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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Imagem digital do filme “Lascas”. Cortesia da artista.


Imagem digital do filme “Lascas”. Cortesia da artista.


Imagem digital do filme “Lascas”. Cortesia da artista.


Imagem digital do filme “Lascas”. Cortesia da artista.


Imagem de desenvolvimento do conceito. Cortesia da artista.


Cenário da cozinha durante as filmagens da técnica stop-motion. Cortesia da artista.


Processo de iluminação do cenário da sala, com o supervisor técnico dos cenários, Milán Kopasz. Cortesia da artista.


Setup das luzes, câmara e motor durante o processo stop-motion com Milán Kopasz e Balázs Varju Tóth. Cortesia da artista.


Processo de filmagem da técnica stop-motion com Natália Azevedo Andrade. Cortesia da artista.


Setup para a animação stop-motion com rigs feitos por Kása Karóly Papp. Cortesia da artista.

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ARQUIVO:


NATÁLIA AZEVEDO ANDRADE

THORNS AND FISHBONES




PLATAFORMAS ONLINE



01 MAI - 17 MAI 2020


 

 

“Far, far away, another day was coming”, é assim que começa o filme “Thorns and Fishbones”, de Natália Azevedo Andrade, apresentado na mais recente edição do Festival Flatpack, Birmingham, que este ano foi adaptado ao contexto virtual. Natália (1992) é natural de Braga, muito embora tenha vivido um longo período em Vila do Conde, e penso-o importante vendo que a dualidade da compreensão da presença da água, e do mar, simultaneamente como salvação e miséria, está recorrentemente presente nos filmes que apresenta. Está também presente a sua família, a sua narrativa familiar, e a força das mulheres, e também nelas a dualidade. Entre o que nos querem afirmar que somos e todo o outro espectro de força, forma e violência que talvez virão a ser descobertos além pele, e já não escondidos. O filme, “Lascas”, em português, e “Thorns and Fishbones” no título original, é um filme de animação desenvolvido em animação 2D e 3D e stopmotion. É este filme que assinala o final do mestrado de Natália na MOME, Budapeste.

“It wasn’t just green, it was the greenest of all places!”, talvez seja das reivindicações mais esclarecedoras deste e sobre este filme, assim como a asserção de que não podemos atingir a linha do horizonte, considerações tecidas no contexto das conversas entre as três crianças que, entediadas, imaginam histórias. Na sinopse do filme, designado como “drama familiar” de dez minutos, lê-se que “Três crianças, aborrecidas e negligenciadas, vivem das aventuras que criam nas suas cabeças, até que chega o dia em que tentam escapar de sua casa. A mãe, sempre atarefada, parece emocionalmente alheia ao que se passa em torno dela. À medida que as crianças crescem, e a rotina da mãe se torna cada vez mais cansativa, os segredos desta casa misteriosa tornam-se aparentes.“. Existe nesta personagem-mãe, a figura da mulher - como o são muitas das personagens de Natália-, uma dualidade entre vilão e vítima, construída sob a forma de personagem da mãe castradora e ausente, com um comportamento motivado pelo estado emocional em que se encontra. Esta personagem-mãe é também a evocação de uma figura ausente na vida de Natália, mas presente no seu imaginário pelas histórias que lhe eram contadas. Natália cresceu próxima de pessoas com doenças mentais, uma palavra que se evita quando se lhe deveria destruir o estigma e o medo, e cresceu com uma sensação transversal de isolamento quanto a si própria, enquanto criança, talvez fruto da incompreensão do sofrimento ou alheamento dessas pessoas. São estes sentimentos de ausência e isolamento que motivam o background, ou o cenário, também psicológico, onde e a partir de onde esta história se desenvolve. Há também um jogo técnico a ser operado no filme, a diferenciação entre o que é do sonho e o que é da realidade é-nos dado pela alteração da imagem, do tipo de imagem. O filme constrói-se em cima de dualidades; dualidade de perspectiva, de imagem, de sentimentos, o que contribui para este cruzamento - não diria confuso, mas - tricotado que é também o tecido da vida e do mundo.

As crianças que nele surgem, muito embora existam a partir do seu pensamento mágico, são muito adultas, como se fossem adultos presos em possibilidades mágicas infantis, ou que apenas não se conformassem com a realidade. E tudo se assemelha, como uma grande continuidade, entre as lágrimas e o sangue, entre as heras secas e os fios de cabelo. Entra a noite, e os sonhos das crianças substituem-se aos pesadelos dos adultos, e os cabelos são algas, mas são também instrumento de controlo, forma de incutir nos corpos a normalização. As imagens criadas por Natália, cumprem-se como uma grande pintura. Uma espécie de Peter Doig atraído ao universo de Paula Rego. E as coisas, as narrativas, os personagens e as paisagens são por isso evocação, figuração, representação mas são também fuga a uma linearidade. Pelo poder da sugestão - e continuando a ser imagens de crianças - transformam-se, desenvolvem-se como se estivéssemos sempre prestes a entrar num novo filme. Como se este fossem mil filmes condensados, cada um em cada recorte que pudéssemos fazer, cada efabulação que poderemos construir a partir de cada imagem e é entre estes cruzamentos que Natália constrói não só seu filme mas todo o seu imaginário.

“O que estás a fazer? À procura do caranguejo”: e este momento - mesmo preciso e mesmo urgente e mesmo violento - de arrancar o olho do peixe, com a violência de quem não presta atenção. Somos carnívoros, e também isso liga a casa ao sonho, ao espaço sem-com salvação.

 

Deixámos à Natália algumas perguntas, para percebermos melhor o seu universo, o filme e onde o poderemos encontrar novamente.

 

As referências e também as técnicas que usas nos filmes que fazes, acontecem de uma forma muito conceptual, no sentido em que as coisas encontram uma justificação para serem usadas, mesmo que no filme os códigos se diluam, tornando-se outros. Podes-nos elucidar um pouco sobre as referências do filme, sobretudo aquelas que articulam a imagem com a técnica?, por exemplo, sabemos que “Mirror” de Tarkovski mas também as pinturas do Hopper foram importantes. Esta articulação de muitas referências e de muitas áreas faz-me pensar no teu background enquanto estudante de pintura. É algo que te distingue?

Um background de pintura é algo relativamente comum entre os realizadores, tanto de live-action como de animação. Os filmes, especialmente de animação, são feitos de milhões de pecinhas; nesse sentido talvez um background de pintura me ou nos leve mais a olhar para as pecinhas que se relacionam com o lado imagético do cinema. Às vezes sinto que trabalhar em animação foi mais um acidente do que uma decisão propositada. Mas a animação interessa-me porque tenho sempre vontade de fazer tudo e tudo ao mesmo tempo, e nesse sentido ela tem-me dado muitas ferramentas. Absorver tudo sobre tudo tem-se tornado uma espécie de obsessão, e naturalmente acaba por se espelhar nas coisas que vou fazendo. Muitas vezes vejo as referências como uma boa maneira de construir coragem.

 

Não só deste, mas do teu universo fílmico, ficam-me muito presentes as figuras femininas. Descrevê-lo é complexo porque elas também são - o que vejo é que a tua construção de imagens é muito semelhante a estas figuras, elas são tudo, estão em constante devir, têm muitas faces, que são uma espécie de recortes e reenvios para outras coisas. Podes avançar um pouco mais sobre estas figuras, sobre este feminino que está marcado no teu imaginário?

Acho que maioritariamente os meus filmes falam muito sobre mulheres porque eu não sei muito sobre homens. Sempre que tenho criado uma personagem ela acaba por se tornar uma aglomeração de muitas pessoas, sentimentos e situações que vivi ou que me contaram. Neste último projecto houve um maior desafio, porque trabalhei sobre quatro personagens, quando geralmente trabalho sobre uma, mais autobiográfica. Queria muito criar estas personagens ambivalentes porque filmes são exercícios de empatia, e acho que todos temos, eu incluída, muita dificuldade em ser empáticos com mulheres más, distantes ou ansiosas. Não sei se acho que esta nova onda de representação de mulheres no cinema inclui este tipo frágil ou desconfortável de mulher. Uma mulher quase assexual, que não é fixe. Foi este o desafio deste filme. Outros filmes tinham outros temas - acho que vou falando do que vou sentindo e do que gostava de dizer mas não sei como. Muitas vezes acabo por criar estes filmes quase como argumentos em discussões inexistentes, que se passam na minha cabeça com a projecção de alguém que eu conheça.

 

Sobre a apresentação do teu filme nesta versão on-line do Flatpack Festival, podes falar-nos um pouco sobre a tua reflexão sobre o modelo de apresentação e acesso ao público, e o que isso implica para ti enquanto realizadora e para o filme enquanto objecto? Haverá mais participações em festivais virtuais, qual o cenário previsto? E, mais importante, onde poderemos ver novamente o teu filme?

Participar num festival online é sempre uma decisão muito complicada, e num ano normal nunca teria decidido fazê-lo tão cedo no percurso do filme. Muitos festivais são geralmente bastante contra passar filmes que já estiveram online, ou são muito preciosos sobre só passar filmes em condição de estreia. Geralmente isto faz algum sentido no modo como os festivais funcionam, mas com a imprevisibilidade deste ano acabei por decidir que mostrar o filme é melhor do que não o mostrar; no fundo esse foi o factor decisivo. O Flatpack teria sido a estreia internacional do filme, é um festival cuja programação me interessa muito, com grande jovialidade e garra. Desse modo senti-me segura em passar junto da sua selecção de filmes, mas sinto que o lado social do festival foi completamente aniquilado nesta transição. Senti-me muito sozinha. Muitos festivais têm adiado as suas datas ou decidido fazer o festival online, alguns estão em perigo de desaparecer permanentemente ou simplesmente não anunciaram seleções nem fizeram comunicação nenhuma. Penso que é bom manter os filmes que saíram este ano acessíveis ao público; mas tenho andado muito triste com a impossibilidade de partilhar a experiência do grande ecrã com as pessoas. Criar um filme é quase que uma grande agressão emocional, que precisa do momento da partilha para gerar algo positivo. Tenho alguma esperança de poder mostrar o filme no Outono, em Portugal, mas ninguém parece saber bem o que esperar durante esta crise. Acho que participar em muitos festivais online seria redundante, e tenho a esperança de que não seja esse o caminho que o filme vai seguir. Mas se acreditar na equipa programadora de um festival e achar que têm uma boa solução para a transição acho que seria possível voltar a fazê-lo. Em resumo, a única coisa pior do que ter um percurso de exibição exclusivamente online é não ter a possibilidade de mostrar o filme de todo.

 



CATARINA REAL