020. Pautada pela diversidade das várias proveniências geográficas e culturais dos dezanove artistas convidados, apresentou-se com o título On the Spiritual Matter of Art [1], assim anunciando o conceito definido pelo seu curador Bartolomeo Pietromarchi, o próprio diretor do MAXXI Arte.

Quando visitada, na galeria 4 do museu, revela um forte caráter antropológico e arqueológico, mas cedo se compreende que a mostra não fica presa ou determinada por este. O que se observa é, ao invés, uma construção espacial atual, inesperada e dinâmica, de múltiplos elementos que se conjugam, interagem e dialogam entre si. Materializa-se, assim, numa constelação de obras de arte contemporâneas e de alguns artefactos de forte valor simbólico, datados desde o séc. VIII A.C, época da fundação de Roma. Expressando, deste modo, uma valorização do passado, a proposta é contemplá-lo pelo que foi e significou, reconhecendo ao mesmo tempo a sua forte influência no presente e no futuro. É, aliás, essa mesma consciência que se identifica na capital italiana que, sendo uma das mais antigas da civilização ocidental, preserva e celebra a sua história, simultaneamente acrescentando novas camadas e desenvolvendo-se social, urbanística, cultural e artisticamente.

A relação entre tempos é importante e, como Giorgio Agamben referiu, o contemporâneo deve ser capaz de compreender, de se situar e se mover entre "o tempo que já não é vs o tempo que está por vir". Ora, se as portas da galeria 4 se abrem para um objeto multimédia, metálico, colorido, sonoro e em movimento, Mandala (2003) da artista Kimsooja (1957-, Coreia do Sul), logo de seguida presenteia-se o espectador com uma obra inspirada na histórica Fontana di Trevi, construída no ano de 1762. O que agora se expõe, da autoria de Namsal Siedlecki (1986-, Estados Unidos), parte, conceptual e fisicamente, desse célebre monumento romano, dividindo-se em duas peças: Trevis (2019) e Viandante (2019). Observando o trabalho como um todo, contam-se seis figuras escultóricas com formas humanas e moldadas a partir do cobre de moedas atiradas, acumuladas e extraídas do fundo da fonte. Utilizam-se, pois, vestígios de uma prática que se tornou banal e universalmente conhecida e reproduzida que, por sua vez, deriva do ritual antigo de colocar objetos metálicos à água, através do qual se acreditava manter-se o contacto com diferentes épocas e culturas. Esta obra consiste, assim, num exemplar perfeito do que se procurou e explorou na presente exposição, ou seja, a relação, o cruzamento e o equilíbrio entre o novo e o arcaico.

Também, e relembrando que se encontram distribuídos pela cidade de Roma vários oblíscos indicativos do fascínio do Império Romano pela cultura egípcia, destaca-se o vídeo Nilus (2018), de Michal Rovner (1957-, Israel).

Convocando o dialeto dos hieróglifos, reflete sobre o ser contemporâneo enquanto indivíduo isolado, assim como parte da sua comunidade ou sociedade, no que o artista explica ser uma análise da condição humana. Ainda a referir, pelas suas qualidades simbólica e estética, é a instalação de Yoko Ono (1933-, Japão) que ocupa uma das últimas salas da exposição e sugere a ação e a reflexão coletivas. A obra, intitulada Add Color (Refugee Boat) e originalmente concebida em 1960, foi repensada e reestruturada relativamente ao contexto atual e propositadamente para a presente ocasião. Exibindo-se sob uma nova versão, incide, agora, sobre a problemática dos refugiados e convida à participação do espectador na criação de um mar de traços, desenhos e palavras a tinta azul que acomode os dois barcos dispostos em cena.

Como se refere no texto que acompanha a exposição, On the Spiritual Matter of Art procura reafirmar a centralidade do homem e do seu ecossistema, sugerindo o seu retorno à dimensão espiritual. Se no passado se acreditava que a ligação com essa esfera transcendente se concretizava por via da ligação do indivíduo com uma entidade superior, nos últimos tempos tem-se divulgado a ideia contrária, ou seja, de que a espiritualidade se situa internamente, em cada um. Assim se concebe um universo simbólico, em que tudo dialoga e onde a consciência humana se elabora num espaço que é tão sacro quanto civil e pessoal, diluindo-se barreiras entre áreas que, durante séculos, se acreditava encontrarem-se separadas.

Considerando que a mostra explora de que modo o artista contemporâneo compreende este complexo tema [2], refira-se que, como identifica o conceituado Remo Salvadori (1947-, Itália), é necessário, em primeiro lugar, questionar qual é a espiritualidade da própria arte. Para Namsal Siedlecki, esta situa-se na capacidade do objeto artístico efetuar, para fora de si mesmo e para um outro, uma transferência do seu conteúdo imaterial. Nesse sentido, sugere-se pensar a criação artística como meio de contacto com dimensões abstratas e, de igual modo, enquanto expressão das mesmas no mundo material, o qual é cada vez mais objetual, virtual e digital. Por certo, poderá dizer-se que a arte é uma das maiores forças da espiritualidade, através da qual perpassam e perduram mitos, símbolos, tradições e costumes, sendo a alma - ou a aura - da obra da arte transversal ao espaço e ao tempo.

Paralelamente, e recorrendo às palavras da artista Matilde Cassani (1980-, Itália), pode contemplar-se a possibilidade da espiritualidade da arte deter-se no espectador. Nesse caso, a exibição da obra, a sua recepção e a decorrente experiência estética são particularmente importantes e encontram-se excepcionalmente potenciadas por esta magnífica exposição.

 

 

 

 

:::

 

Notas

[1] Mais informações em: https://www.maxxi.art/en/events/della-materia-spirituale-dell-arte/
[2] Informação no vídeo promocional: https://www.youtube.com/watch?v=FY46YgKklgc&feature=emb_logo



CONSTANÇA BABO