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JEAN-LUC MOULÈNETÉCNICO LIBERTÁRIOCASA SÃO ROQUE - CENTRO DE ARTE Rua São Roque da Lameira 2092 4350-317 Porto 17 OUT - 04 MAI 2022
A exposição Técnico Libertário [1] em exibição na Casa São Roque-Centro de Arte (São Roque da Lameira-Porto), com curadoria de Barbara Piwowarska, celebra a obra de Jean-Luc Moulène, mergulhando-nos no universo de parâmetros conceituais do artista francês que, alternando entre fotografias, desenhos, objetos de produção industrial e artesanal, e trabalhos que exigem competências tecnológicas avançadas - de larga ou de pequena escala - procura fornecer-nos hipóteses resultantes de investigações complexas, rigorosas e ambiciosas. Curioso o título atribuído à exposição, Técnico Libertário, referência àquele que cria eventos subvertendo procedimentos comuns, é aliás como technicien libertaire [2] que Moulène se autodenomina, expressão que pode remeter-nos para a integração de diversas técnicas de produção no seu trabalho. Envolvendo questões como a linguagem e literatura, a publicidade e comunicação, a imagem, o corpo, a produção e circulação de objetos, a ciência, a filosofia e a antropologia, a prática artística de Jean-Luc Moulène desenvolve-se segundo a exploração de formas e materiais que se traduzem numa variedade de médiuns - esculturas, vídeos, fotografias, desenhos, gravuras e instalações - que operam em diferentes campos. A obra de arte como ponto de discussão e como lugar de partilha e de experiências, são noções que encontramos no seu trabalho, para quem a obra de arte é um lugar de conflito em que o espectador tem de encontrar o seu próprio caminho.
No andar principal da Casa São Roque, cuidadosamente disposta no centro da sala de jantar, ocupando um lugar de destaque, a obra ça ouvre, ça ouvre pas, 2021 desperta de imediato a nossa atenção. A penetração e intensidade da luz solar, conseguida pela varanda-terraço que possibilita um prolongamento do interior da sala e a sua relação com o exterior, acentuam o exotismo e caráter eclético do espaço nobre e de tratamento rico, o requinte do mobiliário e dos elementos decorativos, ao mesmo tempo que qualificam, no cerne da encenação, a grande instalação de Jean-Luc Moulène. A sala de jantar, projetada de raiz por Marques da Silva, por volta de 1902, assim como o mobiliário e os acabamentos, num estilo neo-imperial francês, promove em Técnico Libertário um encontro entre o arquiteto português e o artista francês, não obstante o contexto cultural e temporal que os separa. Sob o olhar atento e sereno das duas esfinges em mármore cinza, de pés e cabeça dourados, quais guardiãs da obra de Jean-Luc Moulène, ça ouvre, ça ouvre pas, emerge desafiando a nossa atenção. A instalação intriga-nos ao mesmo tempo que nos envolve num universo simultaneamente sólido e inquebrável, mas de aparente fragilidade. À medida que percorremos a obra, contornando-a e observando-a sob diversos ângulos, num exercício de proximidade e interação, desvendam-se-nos camadas que se cruzam e intercetam dentro de uma lógica de sobreposições que acompanham a exposição e em que a dualidade interior/exterior, dentro/fora, aberto/fechado é uma constante. Concebida durante o contexto pandémico, no estúdio do artista em Le Buisson, na Baixa Normandia, para integrar a exposição no andar nobre do palacete, não deixa de ser curiosa e com certeza pouco inocente, a escolha de três baús pertencentes ao recheio da casa. Dada a impossibilidade de viajar face à pandemia e após o envio de diversos objetos que remetiam para a história e memória da família, do palacete e do Porto, Jean-Luc Moulène seleciona os baús vazios, mas com muito significado [3], cheios de histórias, enquanto objetos que materializam a memória material do espaço. Os rótulos Premiado na Exposição Universal de Paris de 1889 e Para viagens e exportações entre o Reino, as Ilhas e África, de 1900, denunciam o caráter nómada e transatlântico - que com certeza terá atraído Jean-Luc Moulène - destes baús coloniais, fabricados em Lisboa e no Rio de Janeiro, que após a recente viagem ao encontro de Moulène, são devolvidos pelo próprio à casa, agora com uma função e tipologia diferentes. Interessante pensarmos na própria ideia de baú/mala enquanto casa, como signo que comporta uma dimensão pessoal, de identidade e de pertença no qual guardamos e transportamos objetos relacionados com a nossa intimidade, o nosso universo privado e, por conseguinte, uma extensão de nós próprios, da nossa individualidade. Assim como a arquitetura de elite dos séculos XIX e XX, resultante do Iluminismo e do Liberalismo, traduz uma nova forma burguesa de habitar o espaço onde as esferas do privado/público se encontram bem diferenciadas, de que a Casa São Roque é exemplo, também os baús enquanto objetos que se abrem e fecham, ocasionam uma dialética e ambiguidade entre o interior e o exterior, presença e ausência, privado e público, qualidades que percecionamos na instalação. Objetos do quotidiano, provenientes de uma aparente banalidade, subvertidos, camuflados pelo artista que recorre ao uso do cartão, material pobre, de fabrico industrial, simultaneamente leve e robusto, mas também efémero e perecível que contrasta com os restantes materiais que compõem a instalação: a madeira, a pele e o metal, aludindo conceitos de fragilidade e temporalidade. Destaquemos ainda o rigor matemático com que Jean-Luc Moulène concebe a obra, ao mesmo tempo que explora a potencialidade experimental do cartão – trabalhado manualmente como indiciam os traços de cola na união entre os baús e cartão – num certo cubismo ou geometrismo, envolvendo extrema precisão e atenção aos detalhes: linhas que se cruzam diagonalmente, que se intercetam criando ângulos retos. Como num puzzle em que se tenta encontrar a peça certa para inserir na outra, Moulène com grande rigor e minúcia procura a geometria correta para promover um encaixe entre os três baús e assim fazer algo reflexivo sobre os movimentos de coisas e pessoas. À precisão matemática e geométrica da instalação acrescesse como contraponto a imperfeição e desordem propositadas, recorrentes da utilização do cartão, o menos qualificado dos materiais para fechar todas aberturas, numa obra que joga com a nossa perceção, simultaneamente aberta e fechada, num jogo irónico e ilusório, assumido pelo título da obra –ça ouvre, ça ouvre pas- num contrassenso que revela o humor e genialidade de Jean-Luc Moulène. Como o Angelus Novus (1920), de Paul Klee – pertencente à coleção da Casa São Roque - que para Walter Benjamim se assemelhava ao anjo da história que contempla os despojos do passado quando empurrado pelos ventos do progresso, também nos observamos a o equilíbrio frágil da instalação, entre a queda, o abandono e a eternidade. A par da qualidade imagética das suas fotografias e esculturas [4], destaquemos a plasticidade dos materiais a que Moulène recorre - o bronze, o vidro, o cimento ou o plástico - e a sua capacidade de manipular e transformar os objetos que cria ou encontra, industriais ou orgânicos, metamorfoseando-os. I consider my images and objects as tools, articles of use: practical above all else. I begin to think that my ideal art objects could be something like a tool acting directly in life. If I could do art works operate with the same efficiency as tools, I would be really pleased [5]. O artista enfatiza na sua prática a importância da manipulação a partir da ideia do utensílio: as tensões implícitas aos materias tanto quando estão adormecidos como em ação; procurando tornar visível a complexidade dos utensílios pois estes agem no espaço e na perceção mesmo num estado aparentemente adormecido - a função está dentro da forma. A este propósito destaquemos Compas, 2021, uma das novas obras do artista executada durante a pandemia e em exibição na exposição. Partindo do prossuposto de que a forma do utensílio imita no espaço a sua função [6], Moulène apresenta-nos um compasso amarelo feito com um ramo de madeira cortado em duas hastes, sendo que uma contém um lápis para desenhar. Chama-nos a atenção o fato do artista apresentar a representação de uma peça industrializada recorrendo a um material natural, a madeira, na qual nos é possível observar as curvas e veios do seu interior, formas que Moulène considera mais complexas do que o próprio círculo [7] que o compasso desenha. Recorrendo ao humor Moulène confronta-nos nesta obra com uma série de contradições sobre o que o utensílio pode fazer, um objeto que joga com as nossas perceções: parece, mas não é um compasso, sendo inutilizável para a função de medir e traçar círculos, muito embora contenha o lápis. A partir desta sua ação de produzir um compasso cujas hastes não são retas, e que fazem lembrar duas pernas partidas, o artista desfigura o próprio círculo enquanto signo associado à eternidade e ao divino, à unidade. O compasso, considerado o emblema das ciências exatas e do rigor geométrico (...) utensílio que traça movimentos e móvel ele mesmo, que gira sob a sua ponta voltando ao ponto e partida, [8] é intencionalmente alterado pelo artista, colocando-nos a nós -espetadores- no centro da ação, observando os traços e as linhas das hastes de madeira, ao mesmo tempo que imaginamos os movimentos que este compasso pode traçar na sua posição de fuga. Não seria possível falarmos da prática artística de Jean-Luc Moulène sem mencionarmos a importância que o corpo humano e os órgãos têm na sua obra. Como metáfora que nos permite mergulhar no interior dos seus objetos, Moulène transporta-nos para o âmago dos seus interesses, em peças como Caddy, 2021. Numa união perfeita entre a produção artesanal e industrial, observamos um carrinho metálico de supermercado –numa clara alusão à noção de produto – cujo gradeamento tenta atuar como caixa torácica, guardando no seu interior uma enorme peça azul em vidro soprado representado um pulmão. No seu conjunto a obra alude-nos à respiração, ao movimento de expirar e de inspirar e à dualidade de interior e exterior, que iremos encontrar na obra ça ouvre, ça ouvre pas. Há tensão nos objetos que compõem a obra, mas que se engajam mutuamente; a permeabilidade das grades metálicas do carrinho que encerram o pulmão permite-nos observar o objeto, assim como a plasticidade e transparência do vidro permitem-nos ver o seu interior cheio de ar. Tal como Caddy que alude ao efeito de respirar através do espaço contraído e dilatado, enchemos os pulmões de ar e expiramos, expelindo-o para fora, num movimento que nos recorda o esforço do trabalhador que sopra, inflando o vidro. Interessante pensarmos como o movimento de expansão e de expiração de Caddy é totalmente oposto ao movimento de contração de Riche, 2010, uma oposição que, no entanto, se articula e permite criar conexões através da relação com a matéria e os processos de produção. Riche consiste numa garrafa de plástico parcialmente cheia de água e que suporta no gargalo um enorme diamante falso. Partindo do modelo de uma garrafa de plástico standard, produzida em série - que o artista começou a colecionar em 2000 - Moulène altera-a através do calor, encolhendo e retraindo o objeto, criando uma nova garrafa, num processo oposto ao da sua fabricação através da injeção de ar dentro plástico –tal como na peça de vidro soprado, cuja plasticidade da matéria no seu estado fundido tem afinidade com a ação do calor no plástico, ao permitir um estado de mudança e deformação.
Suspensas em paredes ou no teto, repousando no chão ou delicadamente exibidas em pedestais e mesas, as obras de Moulène convidam-nos a explorar e refletir sobre conceitos como transparência, densidade, calibre, expansão, disjunção, interseção, tensão, cortes e direção, numa obra de dimensão social e política que nos apresenta hipóteses, numa exposição que testa uma nova dinâmica entre obras de arte contemporânea e espaços interiores burgueses.
Mafalda Teixeira
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Notas [1] Exposição inaugurada a 17 de outubro de 2021 na Casa São Roque onde permanecerá em exibição até ao dia 4 de maio de 2022.
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